Como o Drácula de Bram Stoker deixou sua marca no metal

Desde que Bram Stoker publicou Drácula em 1897, esse vampiro elegante, imortal e belo-maligno serviu de inspiração não só para o cinema ou a literatura, mas também para o metal, aquele feeling sombrio, teatral, às vezes até melodramático, que combina feito luva com o mito do Conde. O personagem atravessou séculos, estilos e linguagens, sempre se reinventando conforme a época: ora como símbolo de desejo e poder, ora como metáfora da corrupção e da decadência humana.

E no metal, essa figura encontrou o lar perfeito. Afinal, poucas coisas dialogam tão bem com guitarras densas e atmosferas góticas quanto a solidão e a fome eterna de um ser condenado à noite. Há também músicas e discos com referência à “Nosferatu”, a célebre adaptação não autorizada de “Drácula” para o cinema com algumas alterações. Nosferatu e Drácula são duas faces do mesmo arquétipo. No final da matéria, isso será explicado melhor.

“Você acredita em destino? Que até os poderes do tempo podem ser alterados para um propósito? Que o homem mais sortudo deste mundo é aquele que encontra o amor verdadeiro?” Conde Drácula.

Álbuns que recontam a saga de Drácula

Helstar: “Nosferatu” (1989)

Um exemplo clássico. As primeiras faixas do álbum seguem de perto a narrativa do romance de Stoker, incorporando samples do filme “Drácula” (John Badham, adaptação de Bram Stoker) e desenvolvendo a atmosfera vampírica conforme avançam as faixas.

“In silence they gathered around the great box, a creaking sound as the lid was removed…”

Jørn Lande & Trond Holter: “Dracula – Swing of Death” (2015)

Opera-rock que adapta diretamente o enredo de Drácula. Tem toda a vibe teatral: vozes dramáticas, coros, momentos climáticos. Interpretar Drácula ao vivo nesse tipo de setting dá um peso extra.

“Adicionamos alguns elementos extras, pois há lacunas temporais no livro de Bram Stoker que poderiam convidar a uma certa liberdade artística. Pode-se dizer que adicionamos algumas páginas à história, mas ainda nos mantivemos fiéis ao original.”

“You can’t run, no you can’t hide
The doors are all closed, now you won’t survive
But on the other hand you get to join your man
infections guaranteed
Well I brought you here from the streets of mud
I don’t need much honey, just a drop of blood
Release your life from misery, I bring you death and insanity”

Ode Insone: “Drácula” EP (2023)

Essa é brasileira, doom/gothic metal, recente. O EP tem quatro músicas originais, inspiradas no conto de Bram Stoker. A banda explora temas como imortalidade, solidão, amor sombrio; mais do que monstros, há um clima emocional forte.

“Eu sou o Drácula!
O príncipe dragão
Eu sou o Drácula!
Te entrego o meu coração
Eu sou o Drácula!
O sangue na escuridão
Eu sou o Drácula!
Tua voz me leva
Sigo tua luz
É você quem me conduz
Através das trevas
O amor é sempre mais forte
do que a própria morte!”

O Iced Earth tem uma das músicas mais famosas no metal sobre o ícônico personagem. “Dracula” é uma das faixas mais memoráveis do clássico álbum “Horror Show”, de 2001:

“Is this my reward for serving God’s own war?
The blood I’ve spilled for faith fulfilled
To damn her, a disgrace, you spit back in my face
I served you loyally, and you spew blasphemy
I avenge with darkness, the blood is the life
The Order of the Dragon, I feed on human life.”

O álbum mais recente do Cradle Of Filth, “The Screaming of the Valkyries” (2025), apresentou a faixa “Ex Sanguine Draculae”, remetendo diretamente ao personagem ou à linhagem vampírica.

“I walk these jagged battlements
That call to foreign shores
Majestic in death
I grieve no stolen breath
Just whet eternal appetites
With the squirming
Of all life-affirming flesh”

Do álbum de estreia da banda sueca Bloodbound, e cujo título já entrega tudo, “Nosferatu”, eu trouxe a faixa-título com seu refrão épico e riffs cortantes que é uma das músicas mais legais e viciantes sobre o assunto:

“Can I believe what I saw in the night
Can I believe I was right
The face of a demon with eyes turning black
Nosferatu
Can I believe what I saw in the night
Can I believe I was right
Candles were burning the ritual was on
Nosferatu”

Uma combinação perfeita!

Enfim, são muitas as músicas que foram inspiradas por um dos personagens mais célebres da história. O Conde continua eternizado também através do metal. Aliás, Drácula é, no fundo, a própria essência do metal — imortal, rebelde, e sempre sedento por mais um pouco de sangue fresco.

Drácula e Nosferatu: a mesma história

O que aconteceu é que o filme “Nosferatu” (1922), dirigido por F. W. Murnau, é basicamente uma adaptação não autorizada do livro “Drácula” (1897) de Bram Stoker. Como Murnau não conseguiu os direitos do romance, ele precisou fazer algumas alterações para tentar “driblar” a lei.

Nome do personagem principal: Drácula virou Conde Orlok. Fisicamente muita coisa mudou. Conde Orlok possui características bem distintas do Conde Drácula.

Localização: O cenário mudou um pouco, da Transilvânia para lugares genéricos na Alemanha.

Detalhes da história: Algumas mudanças foram feitas para se distanciar do livro, mas a essência, um vampiro que aterroriza pessoas e se alimenta de sangue — permaneceu.

Mesmo assim, a história continuava claramente inspirada em “Drácula”, e a viúva de Bram Stoker, Florence Stoker, percebeu que se tratava de uma cópia disfarçada. Ela entrou na justiça e ganhou o processo. O resultado é que as cópias do filme foram retiradas do mercado, embora algumas tenham sobrevivido e permitido que o filme se tornasse um clássico do cinema expressionista.

Ou seja, “Drácula” e “Nosferatu” são “a mesma história”, só que “Nosferatu” é uma versão cinematográfica alterada para escapar dos direitos autorais, mas não suficientemente diferente para não ser reconhecida como plágio.

Há algumas discussões interessantes e divertidas no reddit sobre essa questão.

Deixe seu comentário
Sair da versão mobile