Indicação: Tierra Santa – “Destino” (2022)

Existe uma terra abençoada pela boa música e será falada neste capítulo das nossas indicações: Tierra Santa.

Muito se passou a dizer referente ao repertório e a temática das bandas, indo de encontro ao estilo e ao ritmo tocado pelas mesmas, comparando diversas questões e criando regras para o sujeito açoitado por essa turma: o Heavy Metal.

No caso envolvendo o lado extremo da música a coisa é ainda pior, mas isso foi generalizado para todos os subgêneros, ocasionando mais uma divisão pífia entre o já restrito público. Os desinformados que mal escutam um disco sequer, certamente acabam tomando decisões equivocadas e absurdas ao taxarem determinada banda por isso ou aquilo. Portanto, resolvi deixar nas entrelinhas para não mudar o rumo da prosa e causar um tumulto que possa fugir do assunto principal, ou seja, um dos lançamentos mais recentes dos hispânicos do Tierra Santa, a qual atende por “Destino”.

Tierra Santa/Divulgação

Mais uma vez, a aposta gira em torno de seu dialeto local para contar sobre passagens históricas tanto bíblicas quanto da humanidade em si. O guitarrista e vocalista, Ángel San Juan, e seus compatriotas, se mostraram dispostos a abrir mais um capítulo musical do livro de fatos e contos para espalhar ao globo novas e gratas canções.

O novo e décimo segundo álbum de estúdio dos representantes de Logroño, La Rioja, foi lançado via Maldito Records no dia 10 de junho, tendo a gravação e mixagem sob o comando do tecladista Juan Antonio San Martín e Javi San Martín, realizada no Sonido XXI Studio em Esparza de Galar, Navarra, Espanha. A masterização ficou a cargo de Enrique Soriano e foi feita no Crossfade Mastering, na conhecida Valencia, terra de um dos times futebolísticos que sempre admirei, o próprio Valencia. A arte da capa é assinada por Nayra Lopez.

Ficha técnica descrita? Sim!

Que tal entrarmos nesse novo mar de ideias dos espanhóis e verificar se de fato permanecem amplamente relevantes ou se tropeçaram na guia da música fraca e obsoleta? Vamos juntos encarar esse “Destino”!

O destino desta terra santa

O décimo segundo capítulo musical da banda espanhola marca um retorno próximo às raízes de sua sonoridade mais tradicional. A obra apresenta 11 faixas que equilibram a energia clássica da banda com uma produção moderna e polida, mas sem soar plastificada e/ou artificial.

O meu disco predileto do Tierra Santa é o “Caminos de Fuego”, lançado em 2010, e este disco possui bastante coisa que lembra o álbum citado. Riffs fáceis de assimilar, viradas de bateria condizentes com cada trama, melodias certeiras e um crescendo por entre os versos, pontes e refrãos de modo a empolgar o ouvinte logo nas primeiras audições. Os integrantes realmente são abençoados por tamanha capacidade de cativar até o ouvinte mais perverso em se tratando de temática maligna.

O álbum explora a jornada de um homem que desafia forças superiores, inclusive o próprio diabo, para conquistar a liberdade de moldar seu próprio caminho. Além disso, as letras abordam dois conjuntos de fatores muito fortes dentro do disco.

Primeiramente, temos mitologia e epopeia encontradas em faixas como a própria “Destino” e também “El Dorado”, das quais evocam cenários fantásticos, mencionando sereias, deuses e a busca por terras lendárias.

E em segundo lugar, temos espaço para sentimentos pessoais. Introspecção e o afeto, como na balada “Siempre”, que celebra o amor imortalizado, e na faixa de encerramento “Mi Madre”, que traz um tom nostálgico e comovente.

Ademais, o Tierra Santa utiliza solos de guitarra marcantes e coros bem estruturados para elevar a intensidade emocional das letras, garantindo que o álbum soe familiar aos fãs de longa data.

Principais destaques de “Destino”

“Por el Valle de las sombras” eu caminho sem medo de qualquer criatura submundana a qual possa surgir. É bem assim que o álbum se apresenta sob o comando desta música, com uma atmosfera densa. E também preparando o ouvinte para a jornada épica que se segue.

“Mi libertad” é o que busco a todo instante ao mesmo tempo em que sou sufocado por este mundo cruel e maldito. A canção reforça o tema central de autonomia e resistência, utilizando guitarras agressivas e elegantes. Tudo isso, no sentido de entregar energia e climatização cativante, além de solos e melodias classudas, por assim dizer.

Outras faixas poderosas como a luz

A música mais Heavy e repleta de camadas e riffs invocados atende por “Crucé el infinito por ti”. Eu atravessei o infinito por ti em meio aos versos, riffs, power chords e melodias mais incisivas e agressivas para os padrões dos espanhóis. Porém, isso traz mais ímpeto e vontade de seguir nessa viagem sonora horizonte e além.

Pense em uma mistura entre Judas Priest, Dio, Accept, Aria, Iron Maiden. Incluindo algo de Helloween e uma bateria com uma plumagem seca e que remete aos piratas alemães do Running Wild. Assim, você conseguirá trafegar à vontade por aqui.

Outro destaque vem a ser a faixa-título. Sendo esta que, utiliza metáforas de batalhas e a “luz do norte” para representar o alcance da eternidade e o cumprimento de um propósito. Possui um formato palhetado e energético como um Heavy Metal tradicional agitado e bem elaborado. Além dos solos sempre com toda pompa e charme necessários ao próprio som. Apresenta elementos entre o “No Prayer for the Dying” (Iron Maiden, 1990) e a fase Blaze Bayley. Muito interessante isso!

“Viajei em busca das estrelas
glória e liberdade
neste mundo sem lei nem fronteiras
onde o único rei é o mar

Com a dor de uma sentença injusta
perdi o amor que uma vida inteira dá
até que um dia quebrei minhas correntes
e foi então que encontrei a verdade”

O mais legal dessa letra é que, assim como muitas composições do Tierra Santa, você consegue colocar qualquer personagem como sendo a figura central. Só para exemplificar, temos a figura de Deus como o motivo para amar, a busca por Deus durante uma viagem extensa. Seja física, mental ou espiritual, mas pode ser por conta de um amor distante de uma mulher ou homem, dependendo de quem lê e interpreta a letra. Não morro de amores por nenhum deus e, portanto, posso colocar a vida em si como o ponto central de tudo. Se Deus e o Diabo choram, eu bato palmas pela boa encenação.

Anjo caído

“Pecado de ángel” pode ser colocada como mais um dos ótimos destaques do disco. Lançada como single, esta faixa resume a essência do Tierra Santa, combinando refrãos trabalhados com a pegada clássica do Heavy/Power Metal.

Em resumo, eu poderia chamar essa faixa de “Ejércitos de las tinieblas” – Parte 2. Pois, a levada principal é quase a mesma. Embora ela percorra outros caminhos e riffs também, mas em dado momento você percebe toda a estrutura se voltando a uma das melhores músicas do álbum que mais gosto dos caras.

Além disso, o nome da música já entrega o seu respectivo tema – o filho da luz, a qual tem a sua queda anunciada para nunca mais reatar os laços com os céus.

“Tu eras a estrela mais brilhante.
No jardim de Deus.
Do Éden, teu esplendor reinava.
Sobre a criação.
Tu corrompeste a tua fé e as tuas asas.
Tua alma e teu coração.
Agora és apenas cinzas nesta terra.
E não encontrarás perdão!”

A fé em meio às considerações finais

Eu acredito no Heavy Metal e somente ele me salvará. Eu sei que isso soa clichê e infantil, mas existem reuniões de adultos que são muito mais infantis do que tudo isso. Entretanto, o que vale mesmo é o que você carrega de bom consigo e o que apresenta ao mundo em que vive. O som praticado pelo Tierra Santa vai além de uma fé comum dita por qualquer um como se fosse uma pedra de dominó qualquer batida numa mesa velha de bar.

Aos que se prendem em dogmas musicais, quebrem as correntes e ouçam o chamado dos anjos do Tierra Santa! “Destino” é um álbum amplamente competente e ampliar facilmente o marcador em favor dos espanhóis e de todos que ouvirem este trabalho.

“Más allá de este mundo, la muerte nos llegó
despertando un castigo, que nunca el hombre vio
temblarán las montañas, caerá la humanidade
y volverá esta tierra a conocer la oscuridad

Descendió de lo alto, y la luz se llevó
recorriendo la tierra, quemó su juventud
apagó las estrellas, con su inmenso poder
y destruyo la vida haciendo al cielo arder
borrando al sol del horizonte

Con el fuego se llevó la esperanza y el valor
y el milagro de esta vida
un misterio que nos dio el regalo de la luz
que nos lleva a existir por siempre”

Nota: 8,7

Integrantes:

  • Roberto Gonzalo (baixo, vocal de apoio)
  • Ángel San Juan (guitarra, vocal)
  • Juan Antonio San Martín (teclados)
  • Dan Díez (guitarra)
  • Francisco Gonzalo Castillo (bateria)

Faixas:

  1. Por el valle de las sombras
  2. Mi libertad
  3. El dorado
  4. Crucé el Infinito por ti
  5. El poder de la tormenta
  6. Destino
  7. Pecado de ángel
  8. Siempre
  9. La fuente de la juventud
  10. Gran alma
  11. Mi madre
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