Jairo Guedz dá aula de respeito em meio à polarização: “Não acredito que existam 50 milhões de fascistas. Nem 50 milhões de comunistas.”

Em meio à intensa polarização política que tomou conta das redes sociais durante as eleições brasileiras, o guitarrista Jairo Guedz, ex-integrante do Sepultura e fundador do The Troops Of Doom, voltou a se manifestar sobre as divergências ideológicas entre músicos, fãs, amigos e familiares. Desta vez, o artista publicou uma sequência de stories no Instagram defendendo algo que parece cada vez mais raro no ambiente de discussões políticas: respeito, equilíbrio e empatia por aqueles que pensam diferente.
Nos últimos dias, acompanhamos diversas manifestações de músicos ligados ao Rock e ao Heavy Metal declarando suas preferências eleitorais. Embora cada artista tenha todo o direito de expressar suas convicções, também surgiram cobranças para que outros profissionais assumissem publicamente suas posições, como se a escolha de um candidato fosse uma obrigação coletiva.
Na contramão desse ambiente, Jairo Guedz vem defendendo o direito de cada pessoa decidir livremente, sem precisar transformar sua preferência política em motivo para romper amizades, desqualificar indivíduos ou questionar o caráter de quem pensa diferente.
“Eu amo e admiro pessoas que votam no Bolsonaro e no Lula”
Na primeira publicação, o músico foi bastante direto ao mencionar eleitores dos dois candidatos:
“Eu amo e admiro pessoas que votam no Bolsonaro.
E amo e admiro pessoas que votam no Lula.”
Na sequência, Jairo explicou que se referia a pessoas próximas, com as quais mantém relações pessoais independentemente de suas opiniões políticas:
“Amigos. Família. Gente do meu convívio.
Nenhuma delas perdeu a minha admiração por declarar seu voto.
Nem por pensar diferente de mim.”
O guitarrista prosseguiu destacando que as atitudes cotidianas devem certamente ter um peso muito maior na avaliação de uma pessoa do que sua decisão eleitoral:
“Quem elas são no dia a dia diz muito mais do que a escolha que fazem na urna.”
Em outra publicação, reforçou o argumento:
“A urna é um dia.
O que importa é o que a pessoa faz nos outros 364.”
“Meus melhores amigos muitas vezes foram os que mais discordaram de mim”
Em vez de tratar opiniões divergentes como obstáculos às relações pessoais, Jairo Guedz também ressaltou a importância de amizades construídas ao longo de décadas, mesmo quando existem discordâncias profundas:
“Meus melhores amigos muitas vezes foram os que mais discordaram de mim.
E estão comigo há mais de 30 anos.”
Uma afirmação simples, mas que carrega uma mensagem importante. Em tempos nos quais divergências eleitorais frequentemente se transformam em discussões agressivas, rompimentos familiares e hostilidade nas redes sociais, o músico lembra que relações humanas não precisam ser condicionadas à concordância política.
“Eu não acredito que existam 50 milhões de fascistas. Nem 50 milhões de comunistas”
Uma das declarações mais contundentes apareceu quando Jairo abordou a utilização de rótulos ideológicos para definir milhões de brasileiros com base em suas escolhas eleitorais.
O guitarrista escreveu:
“Eu não acredito que existam 50 milhões de fascistas.
Nem 50 milhões de comunistas.
Existem pessoas diante de uma escolha, tentando fazer o que julgam ser o melhor para o Brasil.”
A mensagem questiona a generalização que transforma milhões de eleitores em representantes automáticos de ideologias extremas. Embora seja legítimo criticar candidatos, propostas e posicionamentos políticos, atribuir indiscriminadamente características morais ou ideológicas a todos os seus eleitores é algo bastante diferente.
Ao reconhecer que pessoas podem fazer escolhas distintas acreditando estar contribuindo para o futuro do país, Jairo demonstra uma disposição para compreender o outro que nem sempre encontramos nas discussões políticas contemporâneas.
Jairo Guedz mantém coerência com suas declarações anteriores
Esta não é a primeira vez que o músico aborda o assunto. Em 18 de outubro, o Mundo Metal repercutiu uma publicação na qual Jairo demonstrou sua insatisfação com a pressão por posicionamentos políticos, escrevendo:
“Vai lá e vota em quem você quiser. Povo chato do caralho.”
No dia seguinte, o guitarrista aprofundou a discussão, revelando que vinha recebendo ataques de pessoas identificadas tanto com a direita quanto com a esquerda. Enquanto alguns o acusavam de pertencer ao campo ideológico oposto, outros o classificavam como isentão por não declarar seu voto.
Na ocasião, respondeu:
“Meu voto é privado. Minha história, não.”
Sua posição também não representa uma novidade. Em junho de 2025, durante uma entrevista ao canal Esfera do Rock, Jairo Guedz já havia criticado a associação direta entre o Heavy Metal e bandeiras partidárias, defendendo que a música deveria preservar seu caráter contestador e sua capacidade de unir pessoas.
As novas publicações demonstram uma continuidade desse pensamento. O músico não exige que os demais concordem com ele, tampouco procura determinar em quem seus seguidores devem votar. Sua mensagem é que opiniões divergentes não precisam destruir o respeito e a admiração entre as pessoas.
Empatia: algo que anda fazendo falta no Heavy Metal brasileiro
É justamente esse o aspecto que merece destaque.
O Rock e o Heavy Metal sempre abrigaram indivíduos com diferentes visões de mundo. Sua história é marcada por inconformismo, liberdade de expressão, contestação e, muitas vezes, divergências profundas. Entretanto, nada disso exige que músicos ou fãs transformem suas preferências eleitorais em critérios para determinar quem merece respeito.
Jairo Guedz demonstra que é perfeitamente possível manter convicções pessoais sem desumanizar aqueles que possuem opiniões diferentes. Suas mensagens representam uma defesa das relações humanas diante da intolerância.
Em um momento no qual tantos discursos são marcados por hostilidade, acusações e tentativas de enquadrar pessoas em campos ideológicos, o guitarrista oferece dessa forma uma perspectiva sensata: o caráter de alguém não pode ser resumido ao candidato escolhido nas urnas.
O Mundo Metal parabeniza Jairo Guedz pela postura equilibrada e, principalmente, pela empatia demonstrada em suas manifestações.
Respeitar quem concorda conosco é fácil. O verdadeiro desafio é continuar respeitando aqueles que pensam diferente.