Clássicos: Assassin – “The Upcoming Terror” (1987)

O grande debut ensolarado do Assassin abriu a possibilidade para que eu encare esta resenha como um relato sobre como esse álbum me impactou e me ajudou a respeitar e admirar algo com o qual eu não concordava: o uso de camisetas de banda amarelas.
Neste episódio, contarei como essa esplêndida banda alemã de Thrash Metal me fez entender e reconhecer o valor da cor amarela. Aliado a clássicos do Judas Priest e do Anthrax — “Screaming for Vengeance” (1982) e “State of Euphoria” (1988), respectivamente —, além do excelente petardo do Immolation, “Close to a World Below” (2000), “The Upcoming Terror” causou um estardalhaço na minha mente. Esse caminho, portanto, é um percurso sem volta, e eu nem cogito um retorno.
O primeiro impacto do Assassin
O ano de 1987 foi magnífico para o Metal produzido na Alemanha, mas eu só tive a honra de conhecer essa verdadeira pepita de ouro vários anos mais tarde. Afinal, eu tinha apenas um ano de idade quando essa joia incrível foi lançada. Era o primeiro ataque do Assassin, o primeiro grito cortante que dividiria os ouvidos dos ouvintes logo nos primeiros instantes de audição.
Você deve estar se perguntando sobre o motivo de dar a alcunha de clássico a esse álbum, e eu vou explicar. É bem verdade que, comercialmente, “The Upcoming Terror” nunca atingiu marcas estratosféricas capazes de romper todas as fronteiras do mapa. O disco não recebeu combustíveis massivos de divulgação e nem alcançou os mesmos números de cópias dos gigantes absolutos do estilo. Entretanto, a obra passou longe de cair no esquecimento. Com uma recepção fervorosa no circuito underground, o debut conquistou um resultado expressivo — um feito e tanto para uma banda estreante. Essa energia inicial aqueceu os motores para um segundo lançamento.
Bandas conterrâneas como Kreator, Sodom e Destruction também estavam lançando materiais de peso na época. Isso sem contar outros nomes que despontariam menos, como Exumer e Violent Force, entre outras ótimas referências da cena germânica.
Discos de Thrash Metal alemão lançados no mesmo ano que o Assassin
- Darkness – “Death Squad”, lançado em junho via Tales of Thrash
- Deathrow – “Raging Steel”, lançado em 1º de setembro via Noise Records
- Destruction – “Release from Agony”, lançado em 1º de dezembro via Steamhammer
- Exumer – “Rising from the Sea”, lançado em 21 de julho via Disaster
- Holy Moses – “Finished with the Dogs”, lançado entre janeiro e março via Aaarrg Records
- Kreator – “Terrible Certainty”, lançado em 22 de setembro via Noise Records
- Living Death – “Protected from Reality”, lançado em março via Aaarrg Records
- Mekong Delta – “Mekong Delta”, lançado em fevereiro via Aaarrg Records
- Necronomicon – “Apocalyptic Nightmare”, lançado em algum mês de 1987 via Scratchcore/GAMA International
- Paradox – “Product of Imagination”, lançado em outubro
- Sodom – “Persecution Mania”, lançado em 1º de dezembro
- Tankard – “Chemical Invasion”, lançado em outubro
Uma ideia e uma regra
O primeiro registro de estúdio do Assassin foi o pontapé definitivo para que eu decidisse adquirir uma camiseta na cor predominante da capa do disco. Ou seja, o amarelo passou a ter o meu reconhecimento; eu não queria uma estampa preta tradicional. Seria apenas mais uma vestimenta comum e, para valorizar a arte, era necessária uma camiseta nos moldes da identidade visual do álbum.
A parte importante disso é que o conteúdo musical me trouxe excelentes frutos, além da ideia do vestuário, claro. Mais do que isso, pude conferir ao vivo alguns dos clássicos da banda alemã durante sua apresentação no festival Setembro Negro. Lá estava eu, com minha peita amarela no meio da valsa fumegante, feliz da vida. Mas essa história eu contarei um pouco mais adiante, ao discorrer do nanquim virtual.
O alcance real de uma promessa: o ápice e a queda do Assassin
Em 1987, o Assassin colocou a cidade de Düsseldorf no radar dos aficionados por um Thrash veloz, cru e de forte identidade ao lançar o seu álbum de estreia, “The Upcoming Terror”. Naquela época, o circuito de fanzines e o intenso intercâmbio de fitas K7 (tape-trading) garantiram uma excelente recepção ao material underground. Consequentemente, o disco atingiu a marca de aproximadamente 15.000 cópias vendidas, um número bastante honesto para uma banda estreante na gravadora Steamhammer/SPV, embora modesto se comparado aos gigantes da cena teutônica.
Esse burburinho inicial rendeu frutos imediatos e abriu portas para que o exército musical alemão fizesse shows importantes na Alemanha, dividindo o palco com grandes nomes da efervescente cena germânica. Diante de uma resposta tão positiva, a Steamhammer rapidamente garantiu o orçamento para o passo seguinte. Menos de um ano depois, em 1988, os músicos já ocupavam o renomado Music Lab Studios, em Berlim, para gravar o aclamado “Interstellar Experience”. Esse segundo petardo impulsionou a popularidade do conjunto a ponto de a crítica alemã apontar o Assassin como uma das cinco maiores promessas do Thrash Metal do país.
No entanto, uma reviravolta trágica e abrupta interrompeu o auge criativo da banda em 1989. Enquanto os integrantes planejavam os próximos passos e colhiam os frutos do sucesso recente, criminosos roubaram todo o equipamento dos caras, incluindo instrumentos, amplificadores e periféricos. Por serem jovens trabalhadores de classe operária no underground, os músicos não tinham recursos financeiros para comprar novos equipamentos e reestruturar a banda do zero. Frustrados com o golpe do destino e sem perspectivas financeiras, eles decidiram encerrar as atividades naquele mesmo ano. Esse hiato forçado durou até 2002, ano em que os membros finalmente se reuniram, embora o terceiro álbum de estúdio, “Breaking the Silence”, só tenha visto a luz do dia em 2011.
Detrás da cortina de som: a ficha técnica e os hinos do caos
Para além da energia caótica das composições, o primor técnico nos bastidores também pavimentou a reputação de “The Upcoming Terror”. No icônico Karo Musikstudio, em Münster, o renomado produtor Kalle Trapp comandou a gravação, a mixagem e a produção do disco, extraindo aquela crueza visceral das guitarras. Enquanto isso, o engenheiro de som Uwe Ziegler capturou com precisão o ataque cortante de cada instrumento. Logo em seguida, a especialista Christa Brüggemann assumiu a masterização fina do vinil nos lendários estúdios da SST, garantindo o peso esmagador nas frequências do Thrash. Visualmente, a parceria artística entre Paul R. Alexander e a Agentur T. Schluck concebeu a icônica pintura da capa — aquela mesma arte amarela que desafiou os meus velhos preconceitos de vestuário e mudou as regras do meu guarda-roupa.
Sob essa engenharia sonora precisa, a banda disparou clássicos imediatos que se tornaram verdadeiros hinos do underground germânico. Faixas devastadoras como a abertura com “Forbidden Reality”, a rítmica sufocante de “Nemesis” e a velocidade insana do clássico homônimo “Assassin” rapidamente ditaram o ritmo dos mosh pits ao redor do globo. No entanto, a emblemática e combativa “Fight (To Stop The Tyranny)” coroou-se como o maior trunfo do álbum, impulsionando a agressividade que definia aquela juventude contestadora.
O impacto das músicas ao vivo
Décadas mais tarde, a força avassaladora dessas mesmas músicas rompeu a barreira do tempo e cruzou o oceano. O reencontro definitivo com esses hinos históricos aconteceu quando o Assassin pisou no palco da 15ª edição do prestigiado festival Setembro Negro, no Carioca Club, em São Paulo. Naquela noite de domingo, testemunhei de perto a lenda alemã entregar a exata energia agressiva que eu sentia ao ouvir o disco em formato físico.
O festival ocorreu nos dias 8, 9, 10 de outubro de 2023 – Pré-Festa no dia 7. O tanque dourado germânico soltou seu bombardeio musical no exato dia 10, sendo a antepenúltima atração. A banda antecedeu o Cancer, ícone do Death Metal inglês, e o Triumph of Death, projeto do lendário Tom Warrior, a qual toca músicas do Hellhammer e do Celtic Frost, sendo a última em menor escala.
Setlist variado: faixas do debut tocadas no Setembro Negro
Indo direto ao ponto, os representantes de Düsseldorf subiram ao palco às 18:40h. Surpreendendo zero pessoas, estava eu com a minha camiseta amarela do “The Upcoming Terror” pronto para entrar na dança. Do álbum amarelo, abriram as rodas com “Fight (To Stop the Tyranny)”, mas não focaram apenas no primeiro trabalho de estúdio. A banda buscou mesclar o material antigo com o atual, o que acabou unindo forças em relação ao público presente.
“The Last Man” também fez o público vibrar e incendiou o Carioca Club. Assim sendo, o momento para que o mosh se tornasse um verdadeiro redemoinho. Da formação original, somente o guitarrista Scholli esteve presente no show e também é o único membro original a figurar na banda até então. Porém, isso não reduziu o impacto da apresentação. Além dessa curiosidade, as outras músicas podem ser conferidas através da resenha feita para os 4 dias do Setembro Negro. São quatro resenhas em separado.
Confesso que faltaram duas músicas sensacionais no set, como “Bullets” e “Nemesis”, ambas de “The Upcoming Terror”. Todavia, o show não era sobre um disco apenas e a banda também vinha de lançamento recente.
Exaltando os mísseis mais destruidores da clássica obra
Agora, sobre as músicas contidas no disco, sem incluir o impacto de ouvi-las ao vivo, digo que “Forbidden Reality” é uma faixa digna de grande abertura. Possui uma intro misteriosa e depois surge de forma vagarosa, para a partir de então, ganhar mais corpo e mais embalo. Disparos são feitos durante o andamento repleto de dedilhados que obedecem a movimentação de toda estrutura. Em seguida, os vocais ácidos surgem e se unem aos riffs cortantes em meio às marteladas velozes de bateria. De repente, você se vê enroscado em solos no formato de arame farpado, que passam pela sua pobre garganta com ímpeto e rapidez. O repique na caixa é fator primordial e ajuda a destacar a linha diferenciada do baterista Psycho. Por fim, a última passagem recupera a cadência inicial proposital.
“Nemesis” se apresenta de forma mais agressiva e sem escrúpulos. A bateria tritura o ambiente enquanto as guitarras rosnam como um Cerberus faminto. As mudanças de andamento são providenciais e mostram a verdadeira técnica dos músicos envolvidos na trama. Alavancadas em meio a solos vertiginosos ditam o ritmo afiado e serrilhado da faixa.
“Fight (To Stop the Tyranny)” tem cara de abertura, mesmo sendo mais direta ao ponto do que a verdadeira faixa que abre o disco. O refrão possui força para ser cantado em uníssono, e o arrasto que a faixa carrega é ideal para valsas intensas, com intervalos para mais insanidade. Os riffs velozes contribuem para uma sequência de chicotadas na alma em forma de solos — cortesia dos guitarristas thrashers Scholli e Dinko.
Toneladas de aço puro
“The Last Man” traz aquele riff de preparo para os próximos segundos de espancamento sonoro. Chamem a polícia, pois o ato arruaceiro já começou de novo! A bateria trepidante, com um toque especial de Speed Metal à la “Kill ‘Em All” (1983) do Metallica, mostra-se evidente e irreverente. Lulle torna o seu baixo uma verdadeira máquina de demolir casas, trazendo muito mais peso e sustentação, além da técnica necessária nos momentos-chave do som. Por ser a música mais longa do disco, com quase sete minutos de duração, ela possui mais camadas de solos: vai dos mais afiados como injeções diretas, até os mais melódicos e os trechos mais “fritados”, no melhor estilo dos formatos. Em suma, são os melhores solos de guitarra do álbum.
Esta valeria — e muito — ter visto ao vivo, com direito a intro de bateria que vai num crescendo até pegar fogo! Falo da própria “Bullets”, uma das músicas mais incríveis do Assassin e do Thrash Metal como um todo. O ritmo frenético favorece um andamento alucinado dos instrumentos e pede vocais mais esganiçados, entregues com maestria por Robert. Solos com a receita do Iron Maiden ajudam a moldar os caminhos da música, porém sem tirá-la da rota tradicional. Contudo, os riffs incendiários retomam o seu posto, e o trecho final fecha a conta como em um modelo de show.
Uma apoteose que merece ser reverenciada
Eu poderia encerrar por aqui, mas o arranque da faixa instrumental “Speed of Light” me empolga a ponto de citá-la também. A música honra o nome com o qual foi batizada e deixa o ouvinte ávido por muito mais. O Assassin une o Speed ao Thrash Metal, oferecendo passagens diretas e cíclicas — padrão do Speed —, enquanto, nas emendas da parede sonora, encara os desafios das quebras de tempo e dos riffs que clamam por mais mosh.
Os solos ensaiam uma coligação entre esses dois mundos, tornando a composição ainda mais avassaladora do que o normal. Além disso, por se tratar de um som puramente instrumental, a banda opta por acrescentar mais solos e riffs diferenciados para fechar a obra de forma amplamente digna.
Considerações aterrorizantes finais
Felizmente, o médio alcance de “The Upcoming Terror” garantiu as condições necessárias de retorno, inspirando a banda a continuar compondo novas músicas. Agora, sobre o debut em específico, devo mencionar que a concorrência foi muito feroz, o que torna o feito ainda maior do que aparenta.
A cor amarela caiu como uma luva para este disco e ajudou a colocá-lo em um patamar que talvez ninguém jamais imaginasse. Dentro do Teutonic Thrash Metal, este é um clássico absoluto do estilo, capaz de bater de frente com muitas joias mais conhecidas e comentadas por aí. O Assassin não criou regras sobre como se vestir, mas “The Upcoming Terror” é o álbum ideal para você dar uma folga às suas camisetas pretas tradicionais e vestir, sem medo, o “amarelo tanque de guerra”.
Observações:
O Assassin lançou em 2011 uma compilação dupla intitulada “Chronicles of Resistance”, a qual inclui os dois primeiros álbuns da banda alemã. Além disso, foram incluídos bonus tracks em ambos os CDs.
“O que levou ao último suspiro do mundo
O fogo controla nosso mundo até o fim
Lute, levante-se se não tiver medo
Diga a eles que as pessoas estão mortasA radioatividade impiedosa se espalhou muito rápido
A pele queimada torna a dor uma tortura, todos ficam cegos
Não se sente mais calor nem frio, é tão estranho
Ouça os gritos desesperados das pessoas, é tarde demais”
Nota: 9,5
Integrantes:
- Robert Gonnella (vocal)
- Jürgen “Scholli” Scholz (guitarra)
- Dinko Vekić (guitarra)
- Markus “Lulle” Ludwig (baixo)
- Andreas “Psycho” Süther (bateria)
Faixas:
- Forbidden Reality
- Nemesis
- Fight (to Stop the Tyranny)
- The Last Man
- Assassin
- Holy Terror
- Bullets
- Speed of Light