Fernando Ribeiro explica o conceito de “Far From God”, novo álbum do Moonspell
O Moonspell lançou em 3 de julho seu mais novo álbum de estúdio, Far From God. Conceitual, o trabalho reúne oito faixas em pouco mais de 42 minutos e marca o décimo quarto disco da trajetória dos portugueses. A obra chegou através do selo Napalm Records e contou com produção de Jaime Gomez Arellano, conhecido por trabalhos com Paradise Lost, Ghost e Sólstafir. Em entrevista ao Jaimunji, o vocalista Fernando Ribeiro detalhou a origem do título, bem como o sentido por trás da expressão “Longe de Deus”.
“Levou algum tempo para chegar até lá. Eu tinha vários títulos. Estava um pouco perdido em relação aos títulos. Eu tinha esse tipo de conceito até que, em um belo dia, simplesmente peguei essas três palavras, juntei-as e achei que soavam muito marcantes. Então, voltei ao que me inspirou.
Retomei meus estudos de filosofia, que fiz muitos anos atrás na Universidade de Lisboa. E entendi que havia um filósofo muito importante para mim e para muitas pessoas no mundo: Friedrich Nietzsche. Tive a oportunidade e o privilégio de estudá-lo um pouco mais a fundo, porque Nietzsche é muito atraente para quem quer apenas falar sobre ‘Deus está morto’ e o Super-Homem, mas ele é muito mais do que isso. Há muito mais nas entrelinhas.”
Nietzsche e a distância dos conceitos originais
O cantor explicou que a obra do filósofo alemão certamente ajudou a organizar a ideia central de Far From God, especialmente por sua investigação sobre a origem e o sentido das palavras. Para Fernando Ribeiro, a distância entre os significados originais de conceitos como amor, virtude e bondade encontra eco direto no mundo contemporâneo.
“Ele foi alguém que estudou a língua materna, os idiomas, o grego original, e sua obra consistia em retornar ao sentido natural e original das palavras. Então, ele pegava essas palavras e as comparava ao seu próprio século. E a conclusão óbvia é que estamos muito distantes dos conceitos originais de amor, virtude, bondade e assim por diante. No próprio século dele, parece que Nietzsche estava prevendo o futuro, porque é exatamente nisso que nos transformamos hoje.
Então, ‘Far From God’ é uma metáfora para a distância, vamos chamar assim”, explicou Fernando. “Deus é apenas… Bem, é uma palavra muito grande porque, acredite ou não, queira ou não, toda banda da cena Metal vai falar sobre Deus de diferentes formas. Quero dizer, Nergal, do Behemoth, vai criticá-lo e queimar a Bíblia. Eu vou tentar entendê-lo, ler a Bíblia e compreender o conflito entre o homem e Deus.”

Religião, política e falta de empatia
Na sequência, Fernando Ribeiro citou The Clash e a música “Should I Stay Or Should I Go?” para refletir sobre a influência da religião na vida cotidiana. Assim, o vocalista também apontou uma crítica às religiões monoteístas e à forma como interesses políticos, violência e intolerância distorcem seus ensinamentos originais.
“É um pouco como naquela música do The Clash, ‘Should I Stay Or Should I Go?’. Qual é a influência dessa coisa enorme, desse grande conceito, em nossas vidas? Porém, no fim das contas, nós dois estamos falando sobre Deus, e isso mostra a importância desse título. Acho que ele também traz uma espécie de crítica velada às religiões monoteístas do nosso tempo.
Essas religiões estão realmente muito distantes de Deus porque, caso você se dê ao trabalho de ler os ensinamentos e as intenções originais do Islã, do Cristianismo ou do Judaísmo, verá que elas tentam orientar e melhorar o ser humano, mas o homem fez uma bagunça com tudo isso. Temos terrorismo, ocupação, evangelismo, evangelistas presidenciais. Temos essa grande mistura explosiva entre religião e política.
Por isso, acredito que o título se encaixa em todas essas perspectivas, mas, em resumo, trata-se da distância que colocamos entre nós e nós mesmos. Às vezes, essa ideia de estar ‘longe de Deus’ usa grandes palavras poéticas para ilustrar a forma como escolhemos errado e como tentamos, de maneira muito violenta e desesperada, justificar nossas próprias escolhas.
‘Far From God’ representa um pouco a falta de empatia, e vejo isso todos os dias: na rua, na fila do supermercado, no trânsito, às vezes nos shows, na forma como as bandas ou os fãs são tratados. Este é um mundo muito ‘longe de Deus’, e acho que o título acertou em cheio porque significa muitas coisas. Mas, em essência, ele também fala sobre o espírito do tempo e o estado do mundo.”
