Confess: “Ser headbanger no Irã era bem solitário. Você realmente não é desejado pelo governo”, diz Nikan Khosravi

Confess: "Ser headbanger no Irã era bem solitário. Você não é realmente desejado pelo governo", diz Nikan Khosravi
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Em janeiro de 2025, a banda iraniana de Groove/Thrash Metal, Confess, lançou seu novo álbum “Destination Addiction”. A banda ficou marcada pela prisão arbitrária dos seus dois membros Nikan Khosravi e Arash Ilkhani, em 2015, por tocarem metal e por causa das letras de suas músicas que criticam a religião e o regime dos aiatolás.

Eles pagaram a fiança que só foi aceita em 2016 e depois fugiram para a Turquia. De lá, eles partiram para a Noruega onde receberam asilo e residem até hoje.

Recentemente, Nikan Khosravi, vocalista do Confess, conversou com a Metal Hammer e contou como era ser um headbanger no Irã:

“Ser headbanger no Irã era bem solitário. Você realmente não é desejado pelo governo, e as pessoas não sabem exatamente o que você é. Você gosta de música muito alta e agressiva, e eles não entendem.”

Nikan explicou que manter-se conectado com pessoas que também eram fãs de Metal era algo muito difícil:

“No Irã, tínhamos, tipo, dois estilos de vida diferentes. Um era com os amigos e as pessoas que estavam nas redes sociais, e o outro era o exterior. Você tinha que seguir a agenda e as leis. Não era fácil se conectar com outras pessoas [que gostavam do que você gostava], mas você ainda sabia que não era o único. No ensino médio e depois na universidade, eu estava crescendo e conseguia ver, tipo, ‘OK, tem gente por aí interessada nas mesmas coisas que eu.'”

A banda nunca conseguiu realizar um show ao vivo em seu país natal. Mesmo as bandas que conseguiam licença se submetendo à exigências como mudar as letras das músicas e outras coisas, corriam o risco de terem os shows interrompidos e muitas pessoas acabavam detidas:

“O Confess nunca tocou ao vivo no Irã. Era preciso obter licenças, e nós éramos contra isso – você tinha que se autocensurar e reduzir a qualidade da sua apresentação. É como um lobo: tire os dentes e ele não tem nada. Além disso, em muitos casos, quer tivessem licença ou fossem completamente clandestinos, os shows eram interrompidos no meio do show. As pessoas eram presas ou pelo menos levadas para a delegacia por algumas horas. Era desanimador.”

Apesar de tudo, eles não desistiram de continuar fazendo o que mais amam: Metal!

“Confess nunca parou. Minha personalidade e mentalidade na época eram do tipo: ‘Esta é a minha jornada pessoal e esta é a minha voz’. Senti, desde o início, que esta é a minha maneira de falar com as pessoas. É um pouco como escrever uma carta, colocá-la numa garrafa e simplesmente jogá-la lá fora, esperando que alguém a leia e entenda. Acho que a minha curiosidade superou o meu medo de alguma forma. A ideia de me submeter às regras que me foram impostas não era algo com que eu conseguiria conviver.”

Nikan falou sobre o sentimento de estar sob vigilância constante e, relembrou momentos tensos de 2015:

“Em 2014, senti como se meu telefone tivesse sido grampeado. Toda vez que eu falava, ouvia um clique ao fundo. No início de 2015, tive a experiência de ser perseguido por alguém na rua. Depois de algumas horas, eu ainda conseguia ver essa pessoa me perseguindo. Eu estava com minha namorada, confrontei esse cara, e ele agiu de forma meio louca e foi embora. Naquele momento, pensei: ‘Algo está prestes a acontecer.’

Eu sabia que estava sendo vigiado, mas continuei fazendo música porque era corajoso demais… ou burro demais. Não sei! Eu tinha um objetivo, sabia o que queria fazer e não importava quem estivesse na minha frente. Não teria mudado nada. Um dos meus interrogadores na prisão de Evin me disse que eles vinham construindo um caso contra mim há um ano e meio. Isso significa que tudo começou em 2013.”

Nikan falou sobre o momento de sua prisão:

“Quando fui preso, minha mãe estava em casa. Eram 8 ou 9 da manhã, alguém tocou a campainha e ela desceu. Ela veio ao meu quarto e seu rosto estava completamente mudado. Saí da cama e vi 10 pessoas na sala. Foi surreal! Eles confiscaram meu computador, instrumentos, livros, tudo. Levou duas ou três horas, mas eu cooperei. Eu pensei: ‘Não tenho nada a temer, sou apenas um músico’. Perguntei: ‘Devo ir a algum lugar com vocês?’ Um deles disse: ‘Por alguns minutos, precisamos ir a algum lugar.’ Minha mãe perguntou: ‘Para onde vocês estão levando meu filho?’, e eles responderam: ‘Para a prisão de Evin’. Foi nesse momento que eu pensei: ‘OK, isso é algo muito maior [do que eu imaginava]’.”

A experiência de ser confinado em uma solitária marcou Nikan para sempre:

“Eu ficava em confinamento solitário por 23 horas por dia. Você tem meia hora para tomar uma xícara de chá pela manhã, com os olhos vendados. Eles te vendam o tempo todo em que você não está na solitária. Se você cooperar, pode ter mais meia hora por volta do pôr do sol, logo antes do jantar.

A solidão marca você. Você nunca mais será a mesma pessoa. Eu nunca fui torturado fisicamente, mas isso tortura a sua alma. Você vive dia após dia com medo e incerteza. Um cara me contou que simularam a execução dele três vezes. Tiraram-no, colocaram uma corda em seu pescoço e o deixaram em pé em uma cadeira por 45 minutos. Voltavam e diziam: ‘Faremos isso em outra hora.’”

Arash e Nikan tiveram que pagar uma fiança de aproximadamente US$ 40.000 cada um. Ele procurou a justiça e acabou recebendo uma sentença de seis anos:

“Minha fiança foi de cerca de US$ 40.000, e mais US$ 40.000 para o meu colega de banda. Meus pais deram a casa deles como garantia para pagar a fiança, mas a prisão não aceitava. Eles ficavam dizendo: ‘O promotor está em reunião’, ‘Ele não está aqui hoje’, ‘Ele está de férias’. Tanto faz! Eles continuavam adiando, e o motivo era que queriam destruir sua personalidade, sua mentalidade, sua família. Tudo o que você tem está em jogo. Foi um período muito difícil e sombrio.

Por volta de dezembro [de 2016], soubemos que a fiança havia sido aceita. Quando estávamos saindo da prisão, o interrogador veio até a porta e disse: ‘Só queria te dizer: não conte a ninguém [sobre sua experiência] se não quiser que seu caso piore.’ Assim que saí, olhei para trás, para aquela entrada enorme, e pensei: ‘Nunca mais vou voltar.’

Fui à Justiça e me deram uma sentença de seis anos. Minha família disse: ‘Você tem que ir embora’. Fui contrabandeado para a Turquia, porque meu passaporte foi confiscado e eu estava proibido de viajar. Basicamente, morei lá sozinho por 15, 16 meses e, durante esse tempo, a ICORN [Rede Internacional de Cidades de Refúgio] e a Freemuse, essas organizações que trabalham com artistas perseguidos para levá-los a algum lugar seguro, entraram em contato. Por meio desse processo, recebi um convite para ir à Noruega.

Sobre seu amigo e parceiro de banda, Arash, que também passou por tudo isso, ele declarou:

“Arash [Ilkani] compartilhou minha experiência e se sacrificou como eu para poder perseguir seus sonhos. Estar na Noruega com ele tem tanto valor que não consigo estimar. Todo mundo tem aquele amigo com quem às vezes você nem precisa falar, só precisa olhar para ele. Isso me ajudou muito na prisão, depois da prisão, depois do Irã. Me ajudou a lidar com muitos dos meus pensamentos e a seguir em frente. Você não se sente completamente sozinho, porque pode olhar para o outro lado e ver alguém que passou pela mesma coisa, mesmo que não falemos muito sobre isso.”

Confira a matéria do Além do Metal Clássico sobre o Heavy Metal no Irã: https://www.mundometalbr.com/ouvir-heavy-metal-no-ira-pode-te-levar-a-prisao/

Nikan Khosravi / Photo: Effi Galiatsatou
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