Kai Hansen lança o single bizarro “Welcome To Life”: mas que porcaria é essa, Kai?

Kai Hansen prepara o lançamento de Born With A Hammer, seu novo álbum de estúdio solo, para o dia 18 de setembro, através da earMUSIC. O trabalho contará com dez faixas e sucede XXX – Three Decades In Metal, lançado em 2016 sob o nome Kai Hansen & Friends. A produção ficou a cargo de Eike Freese, Kai Hansen e Alexander Dietz, enquanto as gravações reuniram Freese nas guitarras, Dietz, do Heaven Shall Burn, no baixo, Dan Wilding, do Carcass, na bateria, e Tim Hansen, do Induction, nas guitarras.
O primeiro aperitivo, “Feeding The Beast”, apresentou uma composição bastante característica de Kai, embora com uma pegada muito mais voltada ao Heavy Metal tradicional do que ao Power Metal que ajudou a consagrar seu nome. Não é uma música espetacular, mas é boa e cumpriu decentemente o papel de abrir os trabalhos. Então, no último dia 5 de agosto, chegou o segundo single, “Welcome To Life”, acompanhado por um lyric video. Segundo a divulgação oficial, a letra aborda a ideia de aceitar a vida como ela é, aproveitar aquilo que temos e não ficar preso ao que falta. Musicalmente, a gravadora destaca justamente as mudanças de andamento e a mistura entre Heavy Metal, Punk e Rock And Roll.
Kai Hansen sempre teve licença para ser esquisito
Sejamos sinceros: Kai Hansen já demonstrou certos graus de excentricidade em vários momentos da carreira, principalmente dentro do Gamma Ray. E isso nunca foi necessariamente um problema. Basta lembrar de “Money”, presente em Heading For Tomorrow, ou de “Heal Me”, do excelente Insanity And Genius, que em determinado momento entra em uma viagem teatral com clara inspiração em Queen. Mais adiante, “Lost In The Future”, de Somewhere Out In Space, resolveu enfiar a melodia da tradicional “Oh! Susanna” no meio de uma música de Power Metal porque… bem, porque Kai Hansen provavelmente acordou naquele dia e achou que seria uma boa ideia.
A diferença é bastante simples: mesmo nesses momentos estranhos, engraçados ou completamente fora da casinha, estávamos falando de boas músicas. A maluquice funcionava como um tempero. Você poderia estranhar aquela passagem, rir da ideia ou se perguntar o que diabos estava acontecendo, mas havia riffs, melodias, refrões e estruturas suficientemente fortes para sustentar a brincadeira.
Quando a brincadeira vira a música inteira
Já em “Welcome To Life”, o problema começa justamente aí: desta vez, a sensação é de que primeiro surgiram as gracinhas e depois alguém se lembrou de que também precisava existir uma música em volta delas. A composição começa com uma espécie de Country festeiro, quase música para entrar em um bar de estrada balançando uma caneca para o alto. Tudo bem, Kai Hansen pode tocar o que quiser. O problema é que aquilo não aparece apenas como um pequeno momento de descontração. A ideia se arrasta por boa parte da faixa e rapidamente começa a testar a paciência.
No meio, surge um trecho vocal no qual Kai parece tentar reproduzir aquelas brincadeiras de chamada e resposta eternizadas por Freddie Mercury nos shows do Queen. Só existe um pequeno detalhe: Freddie Mercury era Freddie Mercury. Naquele contexto, milhares de pessoas respondendo ao cantor transformavam aquilo em um espetáculo. Em “Welcome To Life”, a passagem soa mais como aquele tiozão animado que pega o microfone numa festa de família e decide que todo mundo precisa participar.
Mas calma, porque ainda não terminamos. Quando você pensa que a cota de bizarrice já foi atingida, a música simplesmente resolve virar um Reggae por alguns instantes. Por quê? Excelente pergunta. Talvez nem Kai Hansen saiba responder. A própria earMUSIC apresenta “Welcome To Life” como uma demonstração da diversidade de Born With A Hammer e destaca seu espírito mais despreocupado. Tudo certo. Só que diversidade, por si só, nunca transformou uma composição ruim em uma composição boa. Jogar Country, Rock And Roll, vocais brincalhões e Reggae dentro do mesmo liquidificador pode ser ecletismo; também pode ser apenas um liquidificador cheio de coisas que não deveriam estar juntas.
Kai avisou que sairia do padrão — mas precisava tanto?
Existe, pelo menos, uma atenuante. Kai Hansen já havia avisado que seu novo trabalho seguiria caminhos menos previsíveis. Ao comentar as composições surgidas durante a pandemia, o músico explicou: “As músicas que acabei usando nesse trabalho são, em sua maioria, as que fogem um pouco do padrão.” Portanto, ninguém poderá acusá-lo de propaganda enganosa. “Welcome To Life” realmente foge do padrão. Corre dele, pega um avião, atravessa a fronteira e provavelmente solicita cidadania em outro país.
O problema é o recado que esse segundo single passa. Depois de “Feeding The Beast”, uma primeira amostra que podemos classificar como boa — não ótima, mas boa —, “Welcome To Life” praticamente pede para que o fã diminua suas expectativas e não leve Born With A Hammer muito a sério. Se essa não era a intenção, então o senhor Kai Hansen poderia fazer a gentileza de explicar exatamente o que pretendia com um negócio desses.
Porque, sinceramente, este Kai Hansen em versão Ultraje a Rigor eu dispenso fortemente. Esperamos que Born With A Hammer não reserve muitas outras surpresas com esse perfil. Afinal de contas, estamos falando de um dos principais responsáveis pela criação e consolidação do Power Metal, fundador do Gamma Ray e peça fundamental da história do Helloween. Com todo respeito à liberdade artística, queremos o pai do Power Metal. Não a versão alemã dos Mamonas Assassinas.
Abaixo, confira a capa e o tracklist de Born With A Hammer:

- “Feeding The Beast”
- “Welcome To Life”
- “Don’t Care”
- “Wait And See”
- “Born With A Hammer”
- “I.D.G.A.F.”
- “End Of The Road”
- “Triple Trouble”
- “Invaders”
- “Wonderland”
