Iron Maiden: “Eu sempre pensava: ‘É hora de eu me afastar e deixar o lugar para alguém mais jovem’”, diz Nicko McBrain

Durante um recente bate-papo com Dan Shinder, do Drum Talk TV, o baterista Nicko McBrain comentou sobre a última vez que subiu no palco com o Iron Maiden na emocionante noite de 7 de dezembro de 2024 no Allianz Park, em São Paulo, quando Nicko se despediu diante de cerca 50 mil de fãs apaixonados e abalados com a notícia de sua aposentadoria. O veterano das baquetas, hoje com 73 refletiu sobre sua despedida palcos:
“Foi um show com muitas emoções misturadas. Obviamente, eu tinha 50 mil jovens gritando meu nome e me deram uma recepção fantástica e emocionante. E também quando subi ao palco no final da noite — eu sempre fui o último a sair do palco, para poder dar boa noite e agradecer a todos os fãs e tal. E essa noite foi incrivelmente especial. Lembro que pensei: ‘Vou começar a chorar daqui a pouco’. Eu estava muito emocionado e pensei: ‘Deus está me dizendo: ‘Olha, tudo bem, Nick, se você quiser chorar. É por isso que te demos lágrimas e emoção’. Enfim, então pensei: ‘Não, talvez seja melhor ser forte. Chore fora do palco’.
Mas o momento mais importante que senti em tudo isso não foi apenas o amor dos fãs e a adoração que me demonstraram, mas também o momento em que subi ao palco e toda a equipe de apoio me saudou e se despediu. Aquela foi a última vez que eles estiveram comigo em um show do Iron Maiden, me vendo tocar. Foi uma emoção incrível. E devo admitir que houve algumas lágrimas — alguns dos meus amigos mais queridos da turnê, que me acompanham há muitos anos, estavam com os olhos marejados.”
Nicko também relembrou o momento em que decidiu que iria se aposentar e, quando chegoua hora, ele já estava psicologiocamente preparado:
“Com certeza eu já estava nesse clima mental. Pra ser bem sincero com você, quando a gente fez o ‘Senjutsu’ lá em 2019, eu pensava: ‘Beleza, depois da turnê do Senjutsu, eu penduro as baquetas.’ Eu já tinha tomado essa decisão, porque eu sentia… meu corpo já dava sinais — afinal, eu tinha 70 anos, ou 69 pra 70. Aí veio a pandemia. Todo mundo passou por isso. A gente viveu aquilo, e que Deus abençoe quem conseguiu atravessar, porque infelizmente muita gente não conseguiu.
Enfim, isso acabou atrasando a gente em uns dois anos, porque não dava pra lançar o álbum logo depois que terminamos. E você sabe, o disco precisa ficar um tempo no mundo antes de planejar a turnê. Então fizemos a ‘Legacy Of The Beast’ tour. E essa turnê rolou em quatro partes ao longo de dois anos. E eu ali pensando: ‘Tá, acho que depois dessa eu paro.’
Minha cabeça sempre voltava pra isso: ‘É hora de eu me afastar e deixar o lugar pra alguém mais jovem.’Então, sim, lá atrás eu já estava decidido: ‘Vou fazer dessa minha última turnê.’ Mas aí veio a ‘The Future Past Tour’.”
Em janeiro de 2023, Nicko McBrain sofreu um AVC em sua casa na Flórida. Ficando com um lado do corpo paralisado, ele relembra o apoio que recebeu dos colegas de banda:
“Fui muito abençoado por a banda ter ficado ao meu lado e acompanhado toda a jornada que fiz na minha recuperação, e também pelo fato de eu ter uma limitação, porque eu não consigo mais tocar levadas de semicolcheia… Então, tive que fazer concessões com as viradas de bateria. E a banda ficou comigo por quase dois anos. Foi um ano e meio de turnê. Fizemos o final da turnê Legacy [Of The Beast] e depois a The Future Past. E agora eles vão entrar na turnê de 50 anos, que obviamente é gigantesca para a banda, uma celebração. Mas eu sabia que não conseguiria abrir com ‘Murders In The Rue Morgue’. Quero dizer, aquela virada de bateria no começo era… Eu até poderia ter improvisado algo e mudado a introdução. Mas isso é uma celebração daqueles discos, dos nove primeiros álbuns. Então, considerando que essa decisão já rondava minha cabeça havia dois ou três anos, acabou se tornando mais fácil. E eu sentei com o Steve em Los Angeles e nós conversamos exatamente sobre isso — sobre o que eu não conseguia tocar em comparação com o que eu ainda conseguia. E colocamos tudo na balança por causa do meu problema de saúde, e todos estavam muito preocupados comigo. Eles não queriam me ver — e eu também não queria me ver — caindo morto no palco. Mas, veja bem, dito isso, se o cara lá de cima me chamar, eu preferiria que fosse durante um show.”
Ele também falou sobre o momento em que teve que comunicar os colegas que teria de parar e abordou a decisão do Iron Maiden de trazer o baterista Simon Dawson, parceiro de Steve Harris no British Lion, para substituí-lo:
“Obviamente, eu estava conversando com o Rod [Smallwood] e o Andy Taylor, nossos empresários, e com o Dave Shack, que já faz parte da família Maiden há muitos anos. E ele é meio que o braço esquerdo ou direito do Rod. Ele praticamente assumiu a operação do dia a dia das coisas do Maiden. E nós conversamos sobre isso. E quando eu estava com o Steve, falamos sobre o Simon fazer um ensaio com a banda em Portland. Tínhamos alguns dias de folga lá. Bom, é o seguinte — um dia de viagem e um dia de folga depois disso. Bem legal. Conversamos sobre isso e o Steve disse: ‘Você está de boa com isso?’. Eu disse: ‘Claro que estou’. Eu falei: ‘Se, Deus me livre, acontecer alguma coisa comigo nas próximas, sei lá, duas semanas, ou na próxima semana, ou no próximo show, o Simon vai conseguir me cobrir, e vocês não perdem o resto da turnê’. Digo, é assim que lidaríamos se qualquer um de nós adoecesse. Quero dizer, já houve vezes em que perdemos shows porque o Bruce ficou com laringite ou algo assim. Mas se você pega gripe sendo um músico que não canta, você sobe no palco; você só precisa aguentar firme, como um músico profissional. Como dizem, o show deve continuar. Então, sim, eu entendi isso e dei minha bênção, e o Simon entrou. E depois disso todos nós tivemos uma reunião. O Simon não estava lá. Era eu, o Rod e a banda. E conversamos sobre eu me aposentar depois da turnê. Então a banda já sabia disso antes do Simon entrar para fazer o ensaio. Não teve nenhuma artimanha envolvida. Tudo foi conversado antes do anúncio. Eu pessoalmente pedi ao empresariado e à banda para deixar o anúncio só depois do show, para janeiro deste ano. Eu queria passar o Natal sem todo mundo e a mãe de todo mundo me mandando mensagens e meu telefone tocando sem parar: ‘Ah, o que é isso? Você saiu da banda’. Mas o Andy Taylor virou para mim — lembro da conversa como se tivesse sido ontem. De novo, estávamos em L.A. — e ele disse: ‘Nick, aliás, que história é essa de você não querer fazer o anúncio no seu último show? Você precisa sair em um clarão de glória. Você não quer sair de um jeito fraco e sem graça.’ E eu respondi: ‘Você está certo. Estou sendo egoísta.’ Eu não queria porque não queria todos os meus amigos e família me ligando ou qualquer coisa assim. Então conversamos sobre isso ali mesmo, e ele me convenceu de que era o certo a fazer, porque a ideia que eu tinha era: ‘É, vamos contar para todo mundo no ano novo. Vamos deixar o Natal e o ano novo passarem.’ E foi uma maneira bonita de anunciar. A única coisa que me deixou um pouco chateado foi que eu pedi para eles não anunciarem o Simon até a segunda-feira. Porque no domingo eu estava viajando de São Paulo para a Flórida. E eles iam fazer o anúncio quase imediatamente, e eu disse: ‘Deem um dia ou dois.’ Bom, eles me deram 24 horas. Nem isso — anunciaram na manhã seguinte que o Simon seria meu substituto, o que na verdade não importa quando exatamente fizeram. Mas eu pedi que esperassem mais um dia. E devo admitir que fiquei meio irritado com isso. Pensei: ‘Ah, eles podiam ter esperado mais 24 horas.’”
