Cova Rasa (Live Review): pocket show com cara de evento grande!

Imagine-se dentro de algo feito de madeira, cercado por terra úmida e gelada bem ao anoitecer. Por incrível que pareça, você não se sente sufocado ou desesperado. Muito pelo contrário: ganha confiança e se sente cada vez mais esperançoso de que conseguirá sair daquele casulo. Em determinado momento, percebe que esse “casulo” nada mais é do que um caixão, e que ele possui frestas minúsculas, permitindo que você ouça passos se aproximando, acompanhados por uma trilha sonora ao fundo.
Você fica apreensivo, de certa forma, mas não perde o fôlego nem a atenção. A fixação na música aumenta e você começa a entender um pouco daquele cenário. De repente, surge o som de terra sendo retirada. O brilho da lua cheia atravessa as frestas do caixão e, em instantes, a tampa é aberta.
Diante de você, cinco silhuetas seguram tochas acesas. Uma delas estende a mão, e você prontamente corresponde, sendo puxado para fora. Os capuzes caem e um dos integrantes apresenta a grande novidade do momento: o Cova Rasa!
Uma Cova Rasa com profundidade sonora
Para quem ainda não conhece o brilhantismo da banda, vale uma breve apresentação.
O Cova Rasa percorre as trilhas tradicionais do Heavy Metal, adicionando um tempero exclusivo e equilibrado de outras vertentes igualmente poderosas. A banda foi formada em meados de 2016 pelo guitarrista Jayme Danko e pelo tecladista Collins Freitas.
A temática é voltada ao terror, passando por lendas urbanas, serial killers, assombrações e contos de horror. As músicas apresentam histórias muitas vezes macabras ou perturbadoras, narradas do início ao fim.
O grupo já possui sua primeira trinca de álbuns de estúdio: o debut “Deadline” (2018), seguido por “Cruzando Infernos” (2020) e culminando no atual registro, “Another Time”, lançado agora em 2025.
Aperitivo de respeito para as próximas apresentações
Bandas costumam realizar os chamados pocket shows com o objetivo de testar a força de seus sets, ajustar posicionamentos de palco, revisar detalhes e experimentar um pouco do que poderá surgir em um show completo. É um recurso importante e, apesar de mais enxuto, funciona como um excelente termômetro tanto para a banda quanto para o público presente.
O Cova Rasa abriu o show do Hammerfall e também fará parte do cast da apresentação do Rhapsody of Fire. A primeira performance ocorreu em 8 de novembro (sábado), e a próxima será no dia 14 de dezembro, no já tradicional Carioca Club.
Para quem já acompanha o som do Cova Rasa, a ligação com o Hammerfall é mais evidente do que com o Rhapsody of Fire. Ainda assim, os teclados marcantes nas composições da banda paulistana podem agradar aos fãs da banda italiana. Mas isso são apenas detalhes. O momento para conquistar novos admiradores é muito propício, afinal, serão duas apresentações de grande importância. E com uma delas já realizada até a entrega deste manuscrito musical.
Um ensaio com alma de show
Geovani Vieira, nosso querido Gigio, e eu — o dono deste nanquim virtual — estivemos presentes para acompanhar in loco esse verdadeiro treino futebolístico sonoro do Cova Rasa. Segundo Gigio, não faltou empolgação do público e da imprensa. Aqui, ele assumiu a pena mágica da escrita metálica.
Se você pensa que apenas grandes festivais são palco para o famoso “Olê, olê, olê, olá”, está redondamente enganado. Em determinado momento, a plateia (!) entoou o coro com entusiasmo, para o delírio dos músicos, que ficaram visivelmente surpresos e sorriram para o público.
A versão dedicada ao Cova Rasa foi a seguinte:
“Olê, olê, olê, olá…
Covaaa, Covaaa!”
Além disso, alguns mais ousados gritaram “Lindos!” ao final de algumas músicas, deixando o autocontrole de lado e abraçando a total falta de vergonha.
Recado dado sobre algumas curiosidades do show, retomo aqui a pena mágica.
Jornada curta, porém qualificada
O Cova Rasa entendeu desde o princípio que aquele seria um ótimo termômetro para medir sua própria força e planejar os próximos passos. É claro que o pocket show não se resume apenas a isso, e a banda soube usar todos os elementos a seu favor.
Quem esteve presente aproveitou do início ao fim a breve jornada sonora — curta, sim, mas extremamente satisfatória e com um olhar otimista para o futuro. A banda investe em algo mais longevo, com objetivos claros, especialmente no planejamento estratégico dos locais onde deseja consolidar seu nome.
Sete músicas do novo álbum, “Another Time”, foram selecionadas para a apresentação. A experiência se tornou ainda mais interessante porque não seguiram a ordem do tracklist oficial, demonstrando a força individual de cada faixa. Não acredita? Então continue seguindo o meu nanquim virtual.
Músicas de alto calibre que funcionam no estúdio e ao vivo
A apresentação começou com “The Red Mansion”, seguida de “Borley Rectory”, exatamente como no álbum. Um início poderoso, cheio de energia e com um Heavy Metal tradicional revigorado e empolgante. Portanto, manter essa ordem foi uma escolha ideal.
“Heartbreakers Hunter” veio em seguida, ocupando a terceira posição em vez de “King of Ghouls”, como ocorre no disco. E funcionou muito bem nessa configuração, embora seja a sétima faixa do álbum.
Depois, “Reapers’s Rival” — a sexta do disco — veio logo na sequência, invertendo sua posição original, mas igualmente com impacto positivo.
“King of Ghouls”, que no álbum é a terceira, apareceu no pocket show como a quinta música, abrindo espaço para aquela que já desponta como a carro-chefe do novo trabalho. Mas ela não entrou de forma convencional.
Essa faixa foi introduzida com um comentário bem-humorado sobre sua temática. Uma ideia que, inclusive, destaquei recentemente em entrevista para o nosso canal no YouTube. Essa abordagem pode render muito bem em apresentações com maior tempo de palco.
Estamos falando de “Dr. Death”, música que ocupa o centro do álbum e garante força extra para manter a qualidade até o fim.
E, para fechar, o Cova Rasa escolheu “Black Shadow”, quarta faixa do disco. Resultado: sensacional! Deixando a nítida sensação de que o pocket show merecia ser maior e completo. Foi uma ótima experiência acompanhar um ensaio ao vivo com uma banda se comportando como se estivesse em um grande palco.
Considerações rasas finais
A naturalidade com que o Cova Rasa se apresentou nesse “treinamento” para as duas importantes apresentações já mencionadas mostra que a banda tem plenas condições de alçar voos cada vez maiores. E fica aqui nossa torcida para que isso aconteça, pois o Heavy Metal brasileiro merece que mais bandas alcancem seu devido espaço. Especialmente quando demonstram tanto empenho e qualidade, tanto ao vivo quanto em material físico.
Que “rasa” seja apenas a cova, e que o horizonte seja profundo em conquistas!
Integrantes:
- Caio Caruso (baixo)
- Theo Machado (bateria)
- Collins Freitas (teclado)
- Ivan Martins (vocal)
- Jayme Danko (guitarra)
Setlist do pocket show
1. The Red Mansion
2. Borley Rectory
3. Heartbreakers Hunter
4. Reapers’s Rival
5. King of Ghouls
6. Dr. Death
7. Black Shadow