Entre o ritual e o espetáculo: Tobias Forge revela como nasceu a mitologia do Ghost

Odiado por alguns e amado por muitos, o Ghost continua a dividir opiniões dentro do Metal, ao mesmo tempo em que conquista espaço cada vez maior no cenário do Rock mundial. A combinação entre visual chocante, referências ocultistas e músicas mais acessíveis sempre incomodou parte dos headbangers mais ortodoxos. Ainda assim, a banda sueca provou que sua proposta vai muito além da polêmica estética, sustentando uma identidade artística sólida e absolutamente autoral.

Desde o início, Tobias Forge demonstrou que o Ghost não seria apenas um projeto musical comum. Mesmo no primeiro contrato com o selo independente londrino Rise Above, comandado por Lee Dorrian, do Cathedral, o músico já pensava grande. Enquanto a gravadora defendia uma postura discreta, com poucos shows e mínima exposição, Forge apostava na ideia de transformar a banda em um grande espetáculo ao vivo, capaz de ocupar teatros e, futuramente, arenas.

Essa divergência estratégica acabou levando a uma separação amigável, mas decisiva. Para Tobias Forge, crescer exigia estrutura, turnês constantes e presença no mercado. Assim, mais do que um rompimento contratual, aquele momento marcou o primeiro passo rumo à construção de um universo próprio, onde música, imagem e narrativa caminhariam lado a lado.

Photo: John Phillips/Getty Images

A origem da história por trás das máscaras

A virada definitiva aconteceu quando o Ghost assinou com a Loma Vista Recordings, selo fundado por Tom Whalley e Ryan Whalley. Com um currículo que inclui nomes como Green Day, Red Hot Chili Peppers, Nine Inch Nails e Ronnie James Dio, Tom Whalley enxergou potencial imediato na banda. No entanto, fez uma exigência clara: era preciso criar uma história que sustentasse aquele projeto tão singular.

Até então, o anonimato era parte central do conceito. Tobias Forge não via necessidade de uma narrativa formal, já que a banda ainda dava seus primeiros passos. Mesmo assim, o desafio proposto pelo executivo acabou se tornando o ponto de partida para o que hoje é um dos universos mais elaborados do Rock moderno. A partir dali, o Ghost deixou de ser apenas uma banda para se tornar uma mitologia em constante expansão.

Esse processo criativo se refletiu diretamente na criação dos personagens Papa Emeritus, figuras que passaram a liderar a banda em diferentes fases. Cada álbum trouxe um novo “Papa”, reforçando a ideia de sucessão, decadência e poder, elementos centrais da identidade do grupo. A troca constante de personagens manteve o projeto vivo, imprevisível e profundamente conectado à sua narrativa.

Dos discos ao palco: a história ganha vida

A transição de Papa Emeritus III para Cardinal Copia, e posteriormente para Papa Emeritus IV, consolidou essa abordagem quase teatral. Álbuns como Prequelle, Impera e o mais recente Skeletá não apenas apresentaram novas sonoridades, mas também avançaram a história contada pelo Ghost, tanto em videoclipes quanto em conteúdos especiais e apresentações ao vivo.

Esse cuidado narrativo alcançou seu ápice nas turnês mais recentes, especialmente na Skeletour. Concebida como uma experiência cinematográfica, a turnê transformou os shows em verdadeiros rituais visuais. Inspirado por catedrais brutalistas e símbolos góticos, o palco se tornou uma extensão da própria história da banda, com destaque para o imponente Grucifix, símbolo máximo dessa fusão entre fé distorcida e Rock.

Com direção criativa de Tobias Rylander e colaboração de Amir Chamdin, o espetáculo incorporou elementos de arquitetura, iluminação e vídeo de forma integrada. Referências a bandas clássicas como Queen e Van Halen surgiram na estética da iluminação, enquanto plataformas móveis e entradas ocultas reforçaram o clima teatral. Assim, o Ghost reafirmou que sua força não está apenas nas músicas, mas na capacidade de contar histórias de forma grandiosa e envolvente.

Ao olhar para trás, fica claro que a narrativa do Ghost não nasceu pronta, mas se construiu ao longo do caminho. A partir de decisões estratégicas, conflitos criativos e muita imaginação, Tobias Forge transformou um projeto controverso em um dos universos mais ricos e instigantes da música atual. Entre o ritual e o espetáculo, o Ghost segue provando que, no Rock, contar uma boa história ainda faz toda a diferença.

As explicações de Tobias Forge

Abaixo, o próprio Tobias Forge, em entrevista ao jornalista Liam McEwan da Associated Press, contou todo este processo, veja as falas do músico abaixo:

“O primeiro contrato do Ghost foi com um pequeno selo independente de Londres, chamado Rise Above. Era uma gravadora muito respeitada, quase uma instituição cult, comandada por Lee Dorrian, famoso pelo Cathedral. A abordagem deles — tanto dele quanto da equipe — era bem discreta: fazer pouco, dar poucas entrevistas, não aparecer muito e, de preferência, tocar pouco. Nós somos muito bons amigos e continuamos amigos até hoje, mas, em nível estratégico, discordamos bem cedo, porque eu não tinha muito interesse em manter uma presença constante nas redes sociais ou na mídia, mas queria, com certeza, tornar o Ghost o maior possível como banda ao vivo.

Naquela época, minha visão era a de transformar o grupo em uma grande banda de teatro, sair de clubes pequenos e chegar a apresentações para cerca de duas mil pessoas em teatros. Porém, eu entendia que, para alcançar isso, precisava respeitar certas ‘leis da gravidade’: era necessário fazer turnês e cumprir algumas etapas. Eles, por outro lado, não queriam que eu tivesse um agente nem um empresário. E eu pensava: ‘Claro que vou ter um empresário e, obviamente, precisamos de um agente’. Então, ficou claro que teríamos de seguir caminhos diferentes, e fizemos isso de forma amigável.”

Forge também contou como assinou com a Loma Vista Recordings, gravadora fundada por Tom Whalley e Ryan Whalley:

“Naquele momento, a Loma Vista era totalmente nova. Eles basicamente tinham acabado de fechar um contrato para um espaço de escritório, porque eram muito recentes e ainda não tinham nenhum lançamento. Acho que só haviam assinado o Damian Marley. Não tenho certeza, mas eu — ou o Ghost — fui a segunda contratação, algo assim. Mesmo assim, Tom Whalley e seu filho Ryan Whalley vinham do topo absoluto da indústria musical americana. O Tom tinha acabado de deixar o cargo de chefão da Warner Brothers, onde ficou por cerca de dez anos. Ele era um nome muito grande na indústria e tinha contratado inúmeros artistas importantes.

Além disso, ele era extremamente respeitado como executivo de A&R. Apesar de ter passado muito tempo lidando com grandes corporações, ele começou justamente como A&R. Foi ele quem contratou Ronnie James Dio quando o cantor estava praticamente desacreditado após sair do Black Sabbath, assinando com ele para o álbum de estreia do DIO, ‘Holy Diver’. Ele também contratou Helmet, Nine Inch Nails, Tupac, entre outros. Ele tem um talento especial para encontrar artistas.

Quando ele me propôs assinar com a Loma Vista, aquilo pareceu extremamente atraente. Trabalhar com um selo novo era empolgante. Na época, várias grandes gravadoras já consolidadas bateram à nossa porta, mas fiquei muito impressionado com o currículo dele e com o que havia feito por outros artistas. Também era tentador trabalhar com alguém realmente grande que, ainda assim, estava começando um selo independente. Eu teria contato direto com o principal nome, e não apenas com um representante de A&R — sem desmerecer os A&Rs, claro.

Ao longo da história do rock, é comum ver bandas, especialmente as que estão cercadas de hype, ficarem em uma posição muito instável. No caso do Ghost, ainda era incerto se conseguiríamos sobreviver além do entusiasmo inicial. Você sai da parte rasa e entra em águas profundas quando seu A&R — a pessoa que acredita em você — pode simplesmente sair ou ser demitida. De repente, você se vê como aquela estranha banda sueca de AOR satânico alternativo, sem apoio algum.

Por isso, eu quis trabalhar com ele. Uma das primeiras coisas que ele me disse foi: ‘Eu amo a sua banda’. Parecia algo muito sincero, cheio de elogios genuínos sobre o quão boa a banda era e sobre o quanto ele acreditava que poderia ajudar. Mas ele também disse: ‘Existe um problema: a história. Qual é a história? Nunca trabalhei com algo que não tivesse uma história para contar’.

E eu respondi: ‘Bom, isso vai ser um problema, porque somos anônimos. Não existe uma banda no sentido tradicional. Além disso, ainda estamos começando, não temos uma história. Talvez daqui a dez anos possamos contar algo’. E ele respondeu: ‘Precisamos trabalhar nisso’. Eu aceitei. E foi assim que a história nasceu. Em resumo.”

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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