Jornalista militante Rachel Sherazade diz que James Hetfield “não entende de política ou não entende de Rock”

No último dia 10 de outubro, durante uma apresentação do Metallica na Sphere, em Las Vegas, James Hetfield aproveitou uma pausa no show para explicar aos fãs por que não pretende transformar os espetáculos da banda em espaço para orientação política. Antes da declaração, o vocalista agradeceu ao público pelo dinheiro, tempo e esforço empregados para acompanhar o grupo e destacou que aquele momento deveria funcionar como algumas horas de escapismo diante dos problemas do mundo exterior.

Hetfield foi bastante direto:

“O Metallica não está aqui, como alguns outros artistas, para influenciar vocês com as merdas deles.

Estamos aqui para esquecer todas as merdas lá de fora, certo?

A agenda do Metallica é amor, energia e música pesada, baby!”

Photo: ChinaImages @ www.depositphotos.com

Rachel Sheherazade critica posicionamento de James Hetfield

A declaração repercutiu rapidamente. Em meio ao ambiente político provocado pelas eleições de 2026, a jornalista Rachel Sheherazade, que neste ano chegou a disputar uma vaga de deputada federal por São Paulo pelo PSD, publicou um vídeo nas redes sociais criticando duramente o posicionamento de Hetfield. A candidatura da jornalista foi registrada oficialmente, e ela não foi eleita, terminando a eleição como suplente.

No vídeo, Sheherazade não se limitou a discordar da decisão do músico de separar discursos eleitorais dos shows. A jornalista procurou invalidar a própria ideia de que um artista de Rock possa escolher não utilizar o palco como espaço de posicionamento político.

Ela iniciou:

“Roqueiro apolítico, roqueiro neutro, roqueiro que não quer incomodar e roqueiro que não faz pensar deveria trocar de estilo musical.

Em meio aos protestos mundiais contra o governo Trump, o genocídio palestino e a volta do fascismo em países como Argentina, Alemanha e Brasil, James Hetfield, vocalista do Metallica, afirmou que não gosta de política, criticou bandas que se posicionam e disse que a agenda do Metallica é amor, energia e música pesada.

Ou ele não entende de política ou não entende de Rock.

O Rock nasceu da rebeldia, da contestação, da recusa em aceitar o mundo como ele é. O Rock desafiou padrões morais, sistemas políticos, enfrentou o conservadorismo, denunciou guerras, racismo, desigualdades, abuso de poder. O Rock transformou indignação em música e música em instrumento de resistência.”

Vale observar que, no pronunciamento realizado na Sphere, Hetfield não declarou que artistas estão proibidos de falar sobre política e tampouco citou qualquer candidato, partido ou movimento. O músico falou especificamente sobre aquilo que pretende fazer nos shows do Metallica: não tentar orientar politicamente quem está na plateia.

Sheherazade cita U2, Rage Against The Machine e Iron Maiden

Na sequência, a jornalista recorreu à história do Rock para defender que artistas do gênero possuem uma espécie de obrigação de denunciar questões políticas e sociais.

“Em Sunday Bloody Sunday, o U2 denunciou a violência política na Irlanda do Norte. O Rage Against The Machine usou a música deles para denunciar racismo estrutural, violência policial e a exploração dos mais pobres. Peter Gabriel homenageou Stephen Biko, assassinado pelo regime do apartheid na África do Sul. Em Two Minutes To Midnight, o Iron Maiden criticou a Guerra Fria e os interesses econômicos e políticos por trás da corrida armamentista nuclear.

Essas bandas entenderam algo fundamental: a música não precisa resolver todos os problemas do mundo, mas o Rock tem o dever de denunciá-los.

No Rock, assim como na política, não existe neutralidade, existe covardia e cumplicidade.”

A discussão proposta por Sheherazade, porém, mistura duas questões diferentes: utilizar a música para abordar guerra, religião, injustiça, autoritarismo ou problemas sociais e usar o palco para orientar diretamente o público sobre disputas políticas e eleitoreiras.

O próprio Metallica oferece exemplos suficientes dessa diferença ao longo de mais de quatro décadas.

O discurso que não para em pé

Existe uma soberba difícil de ignorar quando uma jornalista sem trajetória relevante dentro da cena Rock/Metal resolve ensinar James Hetfield sobre aquilo que o Rock deveria ou não representar.

Estamos falando do vocalista, guitarrista e principal letrista de uma banda que consolidou o Thrash Metal, lançou alguns dos discos mais importantes da história do Heavy Metal, atravessou gerações, acumulou clássicos e hits radiofônicos e alcançou um nível comercial que pouquíssimas bandas pesadas sequer conseguiram se aproximar.

O Metallica, inclusive, há décadas aparece em rankings gerais de turnês ao lado de gigantes de diferentes estilos musicais. Em levantamento histórico da Pollstar, por exemplo, o grupo chegou a aparecer entre os artistas de maior arrecadação em shows do mundo, disputando espaço com nomes do Pop, Rock e outros gêneros.

Talvez esteja faltando conhecer melhor a história do Metallica

A tentativa de classificar James Hetfield como um “roqueiro apolítico” também esbarra na própria obra que ele ajudou a construir.

…And Justice For All é praticamente um monumento à desconfiança em relação às instituições. O próprio site oficial do Metallica, ao revisitar o álbum recentemente, descreveu o trabalho como marcado por temas relacionados a um sistema quebrado, injustiça e contestação. Kirk Hammett ainda destacou o caráter político de The Shortest Straw, ligado ao macarthismo, enquanto explicou que o disco refletia a tentativa da banda de observar diferentes lados de questões complexas.

A discografia está cheia de músicas que abordam poder, guerra, manipulação, religião, censura, justiça, morte e comportamento social.

…And Justice For All ataca a corrupção da própria ideia de justiça. Eye Of The Beholder discute liberdade e controle. One transforma os horrores da guerra em uma das histórias mais perturbadoras já registradas pela banda. Leper Messiah dispara contra a exploração religiosa. The God That Failed carrega uma crítica profundamente pessoal à fé cega.

Também existem Master Of Puppets, sobre dependência e controle; Ride The Lightning, construída a partir da perspectiva de um condenado à cadeira elétrica; The Day That Never Comes, com imagens de violência e abuso; além de Hardwired e Spit Out The Bone, que trabalham a capacidade humana de produzir a própria destruição.

Portanto, reduzir Hetfield à figura de um “roqueiro que não quer fazer pensar” exige ignorar uma parcela bastante grande daquilo que ele escreveu.

O trabalho social do Metallica também existe fora das letras

Há ainda outro aspecto convenientemente esquecido quando se tenta colocar o Metallica dentro da caixa da indiferença ou em uma posição de simples isenção.

Em 2017, os integrantes e a administração da banda criaram a All Within My Hands, fundação dedicada à educação profissional, combate à fome e assistência a comunidades atingidas por emergências e desastres.

Segundo dados da própria instituição, suas iniciativas já arrecadaram mais de US$ 29 milhões. Desse montante, US$ 15,3 milhões foram destinados a programas de educação técnica, US$ 8,4 milhões ao combate à insegurança alimentar e US$ 5,6 milhões à assistência em desastres e outros serviços comunitários.

A fundação também mantém o Metallica Scholars Initiative, voltado à formação profissional. Em 2026, o programa ultrapassou 90 instituições participantes e começou sua expansão internacional. Além disso, a banda destina parte da renda de ingressos das cidades visitadas a instituições locais e trabalha com organizações como Feeding America, World Central Kitchen e Direct Relief.

Ou seja: alguém pode discordar de Hetfield, o que fica difícil é sustentar a ideia de que ausência de discurso eleitoral no palco significa ausência de consciência social.

O mal uso da palavra apolítico é proposital

Talvez esse seja o ponto principal de toda essa discussão. Existe uma enorme diferença entre ser apolítico e apartidário. Não transformar o próprio espetáculo em comício não significa ignorar a política.

James Hetfield nunca construiu sua obra como alguém indiferente a guerra, injustiça, abuso de poder, religião ou comportamento social. Ele simplesmente prefere tratar muitos desses assuntos através da música e evita orientar o público sobre candidatos ou partidos.

Esse comportamento lembra bastante uma de suas maiores referências pessoais: Lemmy Kilmister.

O líder do Motörhead, que Hetfield tem tatuado, dificilmente poderia ser descrito como alguém sem opinião política. Pelo contrário. Lemmy criticava governos, políticos, guerras, grandes empresas e instituições religiosas com enorme frequência.

Lemmy tinha posições. Muitas delas duríssimas. O que ele não tinha era compromisso em transformar o Motörhead numa extensão de partido político. O Metallica segue a mesma linha.

Criticar o sistema não significa abraçá-lo

É aí que a crítica de Rachel Sheherazade perde força. Escrever músicas contra abusos institucionais, guerras, corrupção, fanatismo religioso ou desigualdades não obriga um artista a dizer ao público em quem votar, qual partido apoiar ou qual discurso eleitoral reproduzir.

Na avaliação editorial do Mundo Metal, chamar essa escolha de “covardia” ou “cumplicidade” é uma tentativa de transformar alinhamento político explícito em requisito de autenticidade dentro do Rock.

Não é. Nunca foi. Nunca será.

O Rock sempre comportou artistas partidários, apartidários, anarquistas, liberais, conservadores, socialistas, niilistas, libertários, provocadores e músicos que simplesmente não querem transformar duas horas de show em extensão do debate eleitoral. Essa diversidade também faz parte da história que Sheherazade pretende explicar.

E existe uma ironia difícil de contornar: James Hetfield não precisa receber uma aula sobre como o Heavy Metal deve se comportar de alguém que observa essa história de fora. Ele ajudou a escrevê-la.

O músico pode ser criticado, contestado e contradito como qualquer outra pessoa. Mas discordar de sua opção por manter os shows do Metallica afastados da disputa partidária é uma coisa; concluir que ele “não entende de Rock” por causa disso é somente desonestidade.

Menos, Sheherazade.

Photo: benhoudijk @ www.depositphotos.com
Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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