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Edu Falaschi, playback e a roqueirada da internet

E lá vamos nós de novo…

Creio que qualquer fã de Metal que tenha o mínimo apreço pelo Power Metal e acompanha o trabalho do ex-vocalista do Angra, Edu Falaschi, se deparou nos últimos dias com a polêmica da vez envolvendo o músico e seu novo show. Se você é um alien, esteve de férias em marte ou, simplesmente, não viu nada sobre isso, vamos resumir tudo para você.

Edu Falaschi lançou um disco de qualidades inquestionáveis no ano passado e retornou com força total ao primeiro escalão do Metal nacional. “Vera Cruz” foi ovacionado em resenhas do mundo todo e, para 2022, o vocalista preparou uma turnê brasileira de divulgação do registro com direito a execução na íntegra do disco em questão e também do clássico “Rebirth”, do Angra.

   

Para isso, Edu e sua banda pensaram em todos os detalhes, tudo foi feito com muita calma, capricharam no palco, preparam uma produção digna de banda gringa e, finalmente, chegou a hora de começarem os shows. E foi aí que começou toda a polêmica.

EDU FALASCHI / Reprodução / Facebook

Algumas pessoas levantaram a possibilidade do cantor estar simulando cantar alguns trechos mais altos e se utilizando do famigerado playback. Vídeos gravados por fãs varreram a internet e, realmente, em alguns momentos fica essa impressão. Rapidamente, isso tomou uma proporção enorme e, como de costume, os fãs do “Angraverso” começaram a formar times e brigar loucamente entre si.

Para entender tudo isso, vamos responder a três questionamentos esclarecedores:

1 – Edu ainda canta bem hoje em dia?

Sim. Ele se recuperou do problema que teve de refluxo gástrico e voltou a cantar bem. Mas (e há um enorme MAS aqui) assim como a grande maioria dos vocalistas, ele está mais velho e perdeu alguma potência vocal. Ainda é capaz de cantar as músicas antigas, mas para uma turnê inteira onde em cada show precisará executar dois álbuns dificílimos e na íntegra, obviamente, alguns truques serão utilizados.

Nada além do que muitos outros vocalistas já fizeram e ainda fazem. Quem foi em algum show recente do Judas Priest sabe que Halford se utiliza de diversos efeitos na voz, King Diamond canta com uma vocalista de apoio que emula seus falsetes de maneira idêntica aos reproduzidos em estúdio e em diversos momentos não se sabe se quem está cantando é ele ou ela. Recentemente, David Coverdale contratou um cantor de apoio para o Whitesnake, pois não conseguia mais alcançar as notas mais altas. E tudo isso sem mencionar o número estratosférico de bandas que mudaram afinações para dar uma forcinha ao seu cantor. Algo absolutamente normal e que acontece com a maioria das bandas.

Edu simplesmente percebeu que era hora de ter vocais de apoio e, em algum trecho pontual do show, usar o chamado VM. Um recurso pra lá de manjado e utilizado por muita gente há tempos.

Mas se o músico ainda entrega uma boa performance e os recursos utilizados é algo rotineiro, por que toda essa falação? Bom, chegamos ao nosso segundo questionamento.

2 – Por que acontece esse tipo de polêmica?

Infelizmente, uma das maiores bandas do Brasil de todos os tempos (Angra), ao longo dos anos, possui uma longa, chata e desnecessária, história de brigas. Gostem ou não, a carreira do Angra é marcada por uma guerra de egos sem igual entre seus integrantes e ex-integrantes. Isso acabou respingando nos fãs e estes passaram a tomar partido nessas brigas. Vamos ser sinceros, todos estes desentendimentos deveriam ter sido resolvidos internamente, mas ao invés disso, chegaram na mídia em formato de declarações, acusações, trocas de ofensas e resultado é esse que vemos. O tal “Angraverso” é constituído por fãs da “fase André Matos”, fãs da “fase Edu”, fãs da “fase Lione”, fãs do Angra que odeiam o Shaman, fãs do Shaman que detestam o Edu, fãs do Edu que não suportam André Matos, fãs de Aquiles Priester magoados com Rafael Bittencourt, e por aí vai…

É uma verdadeira bagunça e pouca gente se entende neste multiverso da loucura.

A música desperta paixões e muitos são movidos por estas paixões, logo, não precisamos dizer que quando existem muitos atritos e os consumidores, que deveriam ser apenas consumidores da obra, resolvem se envolver nestes atritos, acontece uma divisão natural que resulta em críticas exacerbadas, análises rasas e, óbvio, muitas injustiças.

“Espera aí Mundo Metal, mas vocês já estão cravando que as críticas ao Edu são injustiças?”

Para poder responder a essa questão, vamos ao nosso terceiro questionamento.

3 – O show do Edu vale à pena?

Independente dos recursos utilizados, é preciso dar o braço a torcer, o show possui um alto padrão, principalmente, em se tratando de Brasil. E isto é um fato.

Edu não poupou esforços e está entregando uma superprodução que deveria arrancar sorrisos de satisfação de toda pessoa que vai a um show com o intuito de assistir a um grande espetáculo. E é justamente neste ponto que temos um problema grave no dito fã de Metal do nosso país. Por mais que o músico se empenhe em entregar o melhor show possível, o fã de Metal sempre busca o erro e está à caça dos deslizes.

Eu entendo que o consumidor de Metal é mais exigente e presa por detalhes que fãs de outros estilos não se atentam muito. Mas vejam bem, a experiência de ir a um show precisa estar 100% ligada a música. Você vai para ouvir suas canções prediletas, para ver o seu artista favorito, para se divertir e usufruir de momentos únicos que envolvem a troca de energia com a banda, com amigos e com os demais presentes. Não estou aqui isentando um artista de erros cometidos, existem bandas que já fizeram e fazem shows horrorosos e/ou esquecíveis, mas pagar caro em um ingresso para assistir ao show com uma lupa e ficar reparando em cada trecho que o guitarrista deixa de fazer de forma 100% precisa ou em cada nota que o cantor não faz exatamente igual ao disco, me desculpem, é inaceitável. Digo mais, é coisa de gente doente.

EDU FALASCHI / Photo By: @caikescheffer

Toda e qualquer banda erra. Todo e qualquer vocalista vai escorregar em alguma nota. Todo e qualquer show terá os seus momentos em que a execução não sai do jeito que foi ensaiado. Estamos falando de músicos profissionais que, apesar de serem exímios em seus instrumentos, são seres humanos passíveis de erros. Querer que um cantor que já chegou aos 50 anos de idade e passou por problemas graves envolvendo sua voz, cante músicas que ele gravou quando tinha 20 e poucos anos de forma idêntica ao que foi gravado na época do lançamento, é total falta de bom senso. Exigir que um guitarrista que, notoriamente, é acima da média, faça shows 100% sem falhas é impossível.

Pedi para um amigo e seguidor de nosso site (nosso glorioso Deivid Souza,) relatar o que achou do show do Edu. Segue abaixo o “testemunho”:

“O show começou às 20:30 com o álbum “Rebirth” na íntegra, o palco tinha como fundo a capa do disco e a estrutura do “navio” não estava completa ainda, porém, já era uma estrutura bem melhor do que vemos por aí em outros shows. Em relação a banda, achei perfeita em todo tempo da execução de “Rebirth”, em relação ao Edu, algumas partes ele não conseguiu manter o mesmo tom de voz, parecendo como se fosse uma espécie de “falha” de microfone. Em algumas vezes, os backing vocals ajudaram ele, mas confesso que foram “falhas” bem pequenas. Pelo fato de eu ter visto os vídeos no YouTube (que falavam de playback e etc), foi algo que fiquei bem mais atento, mas não mudou em nada a qualidade do show.”

“Tiveram algumas participações durante a parte do “Rebirth” e em “Visions Prelude”, entrou o Fábio Arankan, o tenor que faz o “Fantasma da Ópera” aqui no Brasil. Ficou muito bom o dueto com o Edu, o Fabio canta demais e fechou em grande estilo a primeira parte. Não se passaram nem 10 minutos e as cortinas se abriram novamente. O “navio” já estava com mais elementos de palco e a tal estrutura que o Edu prometeu foi vista por todos. Realmente, é algo de se tirar o chapéu! Enquanto vemos nomes de fora do país vindo tocar com uma lona no fundo do palco escrito o nome da banda e só, o Edu cumpriu tudo o que prometeu. As músicas do “Vera Cruz” ao vivo são animais e o Aquiles é um monstro. Não tem como ficar parado ouvindo ele espancar a bateria, o Barros é muito rápido tocando, mas achei que o Mafra tem mais presença de palco, além de ser muito bom também. O Edu apesar dos backing vocals estarem sempre presentes, o vocal dele foi muito mais parecido com o que ouvimos no estúdio do que na execução do “Rebirth”. E achei isso totalmente compreensível por ser um trabalho recente e o outro ser de 20 anos atrás.”

“Durante algumas músicas tiveram cenas teatrais e entraram alguns atores simulando uma espécie de batalha no navio, principalmente, na introdução de “Crosses” e no pré solo e solo de “Land Ahoy”. Como o Max Cavalera não pôde participar, foram chamados o Marcello Pompeu e a Fernanda Lira para fazer as partes dele, e acredito ter sido uma ótima escolha, Pompeu é querido pela maioria dos headbangers e a Fernanda Lira por mais que tenha seu lado político aflorado, muitos curtem também (inclusive eu). E claro, “Face Of The Storm” é a música que mais gosto do álbum, então, foi realmente muito bom ouví-la ao vivo. Logo depois, em “Rainha do Luar”, entrou a Elba Ramalho. A voz é igualzinha a de estúdio, ela canta demais e foi um dos pontos altos do show (se é que teve um mais alto que o outro). Pra finalizar, mandaram “Spread Your Fire”.”

EDU FALASCHI / ELBA RAMALHO / Reprodução / Facebook

“Já fui a muitos shows, mas tirando os shows que vi do Iron Maiden, eu nunca vi algo parecido, e acredito que até quando sair o DVD, quando eu assistir não vai ser a mesma sensação de quando eu estava lá presenciando tudo. Foi demais o show!”

“Poxa, vocês estão pegando apenas um relato e tomando como verdade absoluta?”

Não! Mas serve como um exemplo perfeito para mostrar o óbvio. Quando se vai a um show com a intenção de aproveitá-lo, detalhes técnicos e polêmicas inúteis não interferem na experiência.

   

Mas quando se vai a um show pré disposto a encontrar defeitos e com a atenção muito mais voltada a achar falhas do que a curtir o momento, certamente, é preciso repensar os motivos que te levam a ir nesse show.

Respondendo ao questionamento proposto: sim! O show do Edu vale à pena, desde que você não espere ver robôs isentos de erro e tenha a consciência que esta é a performance possível, não a ideal.

“Passaram um pano legal pro Edu, hein…”

De jeito nenhum! Se o “Angraverso” é a bagunça que é, o Edu tem muita culpa no cartório e ajudou a fomentar todo esse ambiente hostil. Está apenas colhendo o que plantou.

É simples: toda e qualquer banda que dividir o seu público de alguma forma, seja por brigas internas, posicionamento político, opiniões polêmicas sobre temas sensíveis ou qualquer outra coisa, irá pagar o preço mais cedo ou mais tarde. Boa parte do público Metal hoje em dia está mais interessado em apontar o dedo do que em ouvir música. Uma pena…

Redigido por Fabio Reis
Depoimento Deivid Souza

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Comentários

    • Exato, obrigado por comentar depois de realmente ter lido a matéria, diferente do jumento do “Toca Raul” que tentou adivinhar o que tava escrito e soltou uma pérola de arJumento! Valeu amigo!

  1. Excelente texto! Parabéns! Aqui infelizmente é mais fácil puxar os caras lá do alto pra nivelar por baixo do que ajudar a pavimentar o caminho. Os ‘fãs’ acham que fazem isso, mas não é bem assim…. Quando chega no nível do fanatismo, a coisa complica! Gente chata, que só reclama e que sempre têm a verdade absoluta ao seu lado…. Em todos os lugares… Esportes, política, religião, artes. É triste mesmo. É preciso distinguir quando há esforços como no caso do Falaschi e quando há descaso como no caso do Axl no Rock in Rio, por exemplo.

  2. Bom texto, fiquei é com vontade de ver o show. E tá certo, tem é que reconhecer mesmo que o cara se empenha em entregar um bom show. Tem banda aí que nem com isso se preocupa.

  3. Blablablablabla comparar falaschi com Halford é no mínimo brincadeira. Falaschi tem 50 anos e faz bem uns 15 que tá tomando dinheiro do público cantando uma coisa com autotune no álbum e cagando a execução ao vivo.

    Ray Alder do Fates warning passou por uma transformação gigantesca na voz e ainda sim continua sendo um cantor brilhante, pq hj ele pensa o canto como forma de comunicação interpretativa e não apenas nessas bobagens de ficar se esguelando fora da sua tessitura, como esses vocalistas cafonissimos do datado Power metal.
    Cobrou pelo ingresso tem que executar

  4. Matéria Sensata!
    Parabéns!
    Em tempos de polarização, nada melhor que uma boa dose de racionalidade e respeito!
    Infelizmente, sempre vai existir aquela galera viúva do Max Cavalera, do André Matos, do próprio Edu, do Dio e por aí vai, vida que segue, Meu Povo!
    É preciso dá uma chance para o novo e entender que o tempo passa para todos nós, para o artista e inclusive para você que parou no tempo.

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