Feel The Fire — Overkill entre o Heavy, o Speed e o nascimento do Thrash Metal

O Overkill começou a tomar forma em 1980, quando o baixista D.D. Verni e o baterista Rat Skates encerraram as atividades do The Lubricunts, grupo ligado ao Hardcore Punk, e decidiram montar uma nova banda. Ao lado do vocalista Bobby “Blitz” Ellsworth e de diferentes guitarristas, os músicos passaram a frequentar o circuito de clubes de Nova York e Nova Jersey, inicialmente com um repertório baseado em músicas de Iron Maiden, Judas Priest e Black Sabbath.

A identidade do grupo começou a ficar mais clara com a entrada de Bobby Gustafson. Assim, o Overkill apostou em apenas um guitarrista, algo que ajudou a destacar tanto os riffs de Gustafson quanto o baixo de D.D. Verni. Segundo o próprio músico, a formação começou a compor material autoral em 1982 e realizou sua primeira com repertório próprio em 1983. Em pouco tempo, a banda conseguiu convencer os clubes de que um grupo autoral poderia lotar casas acostumadas a programações mais comerciais.

Ainda em 1983, o quarteto gravou a demo Power in Black, responsável por ampliar consideravelmente sua reputação no circuito de troca de fitas. O material vendeu mais de 1.500 cópias somente por meio da loja Rock’n’Roll Heaven, comandada por Jon “Jonny Z” Zazula, e, segundo Rat Skates, chegou a superar a procura por muitos discos disponíveis no estabelecimento. Posteriormente, o Overkill apareceu nas coletâneas Metal Massacre V e New York Metal ’84, além de lançar um EP autointitulado.

Das apresentações nos clubes ao Pyramid Sound

O talento demonstrado ao vivo, porém, teve peso decisivo. Jon Zazula já acompanhava o crescimento da banda, mas teria tomado a decisão de contratá-la depois de assistir a uma apresentação ao lado do Anvil, no tradicional clube L’Amour, no Brooklyn. Dessa maneira, o Overkill chegou à Megaforce Records não como um grupo desconhecido em busca de uma primeira oportunidade, mas como uma força consolidada no underground.

Lançado em 15 de outubro de 1985 pela Megaforce Records, Feel the Fire apresentou a formação composta por Bobby “Blitz” Ellsworth nos vocais, D.D. Verni no baixo, Bobby Gustafson na guitarra e Rat Skates na bateria. As gravações aconteceram no Pyramid Sound, em Ithaca, no estado de Nova York, com produção de Carl Canedy, baterista do The Rods, e engenharia de Alex Perialas. George Marino realizou a masterização, enquanto Jon Zazula assumiu a produção executiva. A escolha de Canedy fazia sentido porque ele já conhecia o peso do Heavy Metal e havia trabalhado com o Anthrax, mas todos ainda tentavam descobrir como registrar em estúdio aquela combinação inédita de velocidade, distorção e agressividade.

Indisciplinados, mas talentosos

O processo se tornou uma experiência de aprendizado para músicos e produtores. Rat Skates admitiu que a banda ainda precisava compreender melhor a disciplina exigida por uma gravação profissional e recordou que as festas interferiram em algumas performances. O baterista chegou a atribuir sua execução irregular em “Hammerhead” aos excessos da noite anterior. Anos depois, ele avaliou que Carl Canedy fez um bom trabalho diante de um cenário no qual ninguém sabia exatamente como produzir o Thrash Metal. Ainda assim, Skates considerou que o disco poderia ter recebido mais peso nas frequências graves.

Os próprios integrantes apresentaram opiniões diferentes sobre o resultado. Em 1986, Rat Skates afirmou que o grupo estava satisfeito apenas até certo ponto e relacionou as limitações sonoras à falta de experiência e aos problemas com equipamentos. Bobby Gustafson seria ainda mais duro ao criticar a produção. Contudo, a crueza que desagradava aos músicos ajudou a conservar a energia dos clubes. Em vez de soar excessivamente polido, Feel the Fire registra uma banda tocando em unidade, com pouco espaço entre os instrumentos e uma sensação de urgência.

Quando as regras do Thrash Metal ainda não existiam

Embora hoje apareça entre os primeiros clássicos do Thrash Metal norte-americano, Feel the Fire nasceu em uma época na qual o gênero ainda não possuía uma fórmula plenamente estabelecida. As estreias de grupos como Metallica, Slayer, Megadeth, Anthrax e do próprio Overkill mantinham fortes características do Speed Metal, do Heavy Metal da NWOBHM e do Punk/Hardcore. Os pilares do estilo estavam sendo construídos conforme essas bandas lançavam novos trabalhos, assimilavam influências e descobriam diferentes maneiras de aumentar a velocidade e o peso.

O próprio Bobby “Blitz” Ellsworth reconheceu que o grupo não entrou no estúdio com a intenção consciente de gravar um álbum de Thrash. Na visão de Blitz, eles eram uma banda de Metal com raízes no Punk, enquanto a história posteriormente classificou o resultado como parte fundamental do novo movimento.

Essa combinação aparece imediatamente em “Raise the Dead”, cuja introdução ameaçadora logo dá lugar a riffs velozes, viradas secas e aos gritos agudos de Blitz. Na sequência, “Rotten to the Core” estabelece uma das principais marcas do Overkill: baixo presente, andamento acelerado, mudanças rítmicas e um refrão coletivo construído para os shows. A música se transformou em um dos grandes hinos da carreira da banda e permanece como uma síntese eficiente da união entre o Metal tradicional e a agressividade urbana da Costa Leste.

“There’s No Tomorrow” avança por um caminho ainda mais veloz, enquanto “Second Son” preserva melodias e construções próximas do Heavy Metal britânico. Na segunda metade, “Hammerhead” apresenta uma estrutura direta e um riff que rapidamente se fixa na memória. Já a faixa-título alterna ataques rápidos, passagens cadenciadas e uma atmosfera sombria, oferecendo um dos arranjos mais desenvolvidos do álbum.

Ousadia e intensidade

A curta “Blood and Iron” aproxima o quarteto da objetividade do Hardcore Punk, sem abandonar as guitarras metálicas, enquanto “Kill at Command” explora sucessivas mudanças de andamento e alguns dos melhores momentos de Bobby Gustafson. O guitarrista alterna riffs cortantes, melodias e solos sem permitir que a presença de apenas uma guitarra reduza a intensidade. Ao contrário, o espaço deixado por sua execução ajuda o baixo de D.D. Verni a ganhar uma função rítmica e melódica incomum para o período.

O encerramento ficou a cargo de “Overkill”, primeira parte de uma sequência que continuaria nos três álbuns seguintes. Rat Skates queria que a banda tivesse uma composição com seu próprio nome, como Motörhead, Iron Maiden e Manowar, mas buscou uma estrutura diferente do restante do repertório. A introdução baseada em voz e guitarra, a atmosfera de filme de horror e a ausência de um solo convencional transformaram a faixa em uma das experiências mais particulares da estreia.

Embora não estivesse no LP original, o cover de “Sonic Reducer” reforça a ligação com a cena punk de Nova York. Blitz explicou que os músicos escolheram uma composição do Dead Boys porque faziam parte daquele ambiente e acompanhavam de perto bandas como Ramones, Television, Heartbreakers e o próprio grupo liderado por Stiv Bators.

Literatura, horror e linguagem das ruas

As letras de Feel the Fire abordam morte, violência, criaturas sobrenaturais, rebelião e diferentes imagens de horror. Entretanto, por trás da aparência direta, havia uma tentativa de combinar referências mais elaboradas com a linguagem urbana da banda. Enquanto preparava o álbum, Bobby “Blitz” Ellsworth frequentava a universidade, estudava disciplinas ligadas à literatura e tinha Comunicação como área principal.

Essa formação apareceu especialmente em “Overkill”. Durante as aulas, Blitz teve contato com obras de William Shakespeare e inseriu na composição ideias relacionadas a Rei Lear, além de uma expressão em latim. O contraste entre referências literárias, cenários sobrenaturais e a agressividade das ruas ajudou a estabelecer uma característica que acompanharia o vocalista: letras teatrais e sombrias apresentadas por meio de uma interpretação estridente, sarcástica e profundamente pessoal.

Uma capa feita com fogo de verdade

A fotografia da capa também nasceu de uma abordagem bastante distante das facilidades digitais. Para criar o cenário, a equipe construiu uma parede de palha e feno, cobriu a estrutura com plástico, acrescentou água e gasolina e, por fim, ateou fogo diante dos músicos. O objetivo consistia em capturar a formação cercada pelas chamas, mas a temperatura transformou a sessão em uma experiência dolorosa.

Segundo Blitz, as primeiras imagens mostravam os integrantes tentando fugir do fogo. A posição estranha de seus braços na fotografia escolhida ocorreu porque o calor havia provocado dores e queimado os pelos das mãos. Em meio à confusão, eles chegaram a brincar que o álbum deveria se chamar Runaway. Não havia montagem posterior capaz de corrigir a cena: a banda precisava permanecer diante das chamas até que o fotógrafo conseguisse o registro desejado.

O fogo que atravessou as décadas

Feel the Fire não apresentou o Thrash Metal como uma linguagem pronta. Sua importância reside justamente no oposto: o álbum capturou um período no qual bandas de diferentes regiões ainda misturavam referências e construíam os elementos que posteriormente definiriam o gênero. No caso do Overkill, o Heavy Metal britânico, o Speed Metal e a agressividade do Punk nova-iorquino formaram uma identidade mais suja, direta e urbana do que aquela desenvolvida por boa parte dos grupos da Bay Area.

A estreia também permitiu que a banda ultrapassasse o circuito de Nova York e Nova Jersey. Durante a divulgação do álbum, o Overkill dividiu palcos com nomes como Nuclear Assault, S.O.D., Carnivore, Venom, W.A.S.P., Anvil e Metallica. Em 1986, excursionou pela Europa com Anthrax e Agent Steel, experiência que ampliou significativamente sua base de fãs, sobretudo na Alemanha.

Décadas depois, músicas como “Rotten to the Core”, “Hammerhead”, “Feel the Fire” e “Overkill” continuaram ocupando espaço no repertório do grupo. Sendo assim, em 16 de abril de 2016, o quarteto executou o álbum integralmente na Turbinenhalle 2, em Oberhausen, na Alemanha, durante uma apresentação que também celebrou os 25 anos de Horrorscope. O registro originou o lançamento ao vivo Live in Overhausen, disponibilizado pela Nuclear Blast em 2018.

Mais do que apresentar ao mundo uma das bandas mais persistentes da história do Metal norte-americano, Feel the Fire preservou o instante em que a velocidade do Speed Metal, as melodias da NWOBHM e a ferocidade do Punk/Hardcore começaram a assumir uma nova forma. Antes de o Thrash Metal adquirir regras, o Overkill registrou o momento em que elas ainda estavam sendo inventadas.

Lista de faixas — Feel the Fire

  1. Raise the Dead — 4:18
  2. Rotten to the Core — 5:00
  3. There’s No Tomorrow — 3:23
  4. Second Son — 3:54
  5. Hammerhead — 4:02
  6. Feel the Fire — 5:52
  7. Blood and Iron — 2:41
  8. Kill at Command — 4:48
  9. Overkill — 3:28
Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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