Human: há 35 anos, o Death transformava o Death Metal e assombrava o mundo com o talento de Chuck Schuldiner

Em 22 de outubro de 1991, o Death lançava seu quarto álbum de estúdio, Human, um trabalho que representou uma transformação fundamental na trajetória da banda e na própria evolução do Death Metal. Sob o comando de Chuck Schuldiner, o grupo começou a ultrapassar definitivamente os limites de suas origens mais brutais. Foi aqui que o grupo incorporou estruturas progressivas, arranjos sofisticados e uma abordagem instrumental que influenciaria gerações posteriores de músicos.

Após Scream Bloody Gore (1987), Leprosy (1988) e Spiritual Healing (1990), Schuldiner decidiu ampliar suas possibilidades criativas. Para isso, reuniu músicos com habilidades técnicas excepcionais: Paul Masvidal na guitarra, Sean Reinert na bateria e Steve Di Giorgio no baixo. Os dois primeiros integravam o Cynic, enquanto Di Giorgio já havia desenvolvido uma reputação respeitável na cena extrema com o Sadus.

O resultado foi um álbum que preservava a agressividade característica do Death, mas apresentava uma execução muito mais complexa. Gravado no Morrisound Recording, na Flórida, com produção de Scott Burns e do próprio Schuldiner, Human estabeleceu novos parâmetros para a utilização de técnica e musicalidade dentro do gênero.

Quando a brutalidade encontrou o virtuosismo

A abertura com “Flattening Of Emotions” já demonstrava que o grupo havia alcançado outro estágio de desenvolvimento. Os riffs continuavam pesados e agressivos, mas agora dialogavam com mudanças inesperadas de andamento, padrões rítmicos elaborados e intervenções instrumentais que exigiam atenção redobrada.

Em “Suicide Machine”, a combinação de agressividade e precisão reforçava a nova proposta, enquanto “Together As One” explorava uma dimensão mais técnica, com destaque para as linhas de baixo de Steve Di Giorgio e o impressionante trabalho de bateria de Sean Reinert.

Faixas como “Secret Face”, “See Through Dreams” e “Lack Of Comprehension” aprofundavam essa transformação, equilibrando composições sofisticadas com passagens extremamente pesadas. O álbum ainda apresentava “Cosmic Sea”, instrumental que explorava atmosferas progressivas e demonstrava a disposição de Schuldiner para experimentar novas possibilidades.

Um dos grandes méritos de Human é justamente não sacrificar a identidade do Death Metal em nome da complexidade. Os músicos utilizam sua habilidade para ampliar o impacto das composições, evitando transformar cada passagem em uma demonstração gratuita de virtuosismo.

Um divisor de águas na história do Death Metal

Outro aspecto importante foi o amadurecimento das letras de Chuck Schuldiner. O músico passou a abordar com maior profundidade questões relacionadas à existência humana, aos conflitos psicológicos e às contradições sociais, distanciando-se das temáticas de horror que caracterizaram parte dos primeiros trabalhos do Death.

Embora a banda já demonstrasse sinais dessa evolução em Spiritual Healing, foi em Human que as mudanças alcançaram uma dimensão realmente transformadora.

O disco também abriu caminho para a sequência de trabalhos que consolidaria Schuldiner como um dos compositores mais importantes do Metal extremo: Individual Thought Patterns (1993), Symbolic (1995) e The Sound Of Perseverance (1998).

Passados 35 anos, Human permanece como um marco do Death Metal Técnico e Progressivo. Mais do que um álbum importante na discografia do Death, representa o momento em que Chuck Schuldiner demonstrou que brutalidade, inteligência musical e sensibilidade artística poderiam coexistir em uma mesma obra.

Um clássico absoluto e uma das maiores realizações da história do Metal extremo.

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
Deixe seu comentário