Doro: “lutar pelo heavy metal foi muito mais difícil do que lutar para ser uma mulher no gênero. Sempre fui muito bem tratada”

reprodução / Facebook / Doro Pesch

Numa conversa recente com o pessoal do Metal Mayhem ROC, a lendária Doro Pesch, conhecida por muitos como a verdadeira “rainha do metal” da Alemanha, falou sobre algo que sempre ronda sua carreira: o papel que ela teve em abrir caminho para as mulheres dentro do mundo do heavy metal. A entrevista trouxe à tona essa questão sobre como ela se tornou uma das primeiras figuras femininas a conquistar respeito e espaço num cenário dominado por homens:

“É legal. É, quando as pessoas dizem: ‘É, cara, você me inspirou com seu vídeo’, ‘All We Are’ ou algo assim, ou ‘Formamos uma banda porque vimos o vídeo’ ou ‘ouvimos uma música’, isso me deixa muito feliz.

Quando comecei, juro que havia talvez 99% de homens na plateia e talvez um punhado de mulheres, e agora é quase 50-50. Então acho isso ótimo. E tantas cantoras, musicistas e bandas femininas incríveis. É ótimo. Mas quando começamos, eu era a vocalista da banda. Eu nem achava que era diferente. Eu apenas fazia o que amava. Todos sabiam que eu levava aquilo muito a sério. Eu não desistia tão fácil e sempre fui muito bem tratada. Nunca achei que fosse tão diferente ser mulher. Mais tarde, pessoas como jornalistas escreveram alguns artigos [destacando o fato de que eu era] mulher, mas para mim, sou apenas eu mesma. Sou metaleira. Amo música. Adoro fazer os fãs felizes e dar a eles tudo o que tenho e empoderá-los, dar muita energia e cantar com o coração. Então, sim, para mim não era nada especial ser mulher. Eu era apenas uma mulher. Mas eu adorava. Sempre fui muito bem tratada. Quando fazíamos turnê com pessoas como Ronnie James Dio, Motörhead, Judas Priest ou Saxon, seja lá o que for, todo mundo sempre… Super, super legal comigo e muito solidário. E até mesmo esses grandes astros do rock como Gene Simmons … Eu era um grande fã do Kiss quando criança — e ainda sou — e foi tão maravilhoso quando Gene Simmons produziu um dos meus discos. Foi em 89, 90… Era inacreditável que Gene Simmons produzisse um álbum, e ele estava escrevendo muitas músicas para isso. E foi, ‘Uau’. Quer dizer, se você tivesse me dito quando eu ainda estava na escola que eu trabalharia com Gene Simmons do Kiss — meu Deus. Tantas coisas boas aconteceram e eu aprendi muito. Aprendi muito com tantas pessoas. Sou muito grata e quero retribuir a outras bandas, ou a novas bandas, ou a novas musicistas ou bandas femininas. Todo o apoio que recebi, eu sempre retribuo. Quem quiser fazer isso — é um trabalho difícil também, sempre tem altos e baixos, mas é o melhor. É o melhor.”

Uns dez anos atrás, em uma entrevista ao Phoenix New Times perguntaram a Doro se ela se recordava do momento em que percebeu que o cenário do heavy metal estava começando a abrir mais espaço para as mulheres:

“Eu amo música e amei os fãs desde o início. Eu tinha uma grande conexão com a arte e com os fãs. Para mim, no metal, não importa se você é mulher ou homem; música não é sobre isso. Então, nunca senti que recebia feedback ou sentimentos negativos. Eu era apenas Doro. Todos me apoiaram muito, especialmente meus outros músicos ou bandas em turnê, fosse o lendário Judas Priest ou os muito amados e saudosos Ronnie James Dio e W.A.S.P. — simplesmente fizemos tantas turnês excelentes e todos foram muito gentis e respeitosos.

Na indústria, sempre foi legal e eu nunca me senti diferente. Só sei que na mídia e nas revistas, eles escreviam coisas como ‘uma das poucas mulheres do heavy metal’, mas, para mim, honestamente… Acho que as pessoas sabiam que eu era extremamente séria e dedicada, então talvez não questionassem isso.

As pessoas podem ter achado loucura ou algo diferente, uma mulher no heavy metal, mas eu nunca me senti diferente. Acho que era mais, hum, você tinha que lutar mais pela sua música; você tinha que lutar mais para fazer heavy metal. Porque no começo, com o metal, ele era aceito como um todo. Então, você tinha que se esforçar muito, trabalhar 10 vezes mais, para fazer as outras pessoas sentirem que o metal é algo realmente bonito. Então, como metaleira, eu tive mais problemas no começo só com as pessoas aceitando o metal em geral. [Risos] É, é! O metal tem muito poder e alma. É sobre lutar pela sua música; lutar pelo heavy metal. Isso foi muito mais difícil do que lutar para ser uma mulher no gênero.”

Muita gente tenta enquadrá-la como “símbolo de resistência contra o machismo”, mas a própria Doro nunca se colocou nesse papel. Ela sempre destacou respeito, camaradagem e amor genuíno pelo metal, sem necessidade de provar nada a ninguém. Isso torna sua história ainda mais autêntica e inspiradora porque ela abriu caminho pelo talento e dedicação, não pela oposição.

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