Do pior ao melhor: Savatage

Poucas bandas conseguiram construir uma discografia tão rica e diversificada quanto o Savatage. Ao longo de quase duas décadas, o grupo liderado pelos irmãos Jon e Criss Oliva, ao lado do produtor e compositor Paul O’Neill, percorreu um caminho que começou no Heavy Metal tradicional, passou pelo US Power Metal e culminou em algumas das obras mais sofisticadas e emocionantes da história do gênero.
Naturalmente, uma trajetória tão marcante também desperta discussões apaixonadas entre os fãs. Afinal, qual é o melhor disco do Savatage? Existe algum álbum realmente fraco? Em um catálogo tão consistente, a resposta costuma variar de pessoa para pessoa.
Pensando nisso, organizamos a discografia de estúdio da banda do pior ao melhor. Vale lembrar que este ranking representa uma visão editorial do Mundo Metal, levando em consideração não apenas a qualidade musical, mas também o contexto histórico, a importância de cada trabalho para a evolução da banda e o impacto que eles exerceram ao longo dos anos.
Este ranking também foi tema do programa “Do Pior ao Melhor”, exibido no canal do Mundo Metal no último dia 2 de julho. A edição foi comandada pelos apresentadores Fabio Reis e Daniel Dante, que analisaram cada álbum da carreira do Savatage, relembrando curiosidades, discutindo mudanças de formação e justificando a posição de cada trabalho em um dos debates mais completos já realizados pelo canal sobre a banda.
11. Fight For The Rock (1986)

É difícil encontrar um fã do Savatage que coloque Fight For The Rock entre os grandes momentos da carreira da banda. E isso não acontece porque o disco seja tecnicamente ruim, mas porque ele nunca representou aquilo que o grupo realmente queria fazer.
Na época, Jon Oliva escrevia músicas para que a gravadora as oferecesse a outros artistas de seu catálogo. No entanto, a decisão acabou sendo outra: o próprio Savatage foi obrigado a gravar aquele material. O resultado foi um álbum mais comercial, distante da identidade que a banda vinha construindo desde os primeiros trabalhos.
O descontentamento foi tão grande que, durante a própria turnê de divulgação, o grupo passou a retirar várias músicas do repertório. Com o tempo, Fight For The Rock tornou-se o símbolo da maior interferência da gravadora na carreira da banda e um capítulo que os próprios integrantes preferem deixar para trás.
10. Poets And Madmen (2001)

Último álbum de estúdio do Savatage, Poets And Madmen acabou se tornando um dos trabalhos mais injustiçados da carreira. Não por falta de qualidade, mas porque praticamente não teve tempo para conquistar seu espaço entre os fãs.
O disco marcou o retorno de Jon Oliva aos vocais principais desde Streets, trazendo composições inspiradas como “Morphine Child”, “Commissar”, “There In The Silence” e “Man In The Mirror”. O talento da banda permanecia intacto.
O problema foi o momento. Enquanto a Trans-Siberian Orchestra crescia rapidamente, o Savatage deixava de ser prioridade. A turnê aconteceu em casas pequenas e bares, muito abaixo da importância que a banda possuía dentro do Heavy Metal. Esse período gerou grande frustração em Jon Oliva e antecedeu um hiato que acabaria encerrando as atividades do grupo por muitos anos.
9. Dead Winter Dead (1995)

Poucos discos carregam um significado tão ambíguo quanto Dead Winter Dead. Inspirado na Guerra da Bósnia, o álbum apresenta um Savatage ainda mais sofisticado, equilibrando peso, emoção e elementos sinfônicos de maneira brilhante.
No entanto, foi justamente aqui que nasceu “Christmas Eve (Sarajevo 12/24)”, composição que se transformaria em um fenômeno mundial nas mãos da Trans-Siberian Orchestra.
O sucesso desse projeto mudou completamente a trajetória de Paul O’Neill, Jon Oliva e dos demais músicos envolvidos. Aos poucos, a TSO passou a ocupar o centro das atenções, enquanto o Savatage ficava em segundo plano. Por isso, Dead Winter Dead possui um sabor agridoce: é um grande álbum, mas também representa o início do caminho que acabaria afastando a banda de sua atividade principal.
8. Streets: A Rock Opera (1991)

Com Streets, o Savatage decidiu abandonar de vez qualquer expectativa de voltar às raízes mais pesadas. Depois do sucesso artístico de Gutter Ballet, a banda mergulhou de cabeça em uma verdadeira ópera-rock baseada na história de DT Jesus, um astro do rock que perde tudo para os excessos antes de buscar sua redenção.
A obra nasceu de um manuscrito escrito por Paul O’Neill muitos anos antes de conhecer os irmãos Oliva. Originalmente, o projeto havia sido concebido para a Broadway, mas acabou encontrando no Savatage o veículo perfeito para ganhar vida.
Na época, Streets dividiu opiniões. Muitos fãs esperavam um retorno ao Heavy Metal mais direto dos primeiros discos, enquanto a banda optava por uma narrativa ainda mais teatral e sofisticada. Hoje o álbum é reconhecido como uma das grandes óperas-rock do Heavy Metal, mas seu lançamento marcou uma ruptura importante com parte do público.
7. Sirens (1983)

O álbum de estreia do Savatage já mostrava uma banda cheia de personalidade. Mesmo fortemente influenciado pela New Wave Of British Heavy Metal, Sirens apresentava riffs marcantes, composições inspiradas e um talento impressionante dos irmãos Jon e Criss Oliva.
Se o disco não aparece ainda mais acima neste ranking, existem dois motivos bastante claros. O primeiro é a produção, limitada pelo orçamento reduzido da época. O segundo é a decisão de dividir aquele repertório entre Sirens e o EP The Dungeons Are Calling.
Muitas das melhores músicas daquele período ficaram no EP. Caso todo esse material tivesse sido reunido em um único LP, é bastante provável que estivéssemos falando de um dos maiores álbuns de estreia da história do Heavy Metal.
6. Handful Of Rain (1994)

Após a morte de Criss Oliva, muita gente acreditava que o Savatage não conseguiria continuar existindo. Handful Of Rain provou exatamente o contrário.
Transformando o luto em inspiração, Jon Oliva e Paul O’Neill entregaram um álbum profundamente emotivo, impulsionado por músicas como “Chance”, “Handful Of Rain”, “Tauting Cobras” e “Alone You Breathe”.
Mais do que um grande disco, Handful Of Rain representa a reconstrução do Savatage após a maior tragédia de sua história. Talvez por isso carregue uma carga emocional tão intensa, tornando-se um dos trabalhos mais respeitados da discografia.
5. Gutter Ballet (1989)

Se existe um álbum que mudou para sempre a história do Savatage, esse álbum é Gutter Ballet. Até então, a banda já era respeitada dentro da cena americana, mas ainda era vista como um excelente grupo de Heavy Metal tradicional. Foi aqui que Jon Oliva, Criss Oliva e Paul O’Neill decidiram romper definitivamente com qualquer expectativa e apresentar uma identidade que ninguém mais possuía.
A grande novidade foi a entrada definitiva do piano nas composições, algo que, para uma banda de Heavy Metal no final dos anos 80, parecia uma verdadeira heresia. A gravadora chegou a questionar essa escolha, mas Paul O’Neill insistiu que aquele seria justamente o elemento capaz de diferenciar o Savatage das dezenas de bandas que disputavam espaço no mercado. O tempo mostrou que ele estava absolutamente certo.
Existe ainda uma curiosidade fascinante: anos antes de Streets, Paul O’Neill já possuía o roteiro completo da história de DT Jesus, originalmente concebida para a Broadway. Fascinados pelo manuscrito, Jon e Criss Oliva decidiram utilizar parte daquele universo em Gutter Ballet. Tanto a faixa-título quanto “When The Crowds Are Gone” apresentam trechos dessa narrativa, funcionando como uma prévia da ópera-rock que seria lançada dois anos depois.
4. The Wake Of Magellan (1997)

Se existe um disco que melhor representa a maturidade artística do Savatage, esse disco é The Wake Of Magellan. Depois de experimentar formatos conceituais e consolidar uma identidade única ao longo da década, a banda chegou a um ponto em que parecia capaz de fazer exatamente o que quisesse. E o resultado foi um dos trabalhos mais sofisticados e emocionantes de toda a sua carreira.
Inspirado em uma história sobre coragem, sacrifício e redenção, o disco mostra uma banda completamente à vontade para unir Heavy Metal, música sinfônica e narrativa conceitual.
Musicalmente, o Savatage estava em estado de graça. Zak Stevens entrega talvez sua melhor performance em estúdio, enquanto Jon Oliva e Paul O’Neill assinam algumas das composições mais inspiradas da carreira. Faixas como “The Wake Of Magellan”, “Turns To Me”, “Morning Sun” e “Another Way” mostram um equilíbrio impressionante entre peso, emoção e sofisticação, sem perder a identidade construída desde Gutter Ballet.
3. Power Of The Night (1985)

Se Sirens apresentou uma banda extremamente promissora, Power Of The Night mostrou um Savatage pronto para disputar espaço entre os grandes nomes do Heavy Metal americano.
A produção de Max Norman elevou significativamente o nível do grupo, enquanto clássicos como “Power Of The Night”, “Warriors”, “Fountain Of Youth” e “In The Dream” demonstravam uma evolução evidente nas composições.
Além disso, o álbum reúne todas as qualidades de Sirens, mas sem os problemas que impediram o disco de estreia de alcançar voos maiores. A produção é muito superior e, desta vez, o Savatage não precisou dividir seu melhor material com um EP. O resultado é o grande representante da primeira fase da banda e um dos melhores exemplos do US Power Metal dos anos 80.
2. Edge Of Thorns (1993)

Poucos discos conseguem atravessar mudanças tão importantes sem perder a identidade. Edge Of Thorns provou que o coração criativo do Savatage permanecia intacto.
A estreia de Zak Stevens nos vocais trouxe uma nova personalidade à banda, enquanto Jon Oliva continuava exercendo papel fundamental como compositor, tecladista e coprodutor. Ao lado de Paul O’Neill e Criss Oliva, o núcleo criativo permanecia sólido.
A coleção de músicas impressiona até hoje. A faixa-título, “Conversation Piece”, “He Carves His Stone”, “Sleep”, “All That I Bleed” e “Follow Me” fazem parte do melhor repertório já produzido pelo grupo.
Existe ainda um aspecto impossível de ignorar. Este foi o último álbum gravado por Criss Oliva, morto poucos meses depois em um acidente provocado por um motorista embriagado. Saber que estas foram suas últimas gravações torna Edge Of Thorns ainda mais especial, funcionando como o derradeiro registro de um dos maiores guitarristas da história do Heavy Metal.
1. Hall Of The Mountain King (1987)

O primeiro lugar não poderia ser diferente.
Hall Of The Mountain King representa o momento em que todas as qualidades do Savatage finalmente convergiram em um único álbum. Foi o primeiro fruto completo da parceria entre Paul O’Neill e os irmãos Oliva, redefinindo o rumo da banda e estabelecendo as bases para tudo o que viria depois.
A faixa-título tornou-se um verdadeiro hino do Heavy Metal, enquanto músicas como “24 Hours Ago”, “Beyond The Doors Of The Dark”, “Legions”, “White Witch” e “Devastation” mostram um grupo vivendo um momento absolutamente inspirado.
Mais do que um grande disco, Hall Of The Mountain King representa o nascimento definitivo da identidade artística do Savatage. O peso do US Power Metal, a dramaticidade de Jon Oliva, a genialidade de Criss Oliva e a visão criativa de Paul O’Neill finalmente encontraram o equilíbrio perfeito.
Não é apenas o melhor álbum da banda. É também uma das maiores obras da história do Heavy Metal.
E você, concorda?
Montar um ranking da discografia do Savatage nunca será uma tarefa simples. A banda construiu um catálogo extremamente consistente, capaz de justificar diferentes interpretações sobre qual é seu verdadeiro auge.
Agora queremos saber a sua opinião: qual é o melhor álbum do Savatage? Qual disco ficou alto ou baixo demais na nossa lista? Deixe seu ranking nos comentários e participe da discussão.
E para continuar essa verdadeira viagem pela carreira da banda, aproveite também a playlist especial preparada pelo time do Mundo Metal. Reunimos uma seleção escolhida a dedo com algumas das músicas mais marcantes de toda a discografia do Savatage, passando por todas as fases da banda e destacando os momentos que ajudaram a transformá-la em um dos nomes mais importantes da história do Heavy Metal. É o complemento perfeito para esta matéria e uma ótima oportunidade para revisitar — ou descobrir — a genialidade de uma das bandas mais criativas que o metal já produziu.