Crypta anuncia turnê com o Slaughter To Prevail e recebe cobrança de fãs exigindo coerência política

A banda brasileira de Death Metal Crypta anunciou uma série de apresentações ao lado do grupo russo de Deathcore Slaughter To Prevail durante a turnê europeia e britânica programada para julho e agosto de 2026. O giro, chamado Summer Tour 2026, também contará com participações das bandas Vended e Chained Saint em datas selecionadas, ampliando o alcance do circuito de shows de metal extremo no continente.

A agenda inclui apresentações em diversas cidades da Europa e do Reino Unido, passando por países como Polônia, Áustria, Grécia, Bulgária, Alemanha e Reino Unido. Entre os locais confirmados estão casas tradicionais como Progresja, em Varsóvia, Gasometer, em Viena, e O2 Academy, em Bristol. Para a Crypta, a turnê representa uma oportunidade de expandir sua presença internacional e alcançar novos públicos.

No entanto, a confirmação dessas datas não passou despercebida pelos fãs. Logo após o anúncio, a parceria entre Crypta e Slaughter To Prevail começou a gerar discussões acirradas nas redes sociais e fóruns especializados em Metal.

Reação do público divide a cena metal

Parte do público reagiu de forma crítica à decisão da Crypta de dividir o palco com o Slaughter To Prevail. As críticas se concentram principalmente nas polêmicas envolvendo Alex Terrible, vocalista da banda russa. O histórico do músico inclui episódios controversos relacionados a simbologia nazista e declarações polêmicas das mais diversas.

Entre os pontos mais discutidos estão antigas tatuagens do chamado “Sol Negro” (Sonnenrad) e da runa Othala, símbolos historicamente apropriados por grupos nazistas. Alex Terrible chegou a cobrir uma dessas tatuagens posteriormente e afirmou que a fez ainda jovem por interesse em paganismo e esoterismo, classificando a decisão como um erro. Mesmo assim, imagens antigas do vocalista usando um capacete da SS e segurando um fuzil continuaram circulando na internet e alimentando novas críticas.

Além disso, declarações públicas do músico também provocaram reações negativas. Um vídeo publicado em 2023 com o título “Four rules of real men” foi interpretado por muitos usuários com ideologia progressista como homofóbico e transfóbico. Em outras ocasiões, Alex Terrible afirmou que votaria em Donald Trump caso tivesse direito a voto nos Estados Unidos. A alegação é acreditar que o político poderia resolver rapidamente o conflito entre Rússia e Ucrânia.

Diante desse histórico, parte do público passou a questionar se tais controvérsias não seriam o suficiente para que uma banda com as convicções — ao menos aparentes — da Crypta, não aceite turnês conjuntas ou sequer dividir o mesmo palco.

Defesa apaixonada e silêncio da banda

Por outro lado, muitos fãs saíram em defesa da Crypta, argumentando que dividir o palco com outras bandas faz parte da dinâmica natural do circuito de festivais e turnês internacionais. Segundo esse grupo, participar de um mesmo evento não significa necessariamente concordar com opiniões políticas ou posicionamentos pessoais de outros músicos.

Esse tipo de reação também revela um comportamento recorrente dentro da cultura do Metal: independentemente da natureza das críticas — sejam elas consideradas justas ou não — sempre existe uma parcela do público disposta a minimizar. É a famosa defesa de forma apaixonada, muitas vezes relativizando controvérsias “em nome da música” ou da fidelidade à banda.

O debate ganha ainda mais intensidade quando se observa o histórico político de Fernanda Lira, vocalista e baixista da Crypta. Conhecida por sua militância ativa em pautas progressistas, a musicista frequentemente utiliza sua plataforma para defender direitos humanos, feminismo, consciência de classe, anti-racismo, veganismo e resistência a governos de extrema-direita.

Ao longo dos últimos anos, Fernanda Lira também criticou abertamente discursos conservadores e reforçou a importância de posicionamentos políticos dentro da música. Para ela, o Heavy Metal nunca foi um espaço neutro, mas sim um ambiente historicamente conectado a manifestações culturais e sociais.

Justamente por esse histórico, a decisão de excursionar ao lado do Slaughter To Prevail gerou questionamentos adicionais entre alguns fãs. Até o momento, a Crypta não apresentou um posicionamento público detalhado e sequer postou em seu Instagram o flyer da turnê, limitando-se a respostas pontuais nas redes sociais.

Quanto custa a militância?

Esse silêncio acaba levantando perguntas inevitáveis dentro da própria cena: até onde vai a militância política quando ela encontra os limites da indústria musical? Se uma banda brasileira de menor expressão tivesse o mesmo histórico controverso do Slaughter To Prevail, ela teria espaço para dividir o palco com a Crypta ou neste caso o ativismo político iria se fazer presente?

Da mesma forma, surge outra dúvida incômoda para parte do público: um músico brasileiro com posicionamentos semelhantes aos de Alex Terrible seria aceito dentro do networking e das relações pessoais da banda? Ou a tolerância se torna maior quando envolve artistas internacionais que lidam com grandes cifras?

No fim das contas, o episódio levanta uma discussão mais ampla sobre coerência, pragmatismo e sobrevivência dentro do mercado musical. Tocar ao lado de uma banda grande em âmbito global vale mais do que convicções ideológicas? E, no caso da Crypta, até onde o discurso político de Fernanda Lira representa um compromisso real — e até onde permanece apenas no campo das palavras, podendo ser deixado de lado dependendo da ocasião?

Foto meramente ilustrativa
Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
2 comentários
  • É óbvio que o dinheiro e a carreira falam mais alto. Ideologia só serve pra pagar de virtuoso na rede social, é marketing puro. Também é muito óbvio que ela não vai encarar as consequências do que ela defende e faz o L gostoso. Papo de maluco se importar com isso daí. Pessoal vai atrás do Mayhem por treta de 1980, mas lota o show do Dimmu Borgir e do Motorhead. É só um bando de velho chato e adolescente bitolado por ideologia. Forti abraço meus lindos

  • Eu consigo separar o vocalista da pessoa fora da banda. Se o Alex cometeu esse erro de fazer uma tatuagem merda na época de adolescente, não há mal algum em se reestruturar agora. Eu particularmente gosto muito do som dele e não vou deixar de ouvir por boatos e fake news de gente que sempre só quer cancelar os outros. O dia que vazar alguma coisa dele realmente fazendo mal a alguém, aí sim eu paro de seguir.

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