Iron Maiden: “Compare com ‘No Prayer for the Dying’ e ‘Fear of the Dark’, e aí você tem o ‘The X Factor’ e não se deu ao trabalho de ouvir”

Iron Maiden: "Compare com 'No Prayer for the Dying' e 'Fear of the Dark', e aí você tem o 'The X Factor' e não se deu ao trabalho de ouvir"
Reprodução/Facebook/Blaze Bayley

Blaze Bayley, ex-vocalista do Iron Maiden, refletiu sobre os trinta anos do álbum “The X Factor” (1995), e que marcou a sua estreia na banda liderada por Steve Harris. Na época, boa parte dos fãs torceu o nariz para o disco e estranhou a direção musical e a nova voz que assumia os microfones na banda. Não era uma tarefa fácil substituir Bruce Dickinson com seus apoteóticos “The Number of the Beast”, “Powerlasve” e “Somewhere in Time” no currículo — enquanto Blaze vinha de uma banda menor e quase desconhecida, o Wolfsbane.

Durante uma nova entrevista com Jorge Botas do Metal Global, Blaze Bayley relembrou o processo de composição de “The X Factor” e o momento que o Iron Maiden estava vivendo. Todos estavam passando por grandes mudanças em suas vidas pessoais, e Blaze falou sobre como o lado emocional da banda estava afetado e como isso acabou se refletindo no álbum:

“Eu acho que você tem que olhar para o lado emocional disso. Eu sabia o que isso significava antes de entrar para o Iron Maiden. Paul Di’Anno não sabia disso, Bruce Dickinson não sabia disso. Mas eu sabia que era como no Kiss ou em qualquer outra banda. Todo fã hardcore sabe que todos os integrantes que já passaram pelo Iron Maiden, pelo Kiss ou por outras bandas entendem que é esse tipo de grupo. Então eu sabia que não era simplesmente estar ou não estar no Iron Maiden. Houve uma fase do Iron Maiden, depois outra fase com ex-integrantes que já tinham feito parte. É assim que funciona. Somos fãs, é assim que somos. Nós investimos nessas coisas.

Quando começamos, Steve Harris me disse: ‘Não há nenhuma música escrita para o álbum. Vamos fazer o disco juntos. Não me importa quem escreve as músicas ou as letras, contanto que sejam muito boas.’ E você provavelmente já viu algumas dessas coisas ridículas em que dizem que o X Factor foi feito como o Back in Black, com músicas escritas antes da entrada do Brian Johnson.

Mas eu estou aqui dizendo a verdade. Podem me colocar em um detector de mentiras: nenhuma música foi escrita antes de eu entrar. Tudo começou a partir do momento em que me juntei à banda, e isso se tornou o X Factor. Acho que eu tinha seis ideias ou algo assim, e o Steve trouxe coisas fantásticas. Trabalhamos juntos em várias delas, e Janick e eu escrevemos bastante também. Eu não tive a oportunidade de compor com Dave Murray nesse álbum, o que eu queria, mas foi assim que aconteceu.

Todos na banda estavam passando por mudanças grandes em suas vidas. O Steve, por exemplo, atravessava — e acho que ele não se importaria que eu dissesse — uma fase turbulenta em sua vida. Suas circunstâncias estavam mudando. Para o Janick, coisas positivas estavam acontecendo. E eu também vivia essa experiência enorme de transição: com o Wolfsbane as coisas tinham simplesmente parado, e de repente eu estava em uma nova banda. Foi um pico criativo para mim, trabalhar com novas pessoas e explorar novos caminhos. Uma experiência incrível, mas também cheia de tristeza. Eu sentia falta dos meus amigos, da minha antiga banda, do jeito que tudo acontecia. Foi horrível. Então havia toda essa turbulência emocional, e disso nasceu o X Factor.

Havia uma escuridão no álbum. Muitas músicas eram introspectivas, levantando questões sobre existência, sobre Deus, sobre o que significa acreditar ou não acreditar. E eu acho que isso foi bem diferente, em vários aspectos, dos dois álbuns anteriores: No Prayer for the Dying e Fear of the Dark.

Com o X Factor, é uma direção diferente. É como virar a esquina e começar a caminhar em uma direção diferente. A música era outra coisa. Claro que ainda era o Maiden — não poderia ser diferente reunindo todos aqueles músicos, compositores e seus estilos — mas seguíamos em outro caminho. Não de forma consciente, mas naturalmente, movidos pela emoção e pelo que cada um vivia em sua vida pessoal. Assim entramos nessa era mais progressiva, e foi assim que tudo aconteceu.”

Hoje, Blaze compreende as dificuldades de muitos fãs em aceitá-lo como novo vocalista do Maiden, mas houve muitas críticas e questionamentos na época:

“É claro que ninguém quer que seu vocalista favorito deixe sua banda favorita. Tive sorte com o AC/DC porque, quando comecei a ouvir AC/DC, Brian Johnson foi a primeira voz que eu ouvi, e então fui para o Bon Scott. Claro, eu amo os dois. Mas eu entendo, porque, para mim, eu amo a era Ronnie James Dio do Black Sabbath, eu amo aqueles ábuns com o Ronnie. Eu amo a era Ozzy, mas aquela que me inseriu no metal foi Ronnie James Dio. Por que eu chegeui a isso através do Rainbow. E pelo caminho, Holy Diver… Então, para os fãs não gostarem de mim na época, fãs hardcore, que viveram com Paul, a lenda que é Paul Dianno, e que algumas das músicas nesses álbuns de Dianno onde a voz e a música andam juntas. É simplesmente impossível imaginar isso de outra forma. Sim, ele é perfeiro. Sua entrega crua e corajosa, você sente a emoção e a aspereza nisso. Você não consegue imaginar, você não pode imaginar a diferença entre Paul Dianno e Bruce Dickinson.”

Blaze acrescentou em seguida:

“E havia tantos fãs que odiavam o Bruce, odiavam-no mesmo. E foi o mesmo comigo. Então, eu já esperava isso de certa forma. Lembro-me de estar no palco uma vez: havia muitos fãs barulhentos, e eles seguravam uma faixa dizendo: ‘Tragam o Bruce de volta’, como se tivessem esquecido que o Bruce realmente saiu do Maiden — ele não foi demitido. Não foi demitido nem nada. O Bruce disse: ‘Quero ir embora’.

E lá estava eu, como se… e alguns fãs — isso é loucura, eu entendo, mas é uma loucura total — que me culpassem pela saída do Bruce. O que eu tenho a ver com isso? Ele simplesmente foi embora. Ele não queria mais estar aqui.

Eu quero, eu amo isso. Eu amo estar aqui. Eu absolutamente amo estar aqui. Eu amo estar no Maiden. Eu amo essa música. Eu já era fã da banda antes. Eu amo estar aqui. Então, como isso poderia ser culpa minha?” [risos]

Trinta anos depois do seu lançamento, “The X Factor” já tem uma melhor aceitação, o disco envelheceu bem e apresentou faixas memoráveis como “Sign of the Cross”, “Man On the Edge” e “Lord of the Flies”.

Blaze continuou:

“Mas aqui vamos nós agora, 30 anos depois. Há fãs leais do Iron Maiden que nunca me viram, que nem sabiam da minha existência. Pessoas que ouviram o X Factor e foram embora: ‘O Bruce não soa diferente nisso?’ E é onde estamos agora. E muitas dessas pessoas de trinta anos atrás me odiavam. Algumas delas já morreram, o que é muito bom, e estou feliz por isso, para ser honesto. Algumas já morreram e outras são tão velhas e suspeitas que nem conseguem acompanhar a digitação no fórum. Sabe, elas… [estão] respondendo a um comentário de quatro dias atrás, não de quatro minutos atrás. Então, sério, é um mundo diferente.

Ocasionalmente, você encontra um hater que ainda está vivo e pode digitar e dizer: “Ahhh”. E as pessoas entram nas minhas redes sociais e dizem todo tipo de coisas horríveis sobre mim, e, você sabe, eu simplesmente sinto pena delas. Isso é o melhor que você consegue pensar? Se você vai me insultar, faça algo engraçado, inteligente ou que valha a pena ler, porque você está entrando no meu fórum para me desrespeitar diante dos meus fãs, que realmente me entendem e me apoiam. E você está fazendo isso… que valor isso pode ter? É só mostrar que você é completamente demente. Eu não acho — eu não sou a pessoa mais inteligente do mundo —, mas você está mostrando que é mais burro do que eu, porque nem consegue pensar em nada engraçado para dizer.

Então, olhando para trás agora, a questão é a seguinte: uma geração totalmente diferente de fãs olha para trás, e os fãs antigos — alguns dos mais dedicados do Maiden — dizem: “Falta tanto tempo para o próximo álbum do Maiden… tem alguma coisa que eu não tenha ouvido? Ai, não! O X Factor, Virtual XI… Vou ter que ouvi-los. É a única coisa que eu tenho.” [Risos] E eles vão voltar e ouvir sem preconceito, porque agora o Bruce está de volta. Está tudo indo bem. E eles vão dizer: “Caramba, como eu perdi isso? Como eu perdi uma música ótima, uma melodia, uma coisa maravilhosa, como eu perdi isso?”

Sabe, compare com No Prayer for the Dying e Fear of the Dark, e aí você tem o X Factor e não se deu ao trabalho de ouvir, e quando volta é: “Nossa!” Há tanta riqueza na música que ele tem.

Então, para mim, voltando esses trinta anos, aqui está a questão: aprendi a cantar de novo. Encontrei um terço da minha voz durante a composição e gravação do X Factor porque Steve Harris continuou me pressionando: “Não, tente assim. Tente aqui.” Eu nunca tinha usado essa parte da minha voz. Ele dizia: “Tente. Eu sei que está lá.” E eu tentei.

E agora, trinta anos depois, eu tenho uma voz que não importa se você gosta ou não. Eu tenho uma voz que posso usar como um instrumento muito mais eficaz, porque conheço minha voz e tenho um terço extra dela em comparação com antes de ter a sorte de fazer parte do Maiden. Então eu fiz todos esses anos de shows ao vivo e gravei onze dos meus próprios álbuns de estúdio, além de mais três com o Wolfsbane. Eu tenho muito mais experiência.

Quando olho para trás, para o X Factor, eu digo que quase soa como um menino cantando aquelas músicas. E agora aqui estou eu, um homem que passou por todos os tipos de coisas, tenho sorte de ter sobrevivido e superado isso, e tenho a voz que tenho. Então você sabe que essas músicas têm uma nova vida. Sim.

É como rever velhos amigos e dizer: “Nossa, cara, você está ótimo. Você perdeu peso, ganhou roupas novas. A vida é boa com você. Você está feliz. Você está incrível. Eu nunca teria pensado isso de você quando era um alcoólatra, viciado em drogas, um morador de rua.” É assim que é.”

Por fim, assista a entrevista completa:

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