Gene Hoglan relembra desafios da carreira e explica filosofia: “Você precisa servir à música”

O lendário baterista Gene Hoglan, conhecido por sua trajetória em nomes como Dark Angel, Death, Strapping Young Lad, Testament, Fear Factory e Dethklok, falou sobre alguns dos maiores desafios de sua carreira em entrevista ao Metal & Rock Zone, da República Tcheca. Ao relembrar discos, bandas e estilos que exigiram mais de sua técnica, o músico destacou diferentes momentos de sua trajetória. Além disso, explicou por que aprendeu que tocar rápido nem sempre significa tocar o que uma música precisa.
Questionado sobre seu maior desafio musical, Gene logo começou citando o único full-length dos canadenses do Mechanism.
“Eu sempre menciono um determinado álbum da banda Mechanism. O álbum se chama Inspired Horrific. Foi uma das minhas muitas bandas, mas foi uma banda que apareceu no meu primeiro DVD. Aquela banda tinha a bateria mais desafiadora que eu havia feito até aquele momento, e não acho que tenha feito muita coisa mais desafiadora desde então.”
O baterista continuou:
“Sempre tento desafiar a mim mesmo em todos os projetos dos quais participo, mas algumas músicas simplesmente se prestam a coisas mais insanas. Então, o álbum Inspired Horrific, do Mechanism, definitivamente foi a minha espécie de Human, do Death, fazendo algumas coisas malucas em compassos ímpares… Aprender um repertório do Opeth em uma tarde para tocar com eles foi um desafio. E tocar com o Forbidden é um desafio brutal — tocar não apenas as partes do Sr. Paul Bostaph, mas também as do Sr. Steve Jacobs. Estou sempre disposto a aceitar qualquer tipo de desafio.”
Hoglan também citou City, do Strapping Young Lad, e Demonic, do Testament, como exemplos de trabalhos que exigiram abordagens completamente distintas.
“O material do Strapping, como City, foi um disco bastante maluco. E esse foi praticamente o meu álbum seguinte depois de Symbolic, do Death. Lembro que, quando lançamos City, muitas pessoas reclamavam da minha bateria, dizendo: ‘O que aconteceu? A bateria dele em Symbolic era incrível, e agora não são um milhão de notas o tempo todo.’ É uma abordagem diferente. Você precisa servir à música, e entendo que algumas pessoas não compreendam muito bem essa ideia. Elas simplesmente querem que você mostre técnica em todos os momentos.”

“Mas, se você ouvir City, não falta intensidade naquele disco, cara. É como levar um soco no rosto mil vezes. E então o álbum seguinte foi Demonic, do Testament. Foi quando aprendi a realmente servir a uma música. Eric Peterson não procurava a bateria de Symbolic ou do Strapping. Ele queria uma bateria para o projeto dele. Portanto, são três discos com sonoridades diferentes e abordagens distintas de bateria, e foi aí que aprendi que você realmente precisa servir à música. Não precisa se exibir, mas deve garantir que aquilo que está fazendo faça sentido dentro dos parâmetros da canção. Foi isso que tentei fazer em todos eles.”
“Prefiro ser conhecido como um baterista completo”
Questionado sobre ser, em certo sentido, um músico capaz de atuar em diferentes vertentes da bateria, Gene Hoglan afirmou que prefere esse reconhecimento à fama de simplesmente ser considerado um dos mais rápidos ou técnicos.
“Isso seria algo pelo qual eu preferiria ser conhecido: simplesmente como um baterista completo. Algo como: ‘Ele consegue tocar algumas passagens suaves, bonitas e delicadas ou as coisas mais brutais possíveis.’ Para mim, isso é mais um elogio do que alguém dizer: ‘Uau, ele é o mais rápido’, ou ‘Ele tem isso ou aquilo.’”
Ele acrescentou:
“Sempre tentei trazer novos conceitos para a bateria desde os tempos do Dark Angel, passando pelos tempos do Death, pelos tempos do Strapping, e seguindo em frente — inclusive nas abordagens ao vivo e nas gravações.”
A filosofia de “roubar” e devolver algo novo à música
Por fim, Hoglan explicou sua visão sobre influências e originalidade. Para ele, bateristas inevitavelmente absorvem ideias de outros músicos, mas o objetivo deveria ser transformar essas referências em algo diferente.
“Já mencionei isso antes: bateristas deveriam roubar. Não há tanta coisa que você possa fazer na bateria dentro do conceito das músicas. Então, todos nós roubamos, mas sempre senti que, se vou roubar alguma coisa, preciso colocar duas coisas de volta nesse pote.”

“Sejam levadas que ninguém ouviu antes… Sempre tentei fazer isso com o Dark Angel, tentando escrever ritmos que ninguém tivesse tocado antes. Com o Death, começando por Individual Thought Patterns, tentei tocar levadas que ninguém tinha feito. Depois, com Symbolic, e também com o Strapping, continuei com essa abordagem, com os dois rides e coisas desse tipo, sempre tentando elevar a mim mesmo. E, se isso eleva todo mundo também, ótimo. Mas eu pensava: ‘Deixe-me tentar algumas coisas que nunca vi antes. Funciona para mim.’ Essa era realmente a minha abordagem.”
O baterista, no entanto, ressaltou que nunca planejou provocar uma revolução na comunidade musical.
“Eu não estava tentando provocar uma grande mudança na comunidade da bateria, mas tentava modificar aquilo que eu próprio podia fazer e me colocar em determinados parâmetros onde pensava: ‘Ninguém tentou isso. Ninguém tentou aquilo.’ Como o padrão de bumbo duplo acompanhando o riff. Comecei a fazer isso lá por 1987 ou algo assim, 1986, quando escrevia riffs. Eu conseguia escrever riffs de guitarra e criar padrões na bateria. Então, combinei os dois.”
“E pensei: ‘Isso é algo que nunca ouvi ninguém fazer antes.’ Quer dizer, pode existir em algum lugar, mas eu não conhecia, então resolvi tentar. Fiz muito disso, e agora isso acabou se tornando uma espécie de recurso comum no Metal. Muitas pessoas fazem isso, e minha ideia era: ‘Talvez isso possa ser a pequena contribuição do Dark Angel, colocar algo diferente nesse caldeirão. Eles trouxeram esse estilo. Ninguém está fazendo isso.’ Mas parece que pegou, então é isso.”
Ao longo de décadas, Gene Hoglan construiu uma reputação que vai além da velocidade e da precisão extrema que lhe renderam apelidos como The Atomic Clock e Human Drum Machine. Entre passagens pelo Metal Extremo, pelo Thrash Metal, pelo Death Metal e por projetos de sonoridade experimental, o baterista resumiu sua trajetória a uma busca constante por novos caminhos. Entretanto, sem perder de vista uma regra que aprendeu ao longo do tempo: a bateria precisa, antes de tudo, fazer sentido para a música.
