Clássicos: Deicide – “Serpents Of The Light” (1997)

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O ano era 1997 e nessa época eu estava na minha fase de molequinho que jogava bola o dia inteiro na rua e comprava cigarro para algum vizinho ou parente para ganhar umas moedas e ir jogar umas fichas, ou seja, apesar de eu já tender para o lado Rock ‘n’ Roll da coisa, muito graças aos games e fliperamas da época, eu ainda não era alguém que buscasse muita informação dentro deste assunto, e, portanto, tão pouco sabia sobre o Deicide. Lembro que mais próximo do ano 2000, eu definitivamente pude conhecer a banda e o som que a mesma praticava através dos dois grandes clássicos até então: “Deicide” (1990) e “Legion (1992). E após isso o leque de bandas e discos começou a aumentar, comecei a entender e moldar o meu gosto mais voltado ao Metal extremo, variando entre o Death e o Thrash Metal, juntamente com as principais bandas de ambos os estilos, dando preferência ao vocal gutural e rasgado. Foi mais à frente que pude melhor apreciar a sonoridade do “Fantasmão” e sua trupe, através do álbum “In Torment In Hell” (2001). Nesse momento eu já dizia ser um apreciador do som do “morto-vivo-vivo-morto”! Isso traz à tona diversas polêmicas envolvendo o Mr. Benton, principalmente quando disse que se mataria aos 33 anos. E muita gente acreditou, porém, eu nunca vi alguém que fosse realmente tirar a própria vida se preocupando em avisar a todos antes do feito. Sobre o disco em si, vamos recapitular quem estava presente na banda ao lado de Glen em 1997, mais precisamente no dia 20 de outubro, quando este mesmo material fora lançado pela conhecidíssima Roadrunner Records: além do pai de Daemon e Vinnie Benton (baixo e vocal), completavam o line up os irmãos Eric e Brian Hoffman nas guitarras, e Steve Asheim na bateria – Steve trocou a bateria pela guitarra em 2008 e segue na banda atualmente. Agora vamos relembrar o que continha neste que vinha a ser o quarto lançamento da banda à época. Hoje a banda possui 12 full-lengths no total, sendo o último lançado em 2018. Uma obra prima por sinal.

O pergaminho do décimo oitavo salão do inferno já abre as arestas com a auto intitulada “Serpents Of The Light”, a qual contém um dos melhores e mais conhecidos riffs de Death Metal da história. Uma faixa direta, sem firula e com um ódio musical marcante. ”Livre de seu deus, a inteligência venceu / Vá com seu instinto de viver como quiser / Não mais implorando por misericórdia dos ladrões / Eles não podem chegar perto de você, através deles você pode ver / Mantenha de fora os ensinamentos de Cristo / Denuncie o pai, desfaça seu disfarce / Morram! Serpentes da Luz” – se os primeiros minutos de blasfêmia já incendeiam os alto-falantes, imagina o que vem na sequência. “Bastard Of Christ” não respeita o freio e continua o espancamento sonoro sem massagem. Essa eu até acho mais imponente que sua antecessora, com uma abertura mais trabalhada e que chama o ouvinte para o combate entre os dois mundos. Destaque para Asheim que distribui muita técnica e vigor, tornando o andamento da canção bastante firme. “Ele se ferrou para salvá-lo – condenado à morte, masoquista / Por isso, sua palavra censura a verdade – agonizada, profetizada / Revive o livro de ficção – blasfêmia, gula, para enganar você e eu / Em disposição batalhada – pendure a cadela na cruz” – o sacrifício vem a ser em vão e a crucificação o símbolo da enganação e da exploração.

“Blame It On God” é a terceira canção de ninar dos estadunidenses de Tampa, Florida. Aqui os solos hipnóticos de Eric dão o ar da desgraça, elevando o soneto do inframundo entre contradições e colocando Deus como o culpado de tudo. As machadadas seguem um ritmo mais alucinante em “This Is Hell We’re In” que distribui linhas de guitarra muito eficazes quando o assunto é devastar os lares ortodoxos. Além dos solos que exaltam toda a crueldade sonora deste disco. “Nada pode me tocar, pela primeira vez estou morto / Exclua o corpo, o espírito é deixado / Não tenho problema em lidar com a vida / É este mundo que me condena a morrer”. Após a pancada anterior, “I Am No One” traz um tempero mais cadenciado, porém, não menos insano. “Eu sou seu esquecido, caído da graça / Horror do mal, criado erro / Cruel e perverso, deleito-me com os condenados / Eu sou o cisto no cordeiro sagrado de seu senhor”. Já adentramos na sexta faixa que detém o nome de “Slave To The Cross” que possui uma intro diferenciada e ousada que até ameaça ser algo extenso com guitarras agudas e harmônicas bastante invocadas, mas que passam brevemente assim como as partes de cada composição são construídas. Os irmãos Hoffman dividem os solos com maestria por aqui. “Matar, derramar sangue pela fé em seu deus / Espalhando a mensagem, defendendo sua fraude / Assassinato inédito até sua crença / O estupro do voluntário é abençoado pelo padre“ – seu nome é bastante sugestivo para a proposta sempre clara de Benton, quer queiram ou não.

Eis que quem dá as caras é “Creatures Of Habit”, com seu menosprezo ao divino constante. Não há solos, mas os diferencias de guitarra funcionam muito bem, o que torna a canção mais completa. “Decisão injusta que você tenta impor por despeito / No seu próprio interesse, eles se importam e fingem serem bons / Eu não vou tê-lo e agora que eu abri meus olhos / Criaturas de hábitos, não tenho respeito pela sua espécie”. “Believe The Lie” vem em seguida trazendo um pouco de cadência e alguns contratempos, sem fugir da proposta original e habitual. Os solos ficam a cargo de Brian nesta faixa, mantendo o nível de qualidade infernal. “Hora em que você morreu por sua religião / Hipnotizado por sua inflição / Vá até ele, ele é seu salvador / Deixe este lugar, faça-nos um favor”.

“The Truth Above” não alivia nem um pouco a situação, alegrando o adepto e aliado da luz profana. É até um pouco difícil imaginar que algo possa melhorar ao término de um disco, mas aqui a turma do “MulamBenton” soube do que era capaz e mandou ver literalmente e com mais uma assinatura de Brian nos solos, convocando os exércitos contra a luz para proclamarem a verdade absoluta. “Fora da fé reviverá com razão / Sincronize este mundo em que vivemos“. “Father Baker’s” fecha o último versículo do quarto capítulo da bíblia tenebrosa chamada Deicide, com os melhores solos do disco tocados por Eric e que supostamente “homenageia” o Padre Nelson Henry Baker (1842-1936), que foi administrador da Basílica Nossa Senhora da Vitória (Lackawanna, Nova York), na qual desenvolveu uma “cidade de caridade”. Consistia em uma basílica menor, um lar infantil, um lar para mães solteiras, um orfanato para meninos, um hospital, um lar para enfermeiras e ensino fundamental e médio. Informações segundo o material descrito relacionado ao padre e à diocese. “Ao padre Baker, a dor é divina / Se você tiver sorte, sairá vivo / Bem-vindo ao terror, você está onde pertence / Pai está esperando para mostrar o seu errado / Aprenda cedo a se comportar ou você vai morrer”.

Realmente aqui o Deicide conseguiu se mostrar bastante vivo e pronto para seguir seu caminho por décadas, e é o que está fazendo desde então. Adiantando a todos que a horda desembarcará por aqui para uma série de apresentações. Datas e locais serão anunciados.

Finalizo essa releitura com uma resposta de Glen quando foi perguntado sobre seu “suicídio”: “O negócio é o seguinte, cara. A gente se encontrou com um colaborador e fotógrafo da revista Raw, da Inglaterra, em seu hotel em Tampa para tirar umas fotos. Após a seção de fotos, fomos para o bar fazer a entrevista e estávamos falando sobre hipóteses, então eu disse que tinha premonições de que iria morrer aos 33 anos. E por que eu disse aquilo? Quem é que sabe?! Eu realmente acreditava que esse seria o meu fim? Não. Eu estava bebendo? Sim. Eu realmente achava que um comentário tão absurdo ficaria tanto tempo na lembrança de pessoas como você? Não. Quando eu tinha 33 anos, eu tive um acidente bem feio envolvendo a minha moto e um carro, e o meu filho estava na garupa. Nós dois ficamos bastante feridos – naquele momento eu tive uma escolha: cair com a moto ou bater e morrer, e provavelmente matar o meu filho também, ou cair e esperar que o melhor acontecesse. Bem, ainda estou aqui e o Daemon também. Eu tive uma escolha naquele momento e ainda tenho. Eu prefiro andar por aí e prestar atenção na estrada… se é que você me entende”.

“Bastard, for your god you compromise
Do without, search the truth you’ll never find
Scriptures offer little to relate
Laughter from the lord into your face
BASTARDS OF CHRIST – DIE!!!!”

Nota: 9,1

Integrantes:

  • Glen Benton (baixo e vocal)
  • Eric Hoffman (guitarra)
  • Brian Hoffman (guitarra)
  • Steve Asheim (bateria)

Faixas:

  1. Serpents Of The Light
  2. Bastard Of Christ
  3. Blame It On God
  4. This Is Hell We’re In
  5. I Am No One
  6. Slave To The Cross
  7. Creatures Of Habit
  8. Believe The Lie
  9. The Truth Above
  10. Father Baker’s

Redigido e adaptado por: Stephan Giuliano

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