Death Metal e comportamento: música extrema não significa violência

Ao longo do tempo, a sociedade estigmatizou as bandas de Metal não apenas pelo visual e pelas letras supostamente violentas, mas também pela rebeldia e atitude dentro e fora dos palcos — uma forma de chocar e chamar atenção para sua música mais do que qualquer outra coisa.
Ainda hoje, pessoas “comuns” (fora do universo do rock e do metal) olham com maus olhos para as bandas de metal extremo, principalmente, as de Black Metal. Embora esse preconceito tenha diminuído, não se engane, ele ainda existe.
O mesmo acontecia com bandas de Death Metal como Cannibal Corpse, Autopsy, Bloodbath e muitas outras. Se voltarmos ainda mais no tempo, veremos que até mesmo o próprio Black Sabbath, considerado o pai do Heavy Metal, sofreu bastante com isso.
Até hoje, uma parcela da sociedade vê quem curte ou faz esse estilo de som como amante da violência, por causa das letras que supostamente a incitam.
No entanto, em março de 2019, um estudo focado especificamente no Death Metal, publicado no periódico Open Science da Royal Society britânica mostrou que os fãs do gênero estão longe de serem pessoas insensíveis e obcecadas por violência.
O professor australiano Bill Thompson, responsável pela pesquisa, explicou:
“Os fãs (de death metal) são boa gente. Eles não vão sair por aí machucando pessoas por causa disso.
Muita gente gosta de música triste, e isso é uma espécie de paradoxo – por que desejaríamos ficar tristes?
A mesma lógica pode ser aplicada para músicas agressivas ou a temas violentos. Para nós, é um paradoxo psicológico – então (como cientistas) nos desperta a curiosidade, inclusive porque reconhecemos que a presença da violência na mídia é um tema socialmente importante.”
E como os testes de sensibilidade das pessoas à violência foram feitos?
Eles realizaram um experimento psicológico clássico para analisar respostas subconscientes, aplicando-o neste caso a fãs de Death Metal. Durante os testes, 32 entusiastas do gênero e 48 pessoas que não costumavam ouvir esse tipo de música ouviram Death Metal enquanto observavam imagens bastante perturbadoras.
Yanan Sun, um dos coordenadores do estudo, esclareceu que os pesquisadores queriam avaliar como o cérebro dos participantes reagia às cenas de violência. Além disso, queriam comparar de que forma a música de fundo influenciava a sensibilidade deles.
Para analisar o efeito de diferentes estilos musicais, os pesquisadores também tocaram uma faixa considerada totalmente oposta à música objeto do estudo. As faixas foram “Eaten”, do Bloodbath, que fala sobre canibalismo, e a música “Happy“, de Pharrell Williams.
Enquanto ouviam as músicas, os participantes observavam duas imagens ao mesmo tempo, uma para cada olho. Uma imagem mostrava uma situação violenta, como alguém sendo agredido na rua. Enquanto isso, a outra mostrava algo totalmente inocente, como pessoas caminhando pacificamente pela mesma rua.
“É o que chamamos de rivalidade binocular. Esse teste psicológico tem como base o fato de que a maioria das pessoas, quando estimulada com uma imagem neutra em um olho e uma violenta em outro, se concentra mais na segunda.
O cérebro vai tentar processar (aquela informação) – presumivelmente, existe uma razão biológica para isso, porque seria uma ameaça.
Se os fãs de música violenta estivessem dessensibilizados à violência – que é o que preocupa grupos de pais, de religisosos e de censores, eles não apresentariam o mesmo viés (que os não fãs participantes do estudo).
Mas eles apresentaram exatamente o mesmo viés em relação ao processamento das imagens violentas.”
O atual vocalista do Bloodbath, Nick Holmes, comentou em uma entrevista à BBC na época sobre o resultado da pesquisa que comprovou que os fãs de Death Metal não cultuam a violência:
“Nós não temos nenhuma relação com isso. As letras são uma diversão inofensiva, como o estudo comprovou.
A maioria dos fãs de death metal é formada por pessoas inteligentes, ponderadas, que por acaso têm uma paixão pela música. É o equivalente às pessoas obcecadas por filmes de terror ou mesmo pela reencenação de batalhas.”