Integrantes defendem Edu Falaschi, mas sem perceber reforçam o problema denunciado por Roberto Barros

Depois que o guitarrista Roberto Barros resolveu se pronunciar publicamente sobre sua passagem pela banda de Edu Falaschi, uma série de denúncias e acusações veio à tona. Os relatos repercutiram de forma bastante negativa para a imagem do vocalista que, curiosamente, optou por permanecer em silêncio.

Enquanto isso, um padrão começou a chamar a atenção. Em vez de o próprio Edu apresentar sua versão dos fatos, foram músicos que atualmente trabalham com ele e que, de alguma forma, tiveram seus nomes citados por Roberto que passaram a se manifestar publicamente.

O primeiro foi o baixista Raphael Dafras, que preferiu não entrar no mérito das acusações. Seu posicionamento limitou-se a explicar que eventuais problemas do passado já foram resolvidos e que hoje a relação entre todos é boa.

Agora foi a vez do guitarrista Diogo Mafra. Em um vídeo publicado em suas redes sociais, ele resolveu sair em defesa de Edu, rebater parte das críticas feitas por Roberto Barros e ainda questionar a postura de quem passou a enxergar o vocalista de maneira diferente após ouvir os relatos do ex-integrante.

“Eu não gosto de abordar polêmicas, né?

Está rolando muita polêmica envolvendo o Roberto Barros, falando várias coisas aí na internet sobre a experiência dele tocando com o Edu Falaschi.

E eu confesso que demorei para ver o que estava acontecendo, porque estou ocupado pra caramba. Estou trabalhando muito, estudando para a turnê do Mirage, que está chegando em breve. Também estou tocando bastante, porque comecei um trabalho recente aqui. Então demorei um pouco para entender o que estava rolando.

As pessoas começaram a me mandar mensagens, e eu pensei: ‘Ah, eu nem vi direito o que está acontecendo. Deve ser algum post ou outro que repercutiu.’

Só que depois que começaram a me mandar muita coisa, eu percebi que o negócio era maior do que eu esperava. Aí pensei: ‘Acho que pode ser importante eu me pronunciar e falar um pouco sobre isso.’

Foi por isso que decidi fazer este vídeo.”

1. “Three sides of every story”

Para explicar seu raciocínio, o guitarrista apresenta um conceito que ele diz apreciar bastante. Segundo Diogo, todo conflito possui três versões:

“Antes de falar da minha percepção, gente, tomem cuidado. Estou vendo que muitas pessoas estão tomando partido sobre tudo isso. Só que tomem cuidado, porque muitas vezes elas estão tomando partido usando apenas um lado da história como referência, uma única opinião ou uma única percepção.

Existe um conceito muito interessante, que é o conceito de “three sides of every story”. Existe o lado X, o lado Y e, muitas vezes, existe a verdade, que é um terceiro lado, uma perspectiva de quem observa tudo de fora. Porque uma mesma experiência, vivida por pessoas diferentes, pode gerar percepções completamente diferentes.

Já aconteceu comigo, por exemplo, de viajar para um lugar, achar uma porcaria, não gostar, não ter uma experiência boa, e outra pessoa ir ao mesmo lugar, amar, curtir pra caramba.

Ué… mas é o mesmo lugar, a mesma experiência. Por que eu não gostei e a outra pessoa gostou? Muitas vezes é justamente por isso: pontos de vista diferentes geram experiências diferentes, até vivendo o mesmo rolê.

Eu não posso falar sobre a experiência do Roberto. Não posso falar sobre a experiência de ninguém. Eu só posso falar da minha experiência, da minha percepção sobre tudo isso.”

Confessamos que também gostamos bastante desse conceito. E é justamente por isso que resolvemos aplicá-lo neste caso.

Nós, do Mundo Metal, estamos justamente nessa terceira posição. Não temos qualquer relação profissional com Edu Falaschi nem com Roberto Barros. Observamos os acontecimentos de fora e procuramos analisá-los de forma pragmática, sem interesses envolvidos.

Já no caso de Diogo Mafra, por mais sincera que seja sua opinião, existe um contexto impossível de ignorar. Ele continua integrando a banda de Edu, presta serviços ao vocalista e recebe por esse trabalho. É difícil imaginar que um músico ainda contratado viesse a público concordar com as acusações feitas contra aquele que hoje é seu empregador. Isso não significa que ele esteja mentindo, mas naturalmente sua percepção dos fatos tende a ser diferente da de quem já deixou o projeto.

1.1 O Silêncio que inviabiliza o conceito

Existe um detalhe importante que acaba enfraquecendo o próprio conceito apresentado por Diogo. Durante boa parte do vídeo, o guitarrista pede cautela às pessoas que estariam julgando Edu Falaschi ouvindo apenas um lado da história. O argumento, por si só, faz sentido. Afinal, ninguém deveria tirar conclusões definitivas conhecendo apenas uma versão dos acontecimentos.

O problema é que, na prática, esse segundo lado simplesmente não existe para o público.

Até este momento, Edu Falaschi permanece em silêncio. Enquanto isso, são músicos de sua atual banda que vêm assumindo o papel de responder às acusações feitas por Roberto Barros. Esse padrão é evidente e produz uma consequência inevitável: o público continua sem conhecer a versão daquele que realmente deveria estar falando.

Dessa forma, a crítica feita por Diogo perde força. Não parece razoável repreender as pessoas por formarem uma opinião baseada apenas no relato de Roberto quando o próprio Edu escolhe não apresentar sua versão dos fatos.

Enquanto Edu Falaschi não se manifestar, o público continuará tendo acesso apenas às acusações feitas por Roberto e às manifestações de terceiros. E, por mais sinceras que essas manifestações possam ser, nenhuma delas substitui a resposta daquele que efetivamente é o principal personagem dessa história.

2. A amizade de Diogo e Edu

Na sequência, Diogo Mafra passa a falar sobre sua própria experiência ao lado de Edu Falaschi. Segundo o guitarrista, desde que ingressou na banda, ainda na época do Almah, em 2014, jamais enfrentou qualquer problema na relação profissional com o vocalista.

“Desde que eu comecei a trabalhar com o Edu Falaschi, lá no Almah, em 2014, eu nunca tive problema com o Edu. Sempre foi um cara muito fácil de trabalhar.

É claro que, como em qualquer projeto, qualquer banda, tem coisas de que a gente gosta, com as quais a gente concorda, e tem coisas com as quais a gente não concorda. E aí a gente conversa.

Sempre que teve alguma coisa de que eu não gostei, ou que eu achei que não fazia muito sentido, eu conversava com ele e a gente resolvia. Nunca teve um problema grande. A gente nunca brigou. Cara, eu nunca tive uma discussão com o Edu, porque a gente sentava e conversava, saca?”

Ao dizer isso, Diogo acaba fazendo uma alfinetada indireta em Roberto Barros. A impressão transmitida é que, caso houvesse diálogo, os problemas também poderiam ter sido resolvidos entre eles.

Logo em seguida, porém, surge o primeiro elemento que pode indicar que o depoimento de Diogo esteja, ao menos em parte, influenciado pelo contexto em que ele está inserido. O próprio guitarrista revela que sua relação com Edu vai muito além do ambiente profissional.

“Sempre foi tranquilo, sempre muito fácil de trabalhar, desde a época do Almah até hoje.

Então a gente tem uma relação ótima. Quando eu tenho um tempo a mais em São Paulo, às vezes vou lá na casa dele, a gente passa um fim de semana, fica de boa na praia. Sempre foi muito bom, muito tranquilo, muito leve, sacou?

Até na hora de resolver problemas, sempre foi uma coisa muito leve. Não tenho o que falar disso.”

Isso, por si só, não significa que Diogo esteja mentindo ou tentando defender o amigo a qualquer custo. Significa apenas que existe um vínculo pessoal e profissional que naturalmente pode influenciar sua percepção dos acontecimentos. Afinal, ele não fala apenas como músico da banda, mas também como alguém que construiu uma amizade de mais de uma década com Edu Falaschi.

Na sequência, o guitarrista afirma que jamais teve problemas envolvendo contratos, cachês ou acordos.

“Em relação a esse lance de combinados, contratos, cachês e tudo isso que está sendo falado, eu posso garantir, pelo menos da minha parte, que o Edu nunca descumpriu nenhum combinado que fez comigo.

Tudo o que a gente combinou e acertou foi cumprido, independentemente de como foi o acordo.

Inclusive, a gente trabalha com contrato. Sempre tem contrato. Todos nós, quando vamos fazer uma turnê ou um show, assinamos um contrato. Então estamos de acordo com tudo o que está acontecendo ali.

E, desde que eu comecei a trabalhar com o Edu, ele nunca descumpriu nenhum acordo que fez comigo.

Nunca tive esse problema. O que foi combinado, foi cumprido.”

2.2 A amizade de Diogo e Edu

Nesse ponto, não há motivo para duvidar da palavra de Diogo. É perfeitamente possível que ele realmente nunca tenha enfrentado qualquer problema em sua relação profissional com Edu Falaschi.

O que esse depoimento não faz, entretanto, é invalidar automaticamente os relatos apresentados por Roberto Barros. O fato de um músico ter vivido uma experiência positiva não significa que outro, na mesma banda, necessariamente tenha vivido o mesmo. Uma experiência individual não anula outra.

Curiosamente, essa conclusão está em total sintonia com o próprio raciocínio apresentado por Diogo no início do vídeo. Foi ele quem defendeu que pessoas diferentes podem viver a mesma realidade e sair dela com percepções completamente distintas. Se esse princípio vale para explicar sua boa relação com Edu, ele também precisa valer para admitir que Roberto Barros possa ter tido uma experiência radicalmente diferente.

3. Um Edu diferente daquele mencionado por Roberto

Na sequência, Diogo passa a relatar episódios em que, segundo ele, Edu Falaschi foi além do que era obrigado a fazer. O guitarrista conta que houve ocasiões em que o vocalista pagou aos músicos um cachê superior ao previamente combinado e também relembra situações em que produziu camisetas de merchandising para que o lucro fosse dividido com toda a banda.

“Inclusive, teve algumas situações e alguns shows que foram muito legais, deram um resultado massa, e o Edu às vezes pagou a gente mais do que o combinado.

Então ele, de certa forma, descumpriu o que tinha combinado comigo… pagando mais. E isso aconteceu com todo mundo da banda.

Por quê? Porque o cara foi legal, deu bom para todo mundo, e ele pensou: ‘Por que não compensar os parceiros que estão ali com a gente no dia a dia da turnê?’, sabe? Isso aconteceu.

Uma outra coisa que eu posso contar aqui é que, em algumas situações de turnê, o Edu mandou fazer camisetas de merchandising. Obviamente, com o nome Edu Falaschi, mas elas foram feitas para a banda. Ou seja, para serem vendidas na lojinha.

Normalmente, o merchandising do Edu é dele. Ele faz as camisetas dele, vende e fica com o lucro.

Inclusive, nas turnês, eu vendo o meu merchandising e o lucro é meu. Eu vendo meus livros, camisetas, bonés, um monte de produtos durante os shows do Edu, e nunca paguei um centavo para ele por isso.

Eu pago o vendedor, que é o parceiro responsável pelas vendas, mas o Edu nunca ficou com nada do meu lucro.

E eu sei que existem bandas em que, mesmo sendo autorizado a vender seu merchandising, você precisa pagar uma porcentagem para o dono da banda. O Edu nunca me cobrou isso.

E, por outro lado, nessa outra história que eu estava contando… Acho que isso aconteceu mais de uma vez. Se eu não me engano, foram duas ou três vezes.

Ele fez algumas camisetas específicas da banda Edu Falaschi, mas para dividir o lucro com a banda.

O custo de produção foi todo dele. Ele pagou para fabricar as camisetas, recuperou esse investimento e depois dividiu todo o lucro entre nós.

Se eu não me engano, acho que ele nem ficou com a parte dele do lucro. Depois eu posso confirmar com ele, porque faz um tempo e eu realmente não me lembro direito.”

Em seguida, Diogo reforça que esses gestos não faziam parte de qualquer obrigação contratual.

“Ele tinha obrigação de fazer isso? Não.

Ele fez isso como uma forma de compensar a gente, porque, cara, a gente está ali correndo no dia a dia, trabalhando junto, sabe?

Então eu posso falar que tudo o que a gente acordou foi cumprido.

Posso falar também que, em algumas situações, ele fez mais do que o combinado e ajudou a gente simplesmente porque quis. Ele não era obrigado a fazer isso, entendeu?

Então, de novo, eu não estou falando da percepção de outras pessoas. Eu estou falando da minha percepção.

Tudo o que foi acordado entre mim e ele foi cumprido.”

Mais uma vez, estamos diante de um relato que, se verdadeiro, realmente retrata atitudes positivas de Edu Falaschi. Nada impede que esses episódios tenham acontecido exatamente da maneira como Diogo descreve.

O ponto central, porém, continua sendo outro.

Nenhum desses exemplos invalida, por si só, as acusações feitas anteriormente por Roberto Barros. Mostrar que uma pessoa foi correta, generosa ou agiu de forma exemplar em determinadas ocasiões não significa, automaticamente, que ela jamais tenha cometido erros em outros momentos ou com outras pessoas.

Além disso, chama a atenção o fato de que esse tipo de relato venha justamente em um momento em que a reputação de Edu está sendo colocada em xeque. Em vez de responder diretamente às acusações apresentadas por Roberto, o vídeo dedica boa parte do tempo a recordar episódios positivos envolvendo o vocalista, construindo uma imagem de alguém generoso, correto e preocupado com os músicos que trabalham ao seu lado.

São histórias interessantes e, se verdadeiras, merecem ser reconhecidas. Mas elas respondem a uma pergunta diferente daquela que o público está fazendo neste momento.

4. “Não preciso do cachê do Edu para pagar minhas contas”

É justamente aqui que, na nossa visão, aparece o trecho mais problemático de toda a manifestação de Diogo Mafra.

“Estou tendo uma experiência excelente. Não tenho do que reclamar. Então, de novo, gente, o que tá sendo falado do outro lado é a percepção dele. Eu tenho a minha. Eu nunca tive problema com o Edu. Adoro trabalhar com ele.

E tem uma outra coisa que eu posso pontuar. Eu vi algumas pessoas falando: ‘Como assim? O Diogo aceita trabalhar nessas condições…’

Sendo bem sincero, graças a Deus, eu não preciso do cachê do Edu para pagar minhas contas. Eu vivo dos meus trabalhos. Tenho cursos online, tenho vários outros projetos que faço. Hoje, a minha vida financeira e a da minha família dependem zero do cachê que recebo do Edu.

Então por que eu estaria lá, obrigado, aceitando condições ruins por causa do que ele me paga? Não faz sentido.

Eu estou lá porque eu gosto. Estou lá porque é massa, sacou? Se fosse ruim, eu não estaria lá. Não faz o menor sentido.

De novo: essa é a minha percepção. Para mim é ótimo trabalhar lá. Eu adoro. Sempre me dei muito bem, sempre funcionou muito bem. E, mais uma vez, tudo o que eu combinei com o Edu foi cumprido. Essa é a minha percepção. Então tirem as conclusões de vocês, mas só tomem cuidado. Lembrem-se sempre da história dos três lados.

Existe o lado dele, existe o meu lado e, muitas vezes, existe a verdade.”

Esta fala é problemática não porque ele ter outras fontes de renda. Muito pelo contrário. Construir uma carreira sólida, diversificar receitas e não depender exclusivamente dos cachês de shows é algo inteligente e deveria servir de inspiração para qualquer músico.

O problema está em utilizar essa realidade pessoal como argumento dentro de uma discussão que envolve a relação profissional de outro músico com o mesmo empregador.

Quando Diogo afirma que não precisa do cachê e permanece na banda simplesmente porque “é massa”, ele acaba estabelecendo um parâmetro que não pode ser aplicado a todos os profissionais da cena.

Nem todo músico teve as mesmas oportunidades. Nem todo músico conseguiu desenvolver cursos, trabalhos online ou outras fontes de receita ao longo da carreira. Muitos vivem exclusivamente da música. E não há absolutamente nada de errado nisso.

4.1 Ser músico é um trabalho como qualquer outro

Sob essa perspectiva, a fala acaba produzindo um efeito bastante delicado. Ainda que essa não tenha sido sua intenção, ela pode transmitir a ideia de que o problema estaria em quem depende do cachê para sobreviver, e não na qualidade das condições oferecidas.

É como se dissesse: “Eu não reclamo porque não preciso desse dinheiro.”

Mas essa lógica simplesmente não pode servir como parâmetro para avaliar a situação de quem vive exclusivamente da profissão.

Ser músico é um trabalho como qualquer outro. Existem pessoas que tocam por hobby, por paixão ou simplesmente pelo prazer de subir ao palco. E isso é ótimo. Da mesma forma, existem músicos que enxergam a atividade como sua profissão principal, pagam contas com ela e esperam condições de trabalho compatíveis com a responsabilidade que assumem.

Uma realidade não diminui a outra.

Por isso, usar a própria independência financeira como argumento para rebater críticas relacionadas a cachê ou condições de trabalho acaba desviando o foco da discussão. O ponto nunca foi se Diogo precisa ou não do dinheiro recebido por Edu Falaschi. O ponto é se um músico que depende exclusivamente desse trabalho tem ou não o direito de cobrar melhores condições sem que isso seja interpretado como ingratidão ou excesso de reclamação.

Esse, sim, é um debate que interessa a toda a cena do Metal brasileiro.

O amadorismo no Metal brasileiro é assustador!

Existe ainda uma consequência dessa fala que talvez seja ainda mais preocupante.

Não estamos falando de uma banda iniciante, de um artista underground ou de um projeto que ainda luta para conquistar espaço. Estamos falando de Edu Falaschi, um dos nomes mais importantes da história do Heavy Metal brasileiro, dono de uma carreira consolidada, reconhecimento internacional e de uma estrutura que poucas bandas nacionais conseguem alcançar.

É justamente por isso que esse discurso causa tanta estranheza.

Quando um músico que integra a banda de um dos maiores artistas do Metal brasileiro afirma que não se importa com o cachê porque possui outras fontes de renda e toca ali simplesmente porque “é massa”, a mensagem que acaba chegando ao restante da cena é extremamente ruim.

A impressão transmitida é que, mesmo alcançando um dos postos mais altos do Metal nacional, tocar profissionalmente ainda seria algo que depende de atividades paralelas para ser viável financeiramente.

E nós simplesmente nos recusamos a aceitar essa ideia como algo normal.

É evidente que construir múltiplas fontes de renda é inteligente e recomendável para qualquer profissional. O próprio Diogo merece reconhecimento por isso. Mas transformar essa condição em argumento dentro de uma discussão sobre relações de trabalho acaba passando um recado equivocado para centenas de músicos que ainda estão construindo suas carreiras.

O debate não deveria ser sobre quem consegue sobreviver sem determinado cachê.

O debate deveria ser se um músico que chega à banda de um dos artistas mais reconhecidos do Heavy Metal brasileiro pode exercer sua profissão de maneira digna, sendo remunerado adequadamente pelo trabalho que realiza.

Expectativa x Realidade

Porque esse é o sonho de milhares de músicos que hoje ensaiam em garagens, gravam seus primeiros discos e enfrentam quilômetros de estrada acreditando que, um dia, poderão viver da própria arte.

E esse sonho não é uma utopia.

O Brasil possui diversas bandas que conseguiram transformar a música em profissão. Nenhuma delas ficou milionária por causa do Heavy Metal. Esse nunca foi o objetivo. Mas muitas conseguiram construir carreiras sustentáveis, pagar suas contas, manter equipes, realizar turnês e viver com dignidade fazendo aquilo que escolheram como profissão.

É justamente esse horizonte que precisa ser defendido.

Quando naturalizamos a ideia de que tocar na banda de um dos maiores nomes do Metal brasileiro é algo que vale a pena simplesmente porque “é massa”, acabamos contribuindo, ainda que involuntariamente, para perpetuar um dos maiores problemas da nossa cena: a dificuldade de enxergar o músico como um profissional que merece viver do próprio trabalho.

Se queremos um Metal brasileiro cada vez mais forte, profissional e sustentável, esse romantismo precisa, em algum momento, dar lugar a uma discussão séria sobre valorização profissional.

Para finalizar, a resposta de Roberto Barros à Diogo Mafra:

“Com certeza existem vários lados e, para você, realmente vai estar tudo muito bom. Você não fez nada nos dois álbuns.

Não foi você que passou um ano e meio trabalhando no disco, gastando mais de R$ 1.700 por mês para estar na casa do cara, deixando de estar na minha casa. Depois, mais um ano no outro disco, com os mesmos gastos, além de seis meses de gravações, somando os dois discos.

Não foi você que gravou o álbum; você só gravou os seus solos. Enquanto você estava na sua casa, com a sua família e surfando, era eu que estava lá.

Ninguém da banda tem a percepção que eu tenho, pois o único que fez tudo isso fui eu. Eu ficava dez horas por dia trabalhando, por mais de vinte dias por mês. Eu pagava meus almoços e jantas, eu pagava minhas passagens e deixava de estar na minha casa para fazer essas composições.

Não foi você que quase ficou sem créditos, mesmo trabalhando igual um filho da puta. E, se não fosse o Aquiles, nem créditos eu teria.

Ou seja, claro que vai estar tudo bem para você. Você não deu 10% do trabalho que eu dei lá. Inclusive, quando eu saí do hospital, tive que refazer todos os arranjos da Pegasus porque o Edu não gostou do que você fez. Ou seja, lá fui eu salvar o barco mais uma vez, mesmo doente.

Você vai achar tudo bom porque a sua entrega foi e sempre será pequena. A minha entrega foi gigante. Essa é a diferença entre mim e você nesse projeto.

Dentro desses pontos de vista, eu concordo com você. Se eu tivesse sido você na banda, para mim também estaria tudo ótimo.

Mas, enquanto você vendia mentoria, eu fazia os álbuns que você hoje toca.

Abs,

Diogo

Ass.: Roberto Barros

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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