Dave Lombardo celebra 40 anos de “Reign In Blood” e critica esterilidade do Thrash moderno

Photo: Ekaterina Gorbacheva/Ipecac Records

Quatro décadas depois de participar da gravação de um dos discos mais importantes da história do Thrash Metal, Dave Lombardo continua sentindo fisicamente o impacto de “Reign In Blood”. Em nova entrevista ao Loaded Radio, o ex-baterista do Slayer afirmou que ouvir o álbum ainda provoca calafrios, acelera seus batimentos e desperta a mesma adrenalina que sentia ao executar aquelas músicas no palco.

Lançado em 7 de outubro de 1986, “Reign In Blood” completou 40 anos nesta semana. Questionado pelo apresentador Scott Penfold sobre como enxerga o disco hoje, Lombardo deixou claro que a passagem do tempo não diminuiu seu impacto.

“Ainda me dá calafrios quando escuto esse álbum.”

Segundo o músico, as mãos começam a suar e os batimentos aumentam quando ele ouve aquelas gravações. Isso acontece porque músicas que tocou centenas de vezes continuam acionando memórias ligadas à intensidade das apresentações do Slayer.

“Se eu tiver uma parada cardíaca, toque ‘Angel Of Death’”

Lombardo ainda brincou com a força que músicas como “Angel Of Death” e “Raining Blood” continuam exercendo sobre ele.

O baterista disse que, caso algum dia sofra uma parada cardíaca, bastaria colocar uma dessas faixas para que ele provavelmente se levantasse perguntando o que estava acontecendo.

Por trás da brincadeira existe uma explicação bastante simples: Lombardo associa essas músicas diretamente à descarga de adrenalina que experimentava no palco.

Para ele, o álbum conserva uma energia que não envelheceu. “Reign In Blood” possui apenas 28 minutos e 58 segundos, distribuídos por dez músicas. Produzido por Rick Rubin, foi o primeiro trabalho do Slayer com o produtor e reuniu Tom Araya, Kerry King, Jeff Hanneman e Dave Lombardo naquela que se tornaria uma das formações mais importantes da história do Metal.

Photo: Chris Walter/WireImage

Lombardo critica produção excessivamente esterilizada no Thrash atual

A conversa também avançou para o estado atual do Thrash Metal, e Lombardo fez uma observação interessante sobre as gravações modernas.

O baterista afirmou que continua gostando de Thrash quando encontra material realmente bom, mas acredita que o avanço dos softwares de gravação tornou boa parte das produções excessivamente “estéril”.

Segundo ele, muitos discos antigos possuíam uma espécie de movimento natural entre os músicos, com pequenas diferenças de andamento e uma sensação quase inquieta durante as performances.

Esse comportamento desaparece quando tudo é excessivamente corrigido, alinhado e controlado digitalmente. Para Lombardo, justamente essa imperfeição ajudava discos daquela geração a transmitir agressividade.

“Mais rápido?” Era assim que o Slayer gravava

O baterista explicou que as sessões de “Reign In Blood” ilustram perfeitamente essa diferença. Durante as gravações, os integrantes se incentivavam mutuamente a aumentar a intensidade das músicas. Depois de uma tomada, alguém poderia simplesmente perguntar se deveriam executá-la um pouco mais rápido.

A resposta normalmente era afirmativa. Então vinha a contagem e os quatro atacavam novamente. Lombardo resumiu aquela atmosfera como uma combinação de raiva, angústia e adrenalina.

Essa característica aparece claramente no resultado final. Mesmo nas músicas que não dependem apenas de velocidade, existe uma sensação constante de urgência.

Não por acaso, o disco continua funcionando como referência para diferentes gerações do Thrash e influenciou também músicos ligados ao Death Metal e ao Black Metal.

Photo: drummerzone.com

Dave Lombardo relembra Jeff Hanneman

Outro nome inevitavelmente presente na conversa foi Jeff Hanneman. Lombardo definiu o antigo companheiro como um sujeito engraçado, excelente compositor e, principalmente, um “trailblazer” — alguém que abriu caminhos dentro do gênero.

O baterista destacou que Hanneman era essencialmente autodidata e, mesmo assim, desenvolveu uma linguagem própria que resultou em algumas das músicas mais importantes produzidas pelo Slayer.

Entre elas estão justamente “Angel Of Death” e “Raining Blood”, as duas faixas citadas por Lombardo ao explicar a descarga de adrenalina provocada pelo álbum.

Hanneman morreu em 2013, aos 49 anos.

Um álbum que mudou a trajetória do Metal

“Reign In Blood” também representou uma enorme mudança profissional para o Slayer. A chegada de Rick Rubin retirou parte da reverberação típica das produções metálicas daquele período e colocou bateria, guitarras e baixo muito mais próximos do ouvinte.

Em vez de tentar tornar o som grandioso artificialmente, a produção capturou a violência natural da banda.

O álbum conseguiu entrar na Billboard 200 e posteriormente recebeu certificação de ouro nos Estados Unidos. Com o passar das décadas, passou a aparecer sistematicamente entre os trabalhos mais importantes da história do Metal em diferentes publicações especializadas.

Lombardo já havia classificado o disco anteriormente como uma obra-prima e como uma espécie de representação definitiva do Thrash Metal. Aos 40 anos, sua percepção aparentemente não mudou.

Slayer celebra os 40 anos sem Lombardo

Enquanto Dave Lombardo relembra o álbum, o Slayer atualmente celebra “Reign In Blood” com apresentações especiais nas quais executa o disco integralmente.

A formação atual reúne Tom Araya, Kerry King, Gary Holt e Paul Bostaph, que ocupa a bateria. Lombardo deixou definitivamente o grupo em 2013 e não participa da atual reunião.

Os shows comemorativos seguem durante os próximos meses e incluem apresentações na América Latina antes do encerramento de 2026.

O próprio Dave, entretanto, parece confortável em observar de fora. Talvez porque nenhuma formação atual consiga mudar um fato simples: quando “Reign In Blood” foi registrado em 1986, era Dave Lombardo sentado atrás da bateria enquanto Slayer, Rick Rubin e quatro músicos tocando praticamente no limite criavam aqueles 29 minutos.

Quarenta anos depois, até o homem que gravou aquilo ainda sente o coração acelerar.

Photo: Reprodução
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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