Clássicos: Belphegor – “Lucifer Incestus” (2003)

Diante de seu impacto, os fãs de Metal extremo já podem consagrar “Lucifer Incestus” — o quarto álbum de estúdio da banda austríaca Belphegor — como um verdadeiro clássico?

Com certeza. O público e a crítica tratam o disco com enorme reverência. De fato, a maior parcela do cenário extremo europeu consagra a obra como um marco importante, pois o trabalho consolidou a identidade brutal da banda ao fundir o Death Metal e o Black Metal com maestria.

O dia 24 de novembro de 2003 marcou a trajetória do Belphegor. Naquela data, a banda lançou o trabalho por meio do selo Napalm Records que, embora não tivesse o alcance gigante que possui hoje, impulsionou o quarteto para um novo patamar. Como resultado, esse lançamento tornou-se o grande ponto de virada na carreira dos austríacos, já que apresentou um refinamento técnico superior. A partir dali, o grupo passou a ditar o ritmo de uma vertente musical extremamente veloz e agressiva.

Até hoje, o álbum desfruta de uma excelente recepção. Fãs e críticos especializados elogiam constantemente o disco, posicionando-o como um dos trabalhos mais intensos, cativantes e bem-sucedidos dessa fase intermediária da banda. Esse estilo retrata perfeitamente a união entre dois subgêneros poderosos e nichados: enquanto a banda pende ora para o Black Metal, ora para o Death Metal, Helmuth Lehner e seus músicos sempre aplicam esses elementos com muita qualidade e convicção. Consequentemente, esse modelo europeu expandiu-se e chamou a atenção de outras regiões do planeta, transformando-as em novos berços para o Metal extremo.

Arte original de “Lucifer Incestus”

O disco que abriu caminho para a horda de Salzburg

Apesar de entregar uma receita puramente brutal sob o comando de Helmuth, o som carrega um refinamento característico. Essa assinatura sonora direcionou o Belphegor a horizontes muito maiores do que os conquistados até então. Além de carregar esse histórico vitorioso, o disco definiu a identidade definitiva da banda ao misturar a atmosfera sombria do Black Metal com a precisão técnica do Death Metal.

Por se tratar de um nicho muito específico, o mercado não possui dados oficiais detalhados sobre o volume exato de cópias vendidas de “Lucifer Incestus”. Além disso, gravadoras independentes como a Napalm Records raramente divulgavam relatórios comerciais aprofundados nos anos 2000. A indústria só abria esses números caso o artista atingisse marcas visivelmente expressivas, como as certificações de disco de ouro ou platina.

Sobre o impactante “Lucifer Incestus”

Inegavelmente, a mistura de idiomas e as linhas musicais extremas do austríacos acabaram por formar um amálgama sólido e bastante perspicaz. No entanto, há percalços que as bandas com essas características enfrentam, e muitas acabam caindo nas armadilhas que uma ideia complexa desse tipo possui.

Entretanto, estamos diante de uma das bandas mais habilidosas ao lidar com estes entreveros. O Belphegor não é apenas uma banda de Metal extremo; na verdade, é uma das que mais se sobressaem diante desse arquétipo. Você não verá a banda austríaca produzindo discos a toque de caixa, simplesmente para se manter viva na cena. Obviamente, uma banda precisa estar em evidência e lançando materiais para não correr maiores riscos. Mas o que tratamos por aqui é a arte em si, pois esta deve possuir alma para que possa permanecer viva mesmo após o passar de décadas, tornando-se, assim, imortal. E é isso o que ocorre com “Lucifer Incestus”, um dos maiores e melhores trabalhos do grupo, que projetou o nome do Belphegor para horizontes mais extensos.

O disco, de capa provocativa e emblemática, teve a produção (ao lado de Helmuth), gravação, mixagem e masterização nas mãos de Alexander Krull. Já a arte da capa, especificamente, foi idealizada por Tomasz Daniłowicz, mais conhecido como Graaal, embora a assinatura traga o pseudônimo “www.g-r-a-a-l.com“.

Krull também comanda os samples (intro, outro) nas faixas 1, 4, 5, 7 e 9. Mathias “da Hexer” Röderer é o responsável pelos sintetizadores adicionais e, para comandar a locomotiva percussiva, foi chamado o baterista alemão Florian “Torturer” Klein.

O poder centrado e uma sonoridade densa, ríspida e calamitosa

O conteúdo de “Lucifer Incestus” abrange elementos que vão muito além da estética clássica, mesmo que você encontre insultos diretos e provocações de baixo calão. As variações entre alemão, inglês e latim prevalecem por toda a extensão da obra, adotando uma linguagem que se tornou tradicional dentro dos trabalhos do exército austríaco. Por mais que as letras não se aprofundem tanto em questões religiosas ou em figuras históricas, o resultado acaba sendo ainda mais atrativo dessa forma.

Afinal, não é preciso se tornar um arqueólogo para conceber um trabalho qualificado dentro do Metal extremo. O que mais importa aqui é saber ligar a fiação de modo correto para que haja energia de sobra em cada aresta do disco. Em meio a isso, temos letras mais diretas, mas sem medo de afiar a foice e atacar de modo certeiro a quem possa se ferir com qualquer verso proferido pelo Belphegor.

O andar da carruagem sombria e blasfema

Desde o princípio, a ordem é o caos. O plano começa com uma sessão ritualística que sacrifica uma mulher para utilizar seu sangue como condutor na libertação e adoração do ser supremo submundano. Portanto, os ritos não darão nenhuma clemência aos devotos da Santíssima Trindade. A escuridão reina imediatamente, de modo que o poder imbatível de Lúcifer reserva para si o único espaço da luz. A partir de então, o ser sombrio e soberano assume o trono.

Logo após o ritual insano de “Intro: Inflamate Christianos”, o ímpeto de “The Goatchrist” nos concede a condição plena de atravessar as paredes das igrejas. Esse plano extremo entrega boas reviravoltas dentro do mesmo conceito e, consequentemente, amplia o domínio do mal em contraste à falsa benevolência terrena.

Em dado momento, a música apresenta planos menos densos e velocidades reduzidas. Essa mudança estratégica acaba por destacar os solos tortuosos, que cortam a atmosfera como arame farpado. A estrutura sonora avança em forma de comboio e mistura elementos do Black Metal tradicional com o lado sinfônico e melódico do subgênero. A partir daí, a composição parte para uma jornada mais enraivecida, que sufoca os devotos da luz branca com blast beats claustrofóbicos. Além de proferir vários trechos com ótimos harmônicos, o momento derradeiro exibe excelentes frenagens e aplica toda aquela receita clássica do Death Metal e em favor do Cristo bode.

Poesias “românticas” em “homenagem” às freiras

Na sequência, os demônios do miasma, sedentos por carne, de “Diaboli Virtues in Lumbar”, trazem linhas agressivas e incessantes de bateria, abrindo caminho para uma verdadeira ode ao som primitivo do estilo. A partir da metade da faixa, a música ganha mais fôlego, provocando uma grande violação da santidade. O efeito de domínio dessa sodomia varia entre trechos com blast beats e recortes que destacam os pedais duplos. Cada variação, no entanto, é causada por gritos lancinantes, lamuriantes e em completa miséria. Tudo isso é cantado junto a um acúmulo capaz de gerar um grande vórtice da lascívia, deixando os anjos completamente abandonados por Deus e afogados em sêmen de demônios. Em suma, toda sua pureza é roubada de modo mais insolente e insaciável possível.

Logo depois, uma sequência rápida de chicotadas nas freiras prostitutas do convento abre as alas infernais e prazerosas para “Demonic Staccato Erectic”, que assume os primeiros momentos explicitamente voltados ao Metal da morte.

Essa sequência continua a derramar sangue através do som, tornando a obra mais diversificada e fiel ao seu real propósito. Por fim, os dedilhados enfeitam a trama obcecada por coito com a Santa Maria, além das freiras, e agem como chaves metafóricas. Essas chaves destravam novas linhas sonoras e, simultaneamente, enriquecem o enxofre contido na música. O momento mais nobre do som acontece quando a faixa ganha terreno em um andamento cadenciado, caminhando como um verdadeiro tanque de guerra do inferno. Como resultado, os solos breves constroem uma jornada ainda mais calamitosa e qualificada diante da efígie do sacerdote eunuco. Há espaço inclusive para trechos de baixo em evidência e viradas de bateria que guiam o ouvinte com precisão pelo percurso final.

“Cuspa na hóstia – puta prostituta do convento
Morda o crucifixo
Inserir o braço longo – urinar profusamente
Uma efígie do sacerdote eunuco

Masturbação delirante mútua

Salve – mãe Maria – rogai por mim
Com sua língua de aço
Ereção demoníaca em staccato
Salve – mãe Maria – faça sexo oral
Religioso bunda fodida vadia
Ereção demoníaca em staccato”

Foda-se o sangue de Cristo!

Forte e contundente, não?! É exatamente isso o que se espera de um apocalipse sonoro. Primeiramente, a música recupera o que a horda antes considerava o paraíso. Surge, então, uma introdução com aspecto místico e misterioso. Logo em seguida, a nefasta horda austríaca ataca com precisão e eficácia avassaladoras. O monarca de toda a impureza chega para declarar vitória sobre Deus, enquanto os tremolos e a pancadaria na condução da bateria evidenciam o fervor da batalha. O ritmo entra em frenesi absoluto e o sangue dos anjos alimenta o ódio apocalíptico.

Essa tempestade sonora infernal invade os impérios divinos e destrona todas as figuras celestiais — um ato de genocídio completo que a fúria eterna justifica por si só. Esse devorar do sol atende pelo nome de “Paradise Regained” e repagina, de forma definitiva, toda a estrutura do mundo carnal e espiritual.

“A guerra final – ódio apocalíptico
Sangue de anjos mancha o solo tórrido
Fúria eterna – genocídio celestial
Tempestades infernais sobre impérios divinos

Rasgue os céus
Devore o sol – roube a luz

Escuridão cegante
Santidade destruída
Descida sombria de almas caídas
Grandeza de um paraíso ímpio”

A jornada prossegue com um protesto direto diante do fluido impuro. Portanto, uma música com frases bem espaçadas assume o papel de dar o aviso com total clareza. Acima de tudo, a horda mantém a tradição do linguajar misturado (o uso clássico do latim, alemão e inglês), o que adiciona ainda mais tempero oculto ao enredo abismal. Em seguida, o ritmo frenético dá licença a tensões abrangentes e em larga escala, profanando e blasfemando de modo bastante específico.

Nesse cenário, o conjunto de pedais duplos faz as engrenagens girarem e reúne o máximo de energia. Consequentemente, essas tensões em forma de nota transformam-se em riffs altamente inflamáveis e tóxicos aos seres de luz divina. Conforme a trama avança, o decorrer do som ascende ao Éon dos amaldiçoados, exaltando a importância das alas infernais em detrimento dos céus. E, como tudo aqui ocorre de forma ríspida, o ouvinte confere a seguir uma parte dessa jornada implacável de “Fukk the Blood of Christ”.

“Die Verehrung – des Arsches
Der Ketzertanz – der Sodomiten
Tetelostali – es ist Vollbracht
Ertrankt in Flammen – der Aeon der Verfluchten

Fukk – the blood – of christ
The sabbath – of the goat
Fukk – the blood – of christ
Hellsperm – das Heilwerk des Bockes”

Louvada seja a igreja maligna – o incesto clássico

De fato, o ouvinte jamais deve deixar de mencionar esta faixa. Afinal, ela encarna a própria alma do disco e funciona como uma verdadeira força motriz que inflama e arde os tímpanos de quem a escuta.

Notadamente, a composição pertence a um célebre grupo de músicas blasfemas que atravessaram as barreiras e limitações do som extremo. Aqui, especificamente, a faixa ocupa uma posição bastante favorável, beneficiando tanto a música em si quanto a obra completa. Desse modo, “Lucifer Incestus” não carrega apenas o nome do disco, mas também eleva o trabalho a um patamar onde você passa a imaginar algo sem limites. Ou seja, a horda interliga a qualidade e o ímpeto sonoro de tal maneira que essa fusão proporciona grandes e ótimas emoções.

Curiosamente, esta é a menor faixa do disco, com menos de 3 minutos de duração. Ademais, ela possui uma letra bem curta, mas totalmente condizente com o percurso brutal que oferece ao ouvinte.

O incesto de Lúcifer não dá aviso prévio. Ele simplesmente acontece e rende o ouvinte a toda a desgraceira sonora. O Metal das trevas injeta energia maligna pura através de baquetas e palhetadas desenfreadas e gélidas. Como resultado, os solos incandescentes constroem um gigantesco louvor à igreja maligna em meio a uma jornada infernal oculta. As almas tremulam com os bumbos duplos e a metranca percussiva, elementos que as bases ríspidas, moribundas e alarmantes acompanham com maestria. No final, o grande representante da carnificina sexual finalmente mostra as suas caras de bode.

“Lucifer Incestus
Praise the evilchurch

An occult hellride
Triumph of sin”

No reino de Satanás, a freira já não usa mais o rosário

De volta à putaria no inferno, temos as profissionais do convento em ação novamente e sob as ordens de “The Sin – Hellfucked”. Não contente com o ato coletivo e sem consentimento (ao menos de início), e muito menos com o incesto que o líder do mundo inferior provocou, a banda entrega agora mais um momento de diversão sonora maléfica.

O prazer do pecado devorou a alma da devota, um cenário que o ouvinte percebe logo de cara sob a ótica de uma introdução falada bem curta. Em seguida, o ritmo resplandecente surge e provoca o ouvinte com frenagens enegrecidas por melodias infernais estridentes, o que evoca a atmosfera do Dimmu Borgir clássico — porém, sem soar como uma cópia. Logo depois, o som ganha tons mais densos e cadenciados, trazendo harmônicos pesados aos moldes do Incantation.

O mal que assola a região infectou a carne pútrida da prostituta da igreja o bastante para que ela se entregue ao seu destino real. Desse modo, os solos em forma de flagelo marcam o corpo da freira pecadora, enquanto ela usa um clister para expelir Jesus. Ela já não é mais a mesma, pois abandonou o rosário definitivamente. Por fim, a junção entre o Black Metal e o Death Metal cavernoso torna a situação ainda mais atrativa perante os olhos do demônio, de forma que a violência sonora acaba por resultar em uma grande valsa macabra.

“Cock of flame – buttfuck me – rip me in Half
Golden shower – bondage – baptized in cum
Belt of thorns – genital – stimulation explores
Churchwhore – no longer – wears a rosary

Hellfucked in the chapel of sin
Hellfucked in the chapel of sin
Enter the reich of sathan

Te – invoco – oh sathana!

Te – invoco – oh sathana!”

“Fleischrequiem 69 / Outro” é a alcunha perfeita para o fechamento triunfal do encouraçado maquiavélico austríaco. A música se eleva como uma verdadeira missa negra e sangra através das melodias espalhadas por seu território. Nesse cenário, o avanço da destruição da luxúria ocorre por meio de uma condução veloz, a qual levanta uma verdadeira parede sonora aos moldes do Marduk.

Diante disso, as partes melódicas e melancólicas surgem logo em seguida para enfeitar a orgia em carne — o mais profano incesto de Lúcifer. Por fim, o réquiem da carne quase transforma o disco em uma obra conceitual, pois liga diretamente o prazer do demônio ao ato de converter as freiras do convento.

Encarte original de “Lucifer Incestus”

Nota importante

O músico austríaco Bartholomäus “Barth” Resch nasceu em 28 de agosto de 1977 e infelizmente faleceu no dia 8 de maio de 2026, aos 49 anos, vítima de um trágico acidente de carro.

Barth foi o baixista e um dos principais letristas do Belphegor justamente entre 2002 e 2006. Ele gravou e moldou o som exatamente dessa trindade de álbuns brutais da banda: Além do próprio “Lucifer Incestus” (2003), também participou do “Goatreich – Fleshcult” (2005) e parte do “Pestapokalypse VI” (2006).

“Bloodsoacked eyes – shattered limbs
Genitortured – scalped and maimed
Necrobloodfuck – torn out cunts
Revel in death – their flesh is no longer enough”

Nota: 9,5

Integrantes:

  • Helmuth (vocal, guitarra)
  • Sigurd (guitarra, intérprete)
  • Barth (baixo – R.I.P. 2026)

Artistas convidados:

  • Alex Krull (intérprete – intro, outro)
  • Mathias “da Hexer” Röderer (sintetizadores)
  • Florian “Torturer” Klein (bateria)

Faixas:

  1. Intro: Inflamate Christianos
  2. The Goatchrist
  3. Diaboli Virtus in Lumbar Est
  4. Demonic Staccato Erection
  5. Paradise Regained
  6. Fukk the Blood of Christ
  7. Lucifer Incestus
  8. The Sin – Hellfucked
  9. Fleischrequiem 69 / Outro

Dedicado em memória de Bartholomäus “Barth” Resch (1977 – 2026).

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