Dave Mustaine relembra fase sombria de “Rust In Peace” e revela tentativa de conseguir mais shows com o Iron Maiden

Dave Mustaine voltou a falar sobre um dos períodos mais importantes — e turbulentos — da história do Megadeth. Durante uma entrevista concedida ao VJ da MTV Matt Pinfield antes da apresentação da banda no Grammy Museum, em Los Angeles, o músico relembrou a criação de “Rust In Peace”, sua passagem pela reabilitação e o processo que o levou a abandonar drogas e álcool naquele período.
A conversa aconteceu em 24 de setembro e reuniu Mustaine, James LoMenzo, Dirk Verbeuren e Teemu Mäntysaari, com mediação do ex-VJ da MTV Matt Pinfield. O líder do Megadeth também comentou a atual turnê ao lado do Iron Maiden e revelou, em tom bem-humorado, que tentou usar a paixão de Steve Harris pelo futebol para conseguir mais apresentações conjuntas na América do Sul.
“Rust In Peace foi um período muito sombrio”
Questionado sobre suas lembranças da época de “Rust In Peace”, lançado em 1990, Mustaine não começou falando sobre riffs, solos ou composição.
A primeira palavra foi direta: “reabilitação”.
Segundo o vocalista e guitarrista, o Megadeth sabia que tinha um ótimo disco nas mãos, mas atravessava uma situação pessoal complicada enquanto tentava fazer com que outras pessoas acreditassem na banda com a mesma intensidade que seus integrantes.
Mustaine lembrou que chegou a enfrentar períodos sem moradia fixa e vivendo em um veículo, enquanto o futuro do grupo permanecia incerto.
“Rust In Peace foi um período muito sombrio para nós, mas conseguimos atravessá-lo.”
O músico também afirmou que algumas das músicas daquele álbum acabaram ajudando fãs que enfrentavam dificuldades semelhantes às que ele próprio viveu.
Mustaine: “Aqui está o problema; aqui está a solução”
Para Mustaine, parte dessa identificação acontece porque suas letras e declarações nem sempre permanecem apenas na reclamação.
O músico explicou que procura reconhecer o problema, mas também indicar uma possível saída.
“Gosto de dizer: ‘Aqui está o problema; aqui está a solução.’”
Segundo ele, um momento ruim pode acabar dominando a vida de alguém caso a pessoa permaneça presa àquela experiência: primeiro vira um dia ruim, depois uma semana e assim sucessivamente.
Mustaine relacionou essa mudança de mentalidade ao processo de sobriedade que atravessou durante a produção de “Rust In Peace”.
Naquele momento, segundo ele, parte da própria indústria musical passava por uma mudança na maneira de lidar com álcool e drogas.
O líder do Megadeth citou inclusive o Aerosmith, dizendo que os músicos da banda estavam levando a sobriedade tão a sério que ele os descreveu, de maneira bem-humorada, como uma espécie de “polícia da sobriedade”. Para tocar com eles, segundo Mustaine, era necessário estar sóbrio.
Sobriedade, fé e redescoberta como músico
O processo não envolveu apenas abandonar substâncias.
Mustaine explicou que precisou rever a maneira como enxergava a si próprio, além de buscar uma relação diferente com sua espiritualidade.
Durante aquele período, começou a reconstruir sua relação com Deus, consigo mesmo e até com sua própria identidade como guitarrista.
Para ele, “Rust In Peace” acabou registrando exatamente essa descoberta.
“Foi quando tentei descobrir quem eu realmente era e que tipo de guitarrista eu realmente era. Isso é ‘Rust In Peace’. É quem eu realmente sou.”
O álbum acabaria se tornando um dos trabalhos fundamentais do Thrash Metal, além de marcar a estreia da formação com Marty Friedman e Nick Menza, ao lado de Mustaine e David Ellefson.
Megadeth vive momento incomum em sua despedida
A entrevista também abordou a recepção do álbum autointitulado “Megadeth”, lançado neste ano como o último trabalho de estúdio da banda.
O disco proporcionou um feito que não havia ocorrido em mais de quatro décadas de carreira: o primeiro lugar da Billboard 200 nos Estados Unidos.
James LoMenzo destacou que a banda vem percebendo algo curioso durante os shows da atual fase: ao mesmo tempo em que antigos fãs continuam presentes, uma nova geração passou a aparecer em grande número.
Já Dirk Verbeuren revelou que a decisão de transformar o trabalho no último álbum do Megadeth surgiu quando as gravações já estavam bem avançadas. O baterista afirmou que havia terminado boa parte de suas partes quando soube que o disco encerraria a trajetória de estúdio do grupo.
Teemu estudou mais de 200 músicas do Megadeth
Teemu Mäntysaari também contou um detalhe interessante sobre a preparação do álbum.
Antes das composições avançarem, os integrantes passaram por mais de 200 músicas do catálogo do Megadeth, ouvindo o material ao lado de Mustaine.
Durante essas sessões, Dave contou histórias sobre a origem de riffs, letras e arranjos que nunca haviam sido divulgadas publicamente.
A banda chegou até mesmo a montar uma planilha registrando ideias que poderiam ser recuperadas, músicas interessantes para apresentações acústicas e faixas que poderiam voltar aos shows.
Segundo Mäntysaari, embora eles posteriormente nem tenham consultado novamente a planilha, todo aquele mergulho no catálogo ajudou a construir a identidade do último disco.
Dave Mustaine tentou convencer Steve Harris a marcar mais shows na América do Sul
A parte mais divertida da conversa surgiu quando Mustaine falou sobre a experiência de excursionar com o Iron Maiden.
O músico destacou sua amizade com Steve Harris e Bruce Dickinson, além da proximidade com o empresário Rod Smallwood, a quem chegou a convidar para administrar a carreira do Megadeth em determinado momento.
Com a parceria funcionando bem, Mustaine passou a pensar em uma maneira de conseguir mais datas com o Maiden na América do Sul.
Foi então que lembrou da grande paixão de Steve Harris pelo futebol.
A estratégia foi simples: puxar assunto sobre o esporte.
“Quando fui embora, eu tinha quase certeza de que tínhamos conseguido a turnê — pelo menos na minha cabeça.”
Mustaine não confirmou nenhuma nova apresentação, portanto sua declaração deve ser encarada exatamente como foi feita: uma brincadeira sobre a conversa com Harris, e não como anúncio de novas datas.
Ainda assim, considerando a relação entre as duas bandas e a despedida prolongada do Megadeth, a possibilidade certamente chamaria atenção por aqui.
Enquanto isso, Mustaine parece viver uma fase bastante diferente daquela que cercou “Rust In Peace”: quatro décadas depois, ele revisita os períodos mais difíceis de sua história justamente enquanto o Megadeth encerra sua trajetória de estúdio alcançando um feito comercial que nunca havia conquistado antes.