Jim Bakker, controverso televangelista que foi alvo de Ozzy, Iron Maiden e outros nomes do Rock, morre aos 86

O televangelista norte-americano Jim Bakker, uma das figuras religiosas mais controversas da televisão dos Estados Unidos nos anos 1980 e personagem que acabou entrando indiretamente para a história do Rock e do Heavy Metal, morreu aos 86 anos. A informação foi confirmada por sua esposa, Lori Bakker, na segunda-feira, 5 de outubro. A causa da morte não foi divulgada.

Bakker construiu ao lado da primeira esposa, Tammy Faye Bakker, um gigantesco império religioso em torno do programa The PTL Club. No auge, a atração alcançava milhões de espectadores e o ministério movimentava dezenas de milhões de dólares por ano. O casal também criou o Heritage USA, enorme parque temático cristão na Carolina do Sul.

Tudo começou a ruir no final daquela década. E foi justamente a queda de figuras como Bakker que forneceu munição para músicos que já criticavam a mistura entre religião, televisão, dinheiro e moralismo.

Escândalo sexual e condenação por fraude

Em 1987, Bakker deixou seu ministério depois que veio à tona um encontro sexual com Jessica Hahn, então funcionária ligada à igreja, e o pagamento de uma quantia para manter o episódio em silêncio. Posteriormente surgiram investigações sobre a utilização do dinheiro arrecadado junto aos fiéis.

Em 1989, ele acabou condenado por fraude e conspiração em um esquema relacionado à venda de estadias no Heritage USA que, segundo a acusação, havia arrecadado aproximadamente US$ 158 milhões junto aos seguidores. A sentença inicial foi de 45 anos de prisão, posteriormente reduzida. Bakker cumpriu cerca de quatro anos e meio antes de deixar a prisão.

Para uma geração de músicos de Rock e Metal que já vinha sendo atacada por setores religiosos conservadores nos Estados Unidos, o contraste era praticamente irresistível.

Enquanto pregadores denunciavam discos, letras e artistas como símbolos de decadência moral, alguns dos maiores escândalos daquele período passaram a surgir justamente dentro do universo dos televangelistas.

Ozzy Osbourne respondeu com “Miracle Man”

Um dos ataques mais famosos veio de Ozzy Osbourne. Lançada em “No Rest For The Wicked”, de 1988, “Miracle Man” satirizava a hipocrisia dos televangelistas envolvidos em escândalos. O alvo mais evidente era Jimmy Swaggart, outro poderoso pregador norte-americano que havia atacado publicamente Ozzy e acabou envolvido em um escândalo sexual naquele mesmo ano.

Mas Bakker também fazia parte daquele contexto que alimentou a composição e a reação de Ozzy contra os pregadores televisivos.

Anos depois, o próprio Ozzy recordaria a ironia da situação: aqueles religiosos haviam passado anos atacando seus discos e classificando-o como uma influência demoníaca, até que vários deles começaram a protagonizar os próprios escândalos.

O videoclipe de “Miracle Man” elevou a provocação a outro nível, colocando Ozzy dentro de uma igreja cercado por porcos e usando uma máscara inspirada em Swaggart.

Iron Maiden atacou o mesmo universo em “Holy Smoke”

Dois anos depois, o Iron Maiden também resolveu mirar os televangelistas.

“Holy Smoke”, lançada em “No Prayer For The Dying” (1990), atacava diretamente pregadores televisivos que utilizavam religião, medo e promessas de salvação enquanto acumulavam dinheiro e poder.

Bruce Dickinson explicou na época que a composição falava dos “pregadores de TV e todas as várias mentiras que eles contam”.

Bakker não era necessariamente o personagem exclusivo da música. O alvo era toda uma categoria de televangelistas que havia se tornado especialmente controversa naquela época.

Mas seu escândalo era impossível de separar daquele cenário.

A arte do single também não deixava muita margem para sutileza: Eddie aparece diante de televisores em chamas transmitindo pregadores religiosos.

Genesis, Black Sabbath e uma coleção de ataques

A lista não termina em Ozzy e Maiden.

Em 1991, o Genesis lançou “Jesus He Knows Me”, uma sátira extremamente direta aos televangelistas que pregavam valores familiares enquanto enriqueciam e escondiam comportamentos completamente incompatíveis com o discurso que apresentavam diante das câmeras.

Bakker estava entre as figuras que inspiraram aquele retrato, juntamente com outros grandes nomes da televisão religiosa norte-americana.

Mais tarde, o Black Sabbath, já com Ronnie James Dio, lançou “TV Crimes” em “Dehumanizer” (1992), atacando a comercialização da fé e aquilo que a música descrevia como uma espécie de “supermercado da salvação”.

Outros artistas que abordaram aquele ambiente de televangelismo e escândalos incluem Poison, Frank Zappa e The Hooters.

Décadas depois, o Ghost ainda recuperaria “Jesus He Knows Me” em seu EP “Phantomime”, de 2023, mostrando como a crítica feita pelo Genesis permanecia facilmente reconhecível para uma nova geração.

Bakker voltou à televisão após deixar a prisão

Depois de sair da prisão, Bakker retornou gradualmente ao universo religioso.

Em 2003, lançou The Jim Bakker Show, retomando a carreira como televangelista. Com o passar dos anos, passou a concentrar parte importante de sua programação em previsões apocalípticas e produtos voltados à preparação para situações de emergência.

As controvérsias também continuaram. Durante a pandemia de Covid-19, autoridades norte-americanas questionaram alegações relacionadas a um produto vendido em seu programa como possível tratamento para a doença. O caso terminou posteriormente em acordo judicial.

Bakker permaneceu ativo na televisão religiosa até os últimos anos.

Photo:  Jef Siner / AP

De inimigo do Rock a personagem de suas músicas

A trajetória de Jim Bakker acabou produzindo uma ironia histórica difícil de ignorar.

Durante os anos em que setores religiosos norte-americanos travavam batalhas públicas contra o Heavy Metal, acusando bandas de corrupção moral, satanismo e influência nociva sobre os jovens, alguns dos personagens mais poderosos daquele movimento televisivo começaram a cair por seus próprios escândalos.

O Rock respondeu da forma que sabia. Com sarcasmo. Bakker não escreveu nenhuma música de Heavy Metal, mas seu nome e principalmente aquilo que ele representou ajudaram a alimentar algumas das críticas mais conhecidas que o gênero produziu contra a indústria religiosa televisiva.

No fim, os discos que aquele ambiente tentou demonizar sobreviveram durante décadas. E também ajudaram a eternizar seus próprios acusadores.

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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