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Clássicos: Korzus – “Mass Illusion” (1991)

Gravadora: Devil Discos

O Heavy Metal é em sua essência um estilo musical, que foge dos padrões mundanos, sempre questionando tudo, incomodando os acomodados e alarmando os mais ortodoxos, em se tratando dos costumes da sociedade em si. E por ser um estilo que lida com diversos questionamentos, sempre se mantendo inquieto, é óbvio que cedo ou tarde atravessaria diversas fronteiras e conquistaria cada vez mais adeptos ao redor do globo terrestre. Hoje em dia conseguimos conferir trabalhos de bandas de países que não eram tão comuns quando o assunto é tocar Metal, e dentre esses países, muitos foram formados na virada da década de 90. E outros, mais recentemente, como o caso da Sérvia (Iugoslávia em décadas passadas, Sérvia e Montenegro até poucos anos atrás) e da agora chamada Chéquia (ainda prefiro República Tcheca), só para citar alguns exemplos. E esses dois países eram maiores antes da dissolução, que nos presenteou com novos países como Croácia e Eslováquia para deixar um pouco mais geográfico o parágrafo. Voltando para o final da sagrada década de 80, mais precisamente da metade para o fim dela, outros países começaram a fazer parte do leque de grandes novidades dessa vertente que tanto amamos, como os países da América do Sul. E já bem situado, podemos tirar a bandeirinha do Brasil do bolso e agitar com alegria, pois nesse quesito nosso país é bem forte. Desestruturado, mas bem forte. Lembre-se que estamos falando da segunda metade da década de 80. Afinal, hoje a história mudou um pouco.

   

Bandas como Overdose, Sepultura, Chakal, Holocausto, Sarcófago, Harppia, Volkana, entre outras grandes bandas nacionais foram surgindo, e junto a essa leva também tinham os paulistanos do Korzus, que davam o ar da graça no saudoso split “SP Metal 2”, de 1985, que contava também com as bandas Santuário, Abutres e Performances. Mais tarde após o live “Ao Vivo” (1986), já em 1987 a banda fortaleceu a sua marca com o debut repleto de mistérios e relatos macabros, o aclamado pelo pessoal do bueiro, “Sonho Maníaco”. Em 1988 foi a vez do lançamento da demo tape “Born To Kill”, e no ano seguinte o EP “Pay For Your Lies”. A partir da demo, eles passaram a trabalhar com letras em inglês, tendo aquela antiga e boa ideia de conquistar uma fatia do mercado estrangeiro. O marco definitivo para a banda veio em 1991, com o lançamento de “Mass Illusion” via Devil Discos, que também foi o selo do EP e fez com que o Korzus pudesse realizar inúmeros shows e de onde saiu o primeiro videoclipe, para a clássica música “Agony”. Em abril de 1992, ocorreu a primeira turnê internacional, chamada de “Mass Illusion European Tour 92”, com datas na França, Itália, Inglaterra e Alemanha. Apesar da ótima receptividade e mais shows no Brasil, em 1993, o baterista “Betão” foi substituído por Ricardo Confessori (Angra, Shaman e Garcia & Garcia), que ficou até o final do ano e cedeu o posto para Fernando Schaefer, o “Fernandão”, na mesma época em que Nicastro deixou a banda. Mesmo com diversas mudanças e vários “corres” para manter a banda firme e forte no caminho certo, a mesma conseguiu tornar seu nome relevante no cenário nacional e internacional.

A abertura sinistra de Mass Illusion é representada pela faixa que é tida como uma das melhores músicas já feitas pelo Korzus em toda a sua carreira. Se você está atento à leitura, sabe que estou falando da própria “Agony”, que além de ser uma faixa animal, a qual reúne elementos de Kreator e Slayer em seus momentos mais sujos e agressivos, também para completar a destruição sonora toda, possui um videoclipe daqueles de sintonizar a TV no bar e fazer aquele mosh histórico. Sinta-se sufocado e morto por dentro, preso na própria garganta do inferno e sofrendo dia a dia sem que possa escapar das forças negras. Não se sabe se é o fim ou um sonho, mas você tenta sair de lá já enfeitiçado e com sede de sangue. A agonia impera neste plano em que mentes de palha cruzam os caminhos com pensamentos hostis do tipo que faz o homem se corromper com facilidade. Os riffs velozes do trio de cordas, apoiados pelos pedais insanos de Sileci mostram como se faz um Thrash Metal de qualidade única. Isso sem contar os solos que se estendem e tornam a faixa em um esplendor do mundo inferior! “Victim Of Progress” é outra canção que se ficar fora do set de algum show do Korzus, o público da velha guarda enche os pulmões e grita para que a banda toque ela. O álbum em si segue uma linha muito padronizada dentro do próprio disco, sem que haja qualquer nuance mais exagerada, e além do mais, suas influências ainda não estavam tendendo para qualquer tipo de experimentalismo em detrimento do próprio mercado. Ainda se vivia a fase extrema da segunda metade dos anos 80, e com isso as bandas se concentravam em ideias mais voltadas ao som pesado, afiado, grotesco e maravilhoso. O tema inicial continua nessa faixa, na qual envolve a mente humana capaz de tornar o que era brilhante e repleto de vida como algo macabro e inviável a alguém que busque por sobrevivência. As nuvens se fecham lançando seus raios sobre o mar de sangue / As estrelas desaparecem e em seu lugar aparecem montanhas de gelo” – ao mesmo tempo em que a alma de um ser que prosperava se esvai, as guitarras de Nicastro e Golfetti incendeiam a área com precisão e arrogância sonora.

Para fechar a primeira trinca de ases do disco, nada como aquela que carrega uma sigla muito famosa para quem conhece de fato o Korzus. Estou falando da incrível “P.F.Y.L.”. Essa faixa serve facilmente para retratar o que acontece no país nos dias de hoje, ou melhor, em toda a sua história repleta de bandidos de toga, terno e gravata, e uniforme da “CBFurta”. Estes mentem até para si mesmos, mas não estão nem aí. Estão pensando no poder pelo poder e nada mais. Um dia pagarão por suas mentiras e espero que cada ser inútil desse pague por suas mentiras. Repleta de passagens insanas e viscerais, ela é mais uma faixa que reforça o grande desempenho obtido pelo Korzus nessa época. Pay for your lies! Em seguida ficamos sabendo sobre os caminhos que o dinheiro pode levar uma pessoa dependendo de seus propósitos principais e ocultos. O dinheiro pode trazer poder, pode corromper a alma, pode iluminar o caminho, e pode trazer a paz. Será que pode? Até pode, caso o dono desse dinheiro deseje e vá à busca de um desses caminhos. O próprio nome de “Beyond The Limits Of Insanity” já entrega o que está sendo dito.

“Unpredictable Disease” é aquele tipo de canção que tem seu início calcado em uma leveza mórbida e que passa ligeiramente ao primeiro riff para engrossar o caldo de molho sangrento. Dick Siebert torna seu baixo ainda mais marcante e estrondoso, a ponto de deixar a canção que poderia ser uma simples passagem sem voz, com um ar de tão boa que merecia uma letra. Creio que nesse momento, Pompeu aproveita para tomar uma água e refrescar a garganta para continuar a exorcizar o ouvinte desacostumado com sonoridades catastroficamente sensacionais. Os solos de guitarra entregam o passaporte para o outro mundo com direito a uma caneca cheia até o talo da melhor cerveja que o convidado desejar. A faixa-título “Mass Illusion” começa de forma narrada e com um dedilhado vagaroso de violão de fundo que emparelha com um riff daquele tipo que chama o restante dos instrumentos para o combate. Ainda que mais vagarosa inicialmente que as anteriores, o solo inicial chega para equilibrar as coisas e alegrar as entidades malignas. Novamente Siebert coloca seu baixo em ampla evidência, enquanto Nicastro e Golfetti serram as orelhas de quem não aguenta ouvir um som de guitarra de verdade. Imagine duas! “Uma lágrima de vergonha / Escorre pelo seu rosto / O pesadelo está diante de você / Você tenta não acreditar / Você está isolado como um leproso / Eles se afastam e riem / Depois disso… / Você receberá sua parte / O beijo da morte.”

Nesse momento percebe-se que o quanto mais o LP gira, mais o fã de Metal quer ouvir. “Mass Illusion” é um álbum tão equilibrado que ao se acostumar com discos maravilhosos e de curta duração pode acontecer de pensar que este também está próximo do final. A sequência da obra intergaláctica traz a também excelente “Kids Of The Streets”, mais uma faixa “quebra-ossos” para incrementar esse prato com sabor infernal, oferecendo ao ouvinte boas doses daquelas paradas e mudanças de andamento características do estilo. Tal canção estende as mãos para as crianças sem esperança, que se tornam algo comum e sem importância para quem está no comando, e finge que não as enxerga. O mesmo apenas clama por cada vez mais poder, cedendo à suja e indigesta luxúria, enquanto do outro lado, logo ali na esquina, a miséria toma conta de todo o cenário. Depois ainda temos “Blood For Blood”, que honra o próprio nome. Não possui nenhuma intro e muito menos qualquer enrolação, simplesmente, chega descendo o pé na porta e despeja toda sua fúria perante uma sociedade esquizofrênica e isolada em suas dores individuais. “Living In Pain” é a próxima parte do cardápio excepcional que foi preparado para explodir mundo afora e dizer: “Ei, nós estamos aqui!”. Dessa vez com uma intro que por sua vez é bem trabalhada e entrega ao fã o clima ideia para entrar no mosh e espancar todos os seus demônios internos. Aproveitando para reunir energia suficiente para encarar uma humanidade cada vez mais hostil e controlada como simples robôs, bater cabeça serve para te livrar de tudo isso e não se deixar levar pelos falsos líderes que só estão a assolar o mundo com seus atos irresponsáveis. “Comando bastardo / Eu não resisto / Lute contra o tempo / Você decide o seu futuro / Você não é um robô / Você não tem dono.”

“Raise Your Head”, que define o conteúdo total da obra, encerra o trabalho com um alerta muito importante sobre a manipulação da sociedade, buscando despertar em cada pessoa a vontade de se soltar das amarras da tirania e ter seu direito de escolha para seguir com suas próprias pernas. “Pare / Chega de ilusões / Pare, pare / Chega de parasitas / Pare diga pare / Não se entregue / Levanta a cabeça” – o recado é dado de maneira inteligente somado ao poderio executado em cada passagem de som. Riffs e solos da grande dulpa Nicastro/Golfetti, e da dupla responsável por manter as colunas do monumento sonoro intactas, Siebert/Sileci. E tudo isso comandado pelo carismático Marcello Pompeu. O final, na versão em CD, tem o cover de “Inútil” (Ultraje A Rigor), que ganhou uma roupagem totalmente Korzus de se tocar e ficou muito boa para fechar as cortinas do palco. “Mass Illusion” foi gravado e mixado no Rac Studios em São Paulo, capital, entre fevereiro e abril de 1991. Como sempre é comentado e relembrado até mesmo no programa “The Noite Com Danilo Gentili”, a produção do álbum ficou a cargo de Roger Rocha Moreira, mais conhecido por ser o vocalista e guitarrista do Ultraje A Rigor, enquanto o produtor executivo da obra foi Francisco Domingos de Souza. A engenharia ficou nas mãos de Marcos “Maradona” Bueno, tendo como assistente de engenharia, Alexandre “Relax” Mollo. O álbum foi mixado por Marcos “Maradona” Bueno e Roger Rocha Moreira. J.A. Torquato idealizou e construiu o logo e a ilustração, e as fotografias foram feitas por Angelo Pastorello.

Em um ano como 1991, a concorrência era gritante e para o Korzus conseguir qualquer sucesso mínimo que fosse, seria preciso muito empenho e dedicação. Aquele ditado que diz que o talento equivale a 1% de inspiração e 99% de transpiração é totalmente válido para este registro histórico. Afinal, o Korzus não era o Sepultura que estava muitos passos à frente em questão de sucesso e conquistas. Porém, o caminho estava pavimentado para que o Korzus e outras bandas pudessem conquistar de vez o seu espaço. E até os dias de hoje o álbum “Mass Illusion” é mencionado por diversos fãs e artistas ao redor do mundo, reconhecendo a competência de Dick, Pompeu e cia. No programa que eu citei em que os integrantes do Krisiun estavam participando, os mesmos mencionaram como sendo o melhor disco do Korzus, devido à presença de Roger Moreira, que trabalha com sua banda nesse programa de TV. Agora você, meu caro amigo do esporte sonoro tem essa mesma visão sobre este álbum? E você que ainda não conhece a sonoridade da banda, o que tem a dizer após ouvir atentamente junto a essa nobre leitura sobre o álbum descrito? Vamos aproveitar a ocasião e conferir sem mais nenhum atraso esse magnífico clássico do Metal nacional!

“Fear
From side to side
Pain
Crossing in your minds
Evil
Was born in the human brain
A dream?
No way”

Nota: 9,3

Integrantes:

  • Marcello Pompeu (vocal)
  • Silvio Golfetti (guitarra)
  • Marcello Nicastro (guitarra)
  • Dick Siebert (baixo)
  • Roberto Sileci (bateria)

Faixas:

  • 1. Agony
  • 2. Victim Of Progress
  • 3. P.F.Y.L.
  • 4. Beyond The Limits Of Insanity
  • 5. Unpredictable Disease
  • 6. Mass Illusion
  • 7. Kids Of The Streets
  • 8. Blood For Blood
  • 9. Living In Pain
  • 10. Raise Your Head
  • 11. Inútil (Ultraje A Rigor cover)

Redigido por: Stephan Giuliano

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