Jeff Becerra – O Homem que se recusou a morrer

Algumas pessoas entram para a história pela música que criaram. Outras entram pela maneira como enfrentaram a própria vida. Jeff Becerra conseguiu fazer as duas coisas.

Quando o vi subir ao palco no Hellfest de 2026, não enxerguei apenas o vocalista do Possessed ou um dos pioneiros do Death Metal. Diante de mim estava um homem que desafiou a morte, enfrentou limitações que mudariam para sempre a vida de qualquer pessoa e, ainda assim, jamais perdeu a vontade de continuar fazendo aquilo que mais amava.

Nascido em 1968, nos Estados Unidos, Jeff cresceu em uma família na qual a música sempre esteve presente. Incentivado pelo pai, desenvolveu desde cedo o gosto por diferentes estilos musicais. Ainda criança, foi matriculado em aulas de violão clássico, experiência que, embora inicialmente rejeitada por ele, lhe forneceu uma sólida base de teoria musical, importante ao longo de sua carreira. Pouco tempo depois, ao conhecer bandas como AC/DC e Black Sabbath, descobriu o universo do Heavy Metal e encontrou o caminho que definiria sua vida.

Em 1983, Jeff passou a integrar o Possessed, assumindo simultaneamente o baixo e os vocais após mudanças traumáticas na formação da banda. Desde o início, tinha um objetivo claro: criar uma música mais pesada, mais rápida e mais extrema do que qualquer outra existente. Essa busca levou o grupo a lançar, em 1984, a demo Death Metal. O título fazia referência a uma das músicas gravadas, mas acabaria batizando um gênero musical inteiro.

Vítima do destino

No ano seguinte, o lançamento de Seven Churches marcou definitivamente a história do Metal Extremo. Até hoje existe um debate sobre qual teria sido o primeiro álbum de Death Metal, mas, independentemente da resposta, é impossível ignorar a influência exercida pelo Possessed. Curiosamente, a suposta rivalidade entre Jeff Becerra e Chuck Schuldiner nunca existiu de fato. Os dois músicos mantinham uma relação de respeito e admiração mútua, compartilhando o desejo de expandir os limites da música pesada muito antes de os fãs transformarem essa discussão em uma disputa histórica.

Depois vieram Beyond the Gates e o EP The Eyes of Horror, produzido por Joe Satriani. A banda vivia um momento promissor, e tudo indicava que Jeff seguiria uma carreira de sucesso. Entretanto, em 1989, sua história sofreu uma mudança brutal.

Ao voltar do trabalho, Jeff foi vítima de uma tentativa de assalto. Um disparo atingiu seu peito e lesionou irreversivelmente sua medula espinhal. Quando despertou no hospital, descobriu que jamais voltaria a andar.

A paraplegia, porém, foi apenas o início de uma longa sequência de dificuldades. Vieram as dores constantes, a depressão, o abuso de álcool e drogas, além de uma overdose que quase colocou fim à sua vida. Durante algum tempo, parecia que o músico responsável por ajudar a criar um novo gênero musical havia perdido completamente o rumo.

Foi então que surgiu a oportunidade de recomeçar.

Renascimento

Com o apoio de pessoas próximas, Jeff decidiu reconstruir sua vida. Voltou a estudar, concluiu sua formação universitária com destaque, casou-se, constituiu família e encontrou um novo propósito para seguir em frente. Anos depois, afirmou que aquele período, vivido já na cadeira de rodas, foi um dos mais felizes de toda a sua existência. A tragédia havia mudado sua forma de enxergar o mundo e lhe ensinado que a felicidade podia ser encontrada muito além da capacidade de caminhar.

Ainda assim, parecia improvável imaginar Jeff novamente sobre um palco.

Mas, em 2007, aconteceu o inesperado. O Possessed retornou às atividades e fez sua grande volta durante o Wacken Open Air, diante de cerca de sessenta mil pessoas. Antes do show, Jeff confessou que seu maior medo não era esquecer as músicas nem decepcionar o público. Ele temia que as pessoas sentissem pena dele por estar em uma cadeira de rodas.

O que encontrou foi exatamente o contrário.

O público não via um homem derrotado. Via um sobrevivente. Um pioneiro que havia ajudado a construir a história do Death Metal e que, contra todas as expectativas, voltava a fazer aquilo que sempre amou. Naquele momento, sua cadeira de rodas deixava de representar uma limitação para se tornar um símbolo de resistência.

Superação

Photo: Eric Pena

Os anos seguintes, entretanto, continuaram marcados por desafios. Jeff enfrentou graves infecções, úlceras profundas, longas internações, tratamentos intensivos com antibióticos, uma fratura no fêmur e problemas em um dos olhos, condição que o levou a adotar o tapa-olho que hoje se tornou uma de suas marcas registradas. Para muitas pessoas, qualquer uma dessas dificuldades já seria motivo suficiente para abandonar tudo. Jeff, porém, nunca permitiu que elas definissem sua trajetória.

Em 2021, viveu um dos momentos mais emocionantes de sua recuperação. Utilizando uma cadeira robótica equipada com tecnologia de exoesqueleto, conseguiu permanecer de pé e dar alguns passos pela primeira vez desde o atentado sofrido em 1989. Foram poucos passos, mas carregados de um significado impossível de medir. Depois de mais de três décadas, voltou a enxergar o mundo da perspectiva que havia perdido tantos anos antes.

O sorriso da vitória

Photo: Miikka Skaffari/Getty Images

Quando o reencontrei no Hellfest de 2026, percebi que sua maior contribuição para a história talvez não fosse apenas a criação de um estilo musical. Enquanto muitos artistas entram para a memória coletiva pelos discos que gravaram, Jeff Becerra também será lembrado pela forma como escolheu enfrentar a própria vida.

Ele ajudou a moldar o Death Metal, influenciou gerações de músicos e participou de um dos capítulos mais importantes da história do Heavy Metal. No entanto, seu maior legado talvez seja outro: mostrar que existe vida depois da tragédia, que é possível reconstruir sonhos quando tudo parece perdido e que nenhuma limitação física é capaz de destruir a força de quem se recusa a desistir.

Cada vez que Jeff Becerra sobe ao palco, o público não vê apenas o vocalista do Possessed. Vê um homem que perdeu os movimentos das pernas, enfrentou a depressão, venceu o vício, sobreviveu a inúmeras complicações de saúde e encontrou forças para continuar sorrindo diante de milhares de pessoas.

Algumas pessoas entram para a história pela música que criaram.

Jeff Becerra entrou para a história pela vida que escolheu continuar vivendo.

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