Kiko Loureiro sobre a indústria da música: “As pessoas acham que só o talento, ou tocar bem, vai fazer alguém te ligar”

Photo: Elsie Roymans/ Getty Images

Muitas pessoas entram na indústria da música movidas unicamente pela paixão — aquele impulso genuíno de tocar, compor e viver a arte. No entanto, grande parte desses aspirantes a músicos não sabe absolutamente nada sobre construir uma carreira. É claro que dedicação, estudo do instrumento e desenvolvimento artístico são fundamentais, mas isso por si só não basta. Para transformar paixão em profissão, é indispensável compreender o funcionamento do mercado, as dinâmicas da indústria e as responsabilidades que acompanham a escolha de viver de música.

No mundo atual, as redes sociais têm um papel gigantesco e inevitável. Um músico que deseja ir além do hobby precisa aprender desde cedo como funcionam os bastidores do negócio. Dessa forma, é necessário criar presença online, entender marketing, desenvolver público, administrar finanças e se posicionar estrategicamente. Essa visão mais ampla do “business por trás da arte” é justamente o ponto central da fala de Kiko Loureiro. Ele destaca a importância de unir talento, disciplina e conhecimento profissional para construir uma carreira sólida na música.

Em uma nova entrevista com Andy Addams, do Shred Music TV, o guitarrista brasileiro Kiko Loureiro, mais conhecido por seu trabalho com o Megadeth e o Angra, foi questionado sobre qual conselho daria a jovens guitarristas que estão começando agora. Ele respondeu:

“Ah, bem, isso é difícil de responder, porque — é uma pessoa que está tipo, ‘Ok, vou comprar minha primeira guitarra. Gosto de bandas, gosto de música.’

Acho que no começo é algo bem natural”, continuou ele. “Eu tenho um grupo de mentoria com alguns jovens. É muito natural. Acho que todos eles são assim — os pais vêm e dizem algo como: ‘Meu Deus, meu filho toca muito bem.’ Ou então: ‘Ele passa o dia inteiro tocando guitarra’, ou algo do tipo. É aquela paixão, aquela energia que você tem aos 12, 13, 15 anos em relação ao instrumento, em vez de fazer outra coisa. Eu era um pouco assim quando tinha 14, 15. Acho que esse momento é natural. Então, não se trata de negócios, nem da indústria: ‘Vou ser um profissional.’ Trata-se de gostar de tocar música. Ainda acredito que tem que começar por aí, porque se você não tem isso em qualquer profissão, como vai ter sucesso? Aí é melhor ir para uma profissão que com certeza vai te dar dinheiro logo — vai ser advogado, consultor tributário, ou comprar e vender coisas e ganhar comissão, e pronto. Quando aquele produto não vende mais, você compra e vende outro que está vendendo. Então, quando você decide ser músico ou ter uma banda, é um tipo diferente de decisão. Essa paixão tem que estar lá, essa vontade de praticar, de tocar, de ensaiar, de gastar tempo, de investir, de comprar instrumentos. Nem parece um investimento. É mais tipo: ‘Quero comprar uma guitarra nova. Quero ter um pedal.’ É só porque você quer ter aquilo pra te ajudar a fazer mais música.”

Kiko acrescentou:

“Então, sim, eu não vejo, no começo, como entrar na indústria. Depois, quando você já tem essa paixão, está comprometido, e quer se tornar profissional, aí sim precisa entender a indústria. Então existe também esse erro: as pessoas acham que só o talento, ou tocar bem, vai fazer alguém te ligar, ou algo vai acontecer — um empresário, uma gravadora… ‘Onde consigo uma gravadora? Existe um empresário?’ As pessoas esperam que algo aconteça. Mas você realmente precisa aprender como a indústria funciona, começar a criar conexões e se expor — seja na Internet… Claro, hoje em dia eu começaria por aí. Eu começaria na Internet — TikTok, Instagram, qualquer plataforma com a qual você se identifique mais, que goste de usar. Escolha pelo menos uma e seja consistente. Da mesma forma que você tem que ser consistente ao praticar ou ensaiar, também precisa ser consistente no jogo da Internet. E aí continuar desenvolvendo sua musicalidade e entendendo o negócio da música.”

“Na maioria das profissões, quando você vai pra universidade, eles não ensinam muito sobre como ter sucesso na indústria”, observou Kiko. “Em música, com certeza. Mas às vezes você ouve isso de arquitetos ou designers. Eles aprendem muitas coisas, mas não [aprendem] ‘quanto eu cobro?’, ‘como eu pago impostos?’, ‘que tipo de nota fiscal eu preciso emitir?’, e por aí vai. As coisas práticas. ‘Como crio um público e converto esse público pra comprar meu produto?’ Ou coisas do tipo. Ou, se você quer fazer uma turnê, quais são as finanças da turnê? E assim por diante. Se for fazer um álbum, ok, quais são as finanças do álbum? Quanto você vai pagar?”

Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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