Children Of The Beast: manifestação pró-Flávio Bolsonaro durante show provoca reclamação de apresentador

Em meio à intensa polarização política provocada pelas eleições presidenciais brasileiras, diversos músicos ligados ao Rock e ao Heavy Metal têm utilizado suas redes sociais para declarar publicamente suas preferências eleitorais. A maior parte das manifestações de destaque no meio do Metal tem sido favorável ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputa a reeleição contra Flávio Bolsonaro (PL). Enquanto algumas declarações acontecem de maneira tranquila, outras apresentam um tom consideravelmente mais agressivo, refletindo um ambiente no qual até mesmo a decisão de não revelar o voto passou a provocar cobranças e ataques.
Nomes como Andreas Kisser, Max Cavalera, Iggor Cavalera, João Gordo, Pedro Poney e Fernanda Lira, entre tantos outros, manifestaram apoio ao candidato petista. Entretanto, neste sábado, 24 de outubro, véspera do segundo turno, um episódio envolvendo a Children Of The Beast, banda brasileira reconhecida como cover oficial do Iron Maiden na América Latina, trouxe uma situação diferente para o debate. Durante uma apresentação no Rooftop da Galeria do Rock, em São Paulo, integrantes do grupo fizeram uma referência favorável a Flávio Bolsonaro.
O episódio ganhou repercussão após um dos apresentadores do canal de YouTube Tomar Uma gravar um vídeo relatando o ocorrido em tom de protesto. Segundo ele, a organização havia solicitado que retirasse adesivos de campanha de Lula antes do espetáculo, mas dois músicos fizeram uma manifestação eleitoral durante a execução de “22 Acacia Avenue”, clássico do Iron Maiden lançado no álbum The Number Of The Beast (1982). A referência ao número 22, utilizado por Flávio Bolsonaro nas urnas, teria sido enfatizada especialmente pelo guitarrista responsável por representar Dave Murray no tributo.
Apresentador do Tomar Uma relata o incidente
Em seu vídeo, o apresentador Rafael Araújo começou elogiando a apresentação e ressaltando o tratamento recebido de Thomas, identificado por ele como empresário da Children Of The Beast. Entretanto, também questionou a diferença entre as orientações dadas ao público e o comportamento dos músicos no palco.
Confira a transcrição integral do relato:
“O show da Children Of The Beast aqui no Rooftop da Galeria do Rock foi sensacional, mas houve um incidente aqui que eu preciso relatar. Primeiramente, eu quero ressaltar a educação e a gentileza do empresário da Children Of The Beast, Thomas. Eu vim aqui pra Galeria do Rock com minha mulher e eu tava aqui com dois adesivos de Lula, e ela também.
Ele prontamente percebeu e disse: ‘Olha, a gente aqui tá pedindo gentilmente pra que não tenham manifestações políticas e a gente tá pedindo que vocês retirem os adesivos.’
Eu concordei. Eu disse: ‘Velho, tranquilo. Isso aí eu concordo plenamente.’ Tirei meus dois adesivos, ela tirou o dela e beleza. O show transcorreu normalmente, até que chegou na música ’22 Acacia Avenue’. E dois membros da banda ressaltaram que esse seria o número pra votar amanhã, no domingo.
A gente tá no sábado, véspera do segundo turno das eleições presidenciais, e principalmente o guitarrista que faz o papel de Dave Murray. Ele enfatizou muito.
Aí, prontamente, eu cheguei pra Thomas e falei: ‘Thomas, velho, eu cheguei aqui, tu pediu pra tirar os adesivos e tal…’. Aí Thomas me mostrou o celular dele dizendo para a banda não fazer manifestações políticas, porque isso não reflete o posicionamento da banda.
Aí eu disse pra Thomas: ‘Mas olha, eu vou ter que fazer um vídeo falando sobre isso.’ Ele agradeceu por eu ter avisado a ele, mas é isso, o empresário disse que a banda não tem posicionamento político, mas houve esta manifestação hoje aqui no Rooftop da Galeria do Rock.”
A manifestação política foi legítima? E a postura da organização?
Não vamos nos furtar de opinar a respeito. Pelo relato apresentado, entendemos que existia algum tipo de orientação do empresário para evitar manifestações políticas durante o evento. Isso explicaria o pedido para que o apresentador e sua esposa retirassem os adesivos de campanha antes do show.
Entretanto, existe uma diferença entre aquilo que a organização estabelece e as decisões individuais dos artistas no momento em que estão no palco. Por mais que um empresário procure alinhar determinadas condutas com seus músicos, dificilmente conseguirá controlar o que dizem ou fazem durante um espetáculo.
Nesse sentido, entendemos o desconforto do espectador. Afinal, solicitar que integrantes do público retirem manifestações eleitorais e, posteriormente, presenciar algo semelhante durante a apresentação pode transmitir uma sensação de incoerência.
Mas isso não torna a manifestação da Children Of The Beast menos legítima.
Se músicos como Max Cavalera, Andreas Kisser, João Gordo e tantos outros podem utilizar sua visibilidade para declarar apoio a Lula, por qual motivo integrantes da Children Of The Beast não poderiam fazer o mesmo em relação a Flávio Bolsonaro?
O Mundo Metal mantém sua postura crítica em relação à associação direta entre músicos de Rock e Heavy Metal e campanhas eleitorais. Entendemos que esse envolvimento contrasta com o espírito contestador e antissistema historicamente presente nesses estilos. Entretanto, reconhecer essa contradição não significa defender qualquer tipo de restrição à liberdade de manifestação dos artistas.
Muito pelo contrário. O direito de expressão precisa valer para todos.
Cabe aos fãs decidir como recebem essas manifestações, assim como cabe aos músicos avaliar se desejam utilizar seus shows para expressar preferências eleitorais, mesmo que isso possa sacrificar uma parcela significativa do público.
Se a liberdade de expressão é defendida apenas quando determinada mensagem coincide com nossas preferências ideológicas, já não estamos falando de liberdade, mas da exigência de que todos sigam uma mesma cartilha.
E isso, sim, estaria na absoluta contramão do espírito contestador do Rock!