Mille Petrozza explica que novo trabalho é um recomeço: “toda vez que faço um álbum, eu trato como se fosse o meu primeiro”

Mesmo com décadas de estrada e com parte dos fãs antigos apontando mudanças na sonoridade — especialmente pelo uso mais frequente de guitarras melódicas desde o início dos anos 2000 — o Kreator segue como um caso raro de veteranos que rejuvenesceram a própria base sem perder força. Ainda hoje, o grupo consegue algo incomum: fazer com que os discos recentes sejam tão celebrados quanto a fase clássica, além de sustentar shows explosivos mesmo quando prioriza material novo.
Esse contexto ajuda a entender o peso das declarações de Mille Petrozza sobre o processo criativo do próximo álbum, “Krushers Of The World”, previsto para janeiro de 2026 via Nuclear Blast Records. Em vez de olhar para trás como muleta, ele reforça uma postura de risco calculado. Mille quer evitar que a banda vire “atração nostalgia” e, dessa forma, mantem a chama acesa álbum após álbum.
Por isso, Mille Petrozza crava uma ideia que parece absurda à primeira vista, mas faz sentido dentro da longevidade do Kreator: “toda vez que faço um álbum, eu trato como se fosse o meu primeiro”. Em seguida, em entrevista ao Inner-Strength Check, ele completa: se existe algo que ele não quer, é “repetir o que já fizemos no passado”. E essa afirmação vem mesmo sabendo que tocar Metal “direto” — e não Metal Progressivo — impõe limites.
Sem virar “banda de nostalgia”: o desafio de compor dentro do próprio estilo
Ainda assim, ele troca a busca por complexidade gratuita por foco no essencial: “pra mim, tudo é sobre as músicas… tudo é sobre a composição”. E, para sustentar essa filosofia, Mille Petrozza falou em entrevista a Ola Englund, que encara cada nova leva como um teste pessoal: “eu vejo todo o processo de criar música nova como um desafio… se eu fico animado, eu lanço e espero que as pessoas também fiquem”.
Quando a conversa entra na duração e no formato das faixas, ele mostra pragmatismo. Mille Petrozza lembra que em “Hate Über Alles” (2022) apareceu uma música de sete minutos, mas destaca que isso não “precisou” acontecer agora. Segundo ele, as novas composições tendem a ficar na faixa de quatro ou cinco minutos e este foi um processo natural. Assim, ele prioriza coesão e emoção: as músicas precisam “fazer sentido”, “vir do coração” e refletir o que a banda viveu desde o último disco.
Essa autocrítica também guia cortes e escolhas. Segundo ele, o Kreator trabalhou com cerca de 12 músicas e deixou apenas 10 no tracklist. Outras ideias ficaram inacabadas — e ele segue escrevendo o tempo todo, filtrando pelo mesmo critério: “qualquer coisa que me empolgue vai parar em um álbum”. Desse modo, o repertório cresce, mas o disco final mantém intenção.
Demos, pré-produção longa e “Disneyland para metalheads”: como o disco ganhou forma
Em paralelo, Mille Petrozza detalha um método quase artesanal para validar canções: gravar demos bem produzidas e conviver com elas por meses. Ele cita o amigo Andy Posdziech, do Any Given Day, e explica que as demos já soavam muito próximas do resultado final. Aliás, isso foi o que permitiu ouvir repetidamente, ajustar pontos fracos e reforçar o que faltava. Até durante tarefas do dia a dia, como “lavar a louça” ou “limpar o apartamento”, ele estava atento com a música tocando ao fundo.
Esse cuidado se conecta ao trabalho em estúdio com Jens Bogren, no Fascination Street Studios, em Örebro, Suécia — o mesmo produtor ligado a “Phantom Antichrist” (2012) e “Gods Of Violence” (2017). Mille Petrozza descreve a experiência como intensa e positiva, com a banda muito preparada e com química interna forte; além disso, ele afirma que Jens Bogren “colocou coração e alma” na produção, em um ambiente que ele compara a uma espécie de “Disneyland para metalheads”, já que tudo acontece “sob o mesmo teto”.
No fim, a mensagem central das entrevistas amarra o passado ao futuro sem cair na armadilha do conforto: rotina mata criatividade, então ele prefere se questionar o tempo inteiro, viver com as músicas e manter um nível alto de exigência. Se o Kreator ainda provoca debates sobre mudanças e melodias, Mille Petrozza parece aceitar o preço desse caminho — afinal, para ele, a relevância nasce menos de repetir fórmulas e mais de perseguir aquela sensação rara: criar algo novo que realmente empolgue.
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