Darkthrone: “Sempre pensamos: ‘Não precisamos de atenção’. Nossa filosofia sempre foi deixar a música falar por si”, diz Nocturno Culto

O vocalista e guitarrista da lendária banda norueguesa de black metal Darkthrone, Nocturno Culto, refletiu sobre os quarenta anos de carreira de uma das bandas de metal extremo mais influentes de todos os tempos. Relebrando a sua entrada no Darkthrone em 1988, ele contou como conheceu Fenriz pela primeira vez. Em uma entrevista recente à Revolver, ele declarou:
“Eu já tinha uma banda antes, com alguns primos. Mas eles não tinham o mesmo tipo de… não quero dizer ‘ambições’, mas eu realmente queria tocar e fazer algo diferente de vez em quando, além de ensaiar. Então, quando surgiu a oportunidade de entrar para a banda, um conhecido me deu o número do Fenriz. Conversamos por uma hora, principalmente sobre música – em especial, Orion, do Metallica. Combinamos de nos encontrar na estação de Kolbotn, e eu perguntei ao Fenriz como encontrá-lo. Ele disse que tinha um corte de cabelo tigela, um rabo de cavalo pendurado na parte de trás e um lenço palestino ou algo assim. Não foi difícil reconhecê-lo, para dizer o mínimo! No início de maio de 1988, fui vê-los tocar em uma competição de rock em um condado vizinho para decidir se queria entrar para a banda ou não, e acabei entrando depois disso.”
Questionado sobre se eles tinham ideia do que queriam fazer enquanto banda, ele respondeu:
“É pelo menos 80% verdade que, quando entrei e começamos a fazer música séria, nossa única ambição era gravar um álbum. Era só isso. Fizemos três demos e, na verdade, recebemos propostas de 10 ou 11 gravadoras. Escolhemos a Peaceville porque eles pareciam os mais sérios e tinham contratado o Autopsy, de quem gostávamos. Depois que assinamos, eles nos mandavam cópias de teste e fitas de divulgação do Autopsy e coisas do tipo. Lembro-me de, em um dos nossos ensaios, receber pelo correio a cópia de teste do primeiro EP do My Dying Bride. Estávamos muito felizes.”
Ele também explicou o porquê escolheu “Nocturno Culto” como nome artístico:
“Eu sou uma pessoa que começa a ganhar vida depois das 23h. Trabalho muito bem à noite – é quando minha mente está mais afiada. E acho que o nome tem alguma origem espanhola, o que é legal. Mas, basicamente, é porque eu gosto da noite.”
Nocturno Culto contou como era entrar na famosa Helvete, conhecida pelos fãs de Black Metal do mundo todo como a loja de discos de Euronymous, do Mayhem, que a inaugurou em 1991:
“É, talvez as pessoas se esqueçam de que era realmente uma loja de discos. O Euronymous alugava o andar inteiro da loja, então era uma espécie de grande loja de discos com poucos discos. Conhecemos pessoas de outras partes da Noruega que frequentavam o local, e foram bons tempos, de verdade. Lembro que alguns meses depois do lançamento de A Blaze In The Northern Sky, eu estava entrando lá, e dois caras estavam lá dentro, com o álbum nas mãos, ouvindo nas caixas de som. Um deles me olhava com uma espécie de admiração. Ele me disse: ‘Você sabe o que fez?’ E eu fiquei tipo: ‘O que você fez?’
Algo tinha acontecido, e eu entendi que era o álbum. Nós conseguimos concretizar aquela visão, e estou feliz que tenha ficado tão bom. Mas demorou pelo menos um ano para eu perceber o impacto que aquele álbum teve, porque não líamos revistas nem nada do tipo. Mas agora eu me dou conta do que fizemos parte e, felizmente, contribuímos com algo valioso.”
Quando perguntado sobre suas memórias dos acontecimentos que colocaram o metal extremo na mídia na Noruega por causa dos crimes cometidos por músicos ligadas à cena, ele disse:
“Bem, eu nasci e cresci em Oslo, e me mudei de lá em dezembro de 1991, antes de tudo isso acontecer, porque eu sabia que algo ia acontecer. Eram tempos um pouco mais, digamos, sérios. Todo mundo era jovem e se envolvia com coisas malucas. Mas aproveitei a primeira oportunidade que tive para sair de lá e me mudei para bem longe de Oslo. Quando vi todas essas coisas nos noticiários, não fiquei surpreso.”
Ele acrescentou:
“Eu poderia escrever um livro enorme, o que não vou fazer, sobre ter estado lá, e é algo que levarei comigo. Aprendi muito sobre muitas coisas. Mas era uma maneira muito sinistra de ver as coisas. Era quase como uma competição para ver quem era o mais extremo. Acho que, para mim e para o Darkthrone, nosso interesse era a música, então, para nós, foi um pouco estranho. Mas, sim, me mudei de Oslo cedo. Gosto de paz e sossego.
Acho que sempre pensamos: ‘Não precisamos de atenção pessoal’. Nossa filosofia sempre foi deixar a música falar por si. Estamos tentando priorizar a música em vez de todas as outras coisas, mesmo tocando ao vivo.”
O entrevistador observou que sempre houve um certo mistério em torno do Darkthrone por causa disso e acrescentou que a banda parou de tocar ao vivo muito cedo:
“No começo, estávamos ansiosos para tocar ao vivo. Acho que pensávamos que era isso que as bandas deveriam fazer. Mas percebi que o Fenriz estava ficando cada vez mais nervoso com isso, e ele não gostava. Fizemos alguns shows, no entanto, na Noruega, na Dinamarca, na Finlândia. O último show que fizemos foi no Rockefeller Music Hall em Oslo, em 1996. Mas estou feliz, porque podemos usar toda a nossa energia para sermos criativos, em vez de ficarmos nos vendo todos os dias e tocando ao vivo.”
Sobre o quão conectado ele se sente com o Black Metal atualmente, ele comentou:
“De alguma forma, me sinto conectado. Sempre fez parte da minha vida. Tudo está mudando aos poucos, mas mesmo assim me sinto parte disso. É como se estivéssemos aqui , sabe, e todas as outras bandas também. Estamos apenas envelhecendo, então alguém precisa assumir o comando. Mas, por enquanto, ainda estamos aqui.”
