Cancelamento no Rock/Metal funciona?

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Se pensarmos no universo do Rock/Metal como uma subdivisão da nossa sociedade, perceberemos que dentro deste nicho encontra-se um micro-universo que apresenta basicamente os mesmos problemas estruturais do universo macro. Sou do tempo que roqueiros e headbangers consideravam-se pessoas mais inteligentes, mais “cabeça” e orgulhavam-se de estar fora da bolha do senso comum. Obviamente, este pensamento não tem consistência e o fã de Rock/Metal está tão atolado nas mazelas que afligem nossa sociedade quanto qualquer pessoa que ouça outros estilos musicais. Escutar determinado gênero de música não fará de ninguém um ser humano mais apto, mais astuto, com maior conhecimento ou capaz de fazer uma leitura mais abrangente do cenário externo. Fatalmente, você conseguirá tudo isso se dedicando, estudando muito e se aprofundando em temas relevantes. Ouvir música é apenas um hobby, uma distração, é lazer puro e simples. Ninguém será um especialista em história por que decorou a letra de “Alexander The Great”, do Iron Maiden, ninguém se tornará um ocultista nível Aleister Crowley por que ouve discos do Cradle Of Filth e tampouco, nenhum roqueiro será capaz de fazer análises político-sociais abrangentes por que resolveu conhecer as letras do Megadeth e do Kreator.

Pode parecer um pensamento bastante simples e de fácil assimilação, mas headbangers ainda se sentem seres superiores e iluminados pelo fato de ouvir Heavy Metal. E convenhamos, não são! Como em toda a nossa sociedade, o nicho voltado ao Rock e Heavy Metal também sofreu uma polarização político-ideológica jamais vista e os tais “seres superiores” autointitulados demonstraram ser tão patéticos quanto qualquer outra pessoa que se permite ser tocada como gado em meio a manada. Trataram a política da mesma forma que tratam um jogo de futebol, escolheram times e passaram a torcer por esse time, não se empenharam em estudar o assunto a fundo, querem opinar sem ter conhecimento adequado e o pior, acreditam nos chavões manjados que repetem. É claro que ambientes antes usados para trocar conhecimento sobre música, conversar sobre trivialidades, fazer novas amizades e dar muitas risadas, se transformaram em ringues ideológicos. Todos odeiam todos e a segregação atingiu níveis inimagináveis.

Traduzindo: essa galera está transformando o cenário Rock e Metal em algo muito chato e brochante.

Depois da rinha de galo entre esquerda e direita, depois do famigerado politicamente correto, depois dos blackmetallers “bonzinhos e engajados”, depois do inacreditável discurso de “as letras são mais importantes que o som”, depois da cartilha de regras do real headbanger, a onda do momento na lacrosfera metálica é a cultura do cancelamento.

Mas o que diabos é isso?

Basicamente, o conceito por trás do tal cancelamento consiste em boicotar e/ou pressionar aqueles que ousarem agir de modo a ir contra alguma pauta defendida pela agenda ideológica de algum grupelho militante. Na prática e principalmente aqui no Brasil, tem funcionado como uma forma de prejudicar financeiramente alguém que realiza um trabalho relevante, mas que não se submete à cartilha dessa turma. Funciona mais ou menos assim: eu faço algo bem feito e isso te incomoda, mas como você não tem capacidade de fazer algo melhor, você se junta com uma turma de pessoas igualmente incompetentes, me acusa de algo (na maioria das vezes de forma leviana ou infundada) e tenta me boicotar. Em tempos onde muito se discute sobre censura, esta é nitidamente uma forma de censurar todas as pessoas que não pensarem de acordo com as “normas” do politicamente correto.

Mas afinal de contas, isso funciona?

Sim e não!

Pode-se dizer que funciona quando esse cancelamento é aplicado dentro de uma “bolha”. Exemplo: o ator Johnny Depp foi cancelado e perdeu alguns papéis importantes, além de alguns contratos de publicidade. O cancelamento aconteceu por que o ator foi acusado de agredir sua ex, esposa, a atriz Amber Heard. Apesar do caso ter sido repleto de idas e vindas, trocas de acusações por ambos os lados e uma cobertura midiática absolutamente sensacionalista, foi um caso onde não houve testemunhas. Foi basicamente a palavra de um contra o outro e ambos conseguiram produzir provas contra si próprios. Conseguiu-se concluir que a relação era muito conturbada e os dois brigavam muito, há áudios que incriminam Depp e áudios que embasam a defesa dele. Para resumir, é um caso que apresenta duas versões distintas e nenhuma destas versões é conclusiva. Mas mesmo assim Depp foi cancelado, afinal, ser um “agressor de mulheres” é algo intolerável para a patrulha do politicamente correto.

“Oras, mas se é um caso inconclusivo, por que ele foi cancelado? E O que tem a ver o caso do Depp com o Rock e o Metal?”

Vou sanar todas essas dúvidas agora, combinado? 1) É inconclusivo por que existem duas versões diferentes da mesma história, mas para a turminha da lacração, Depp é culpado e fim de papo. Por que? Por que eles querem que seja. A patrulha do cancelamento não quer a justiça, quer o cancelamento, simples assim. 2) Eu mencionei este caso para mostrar que o cancelamento funciona desde que seja dentro de uma bolha. Depp foi cancelado dentro da bolha hollywoodyana. Ele perdeu papéis e alguns contratos de publicidade relacionados a sua profissão como ator. Ponto. Mas os seus trabalhos, por exemplo, com a banda Hollywood Vampires não foram afetados. E não foram por que a banda se encontra fora da bolha hollywoodyana, entenderam?

Ok, mas o cancelamento funciona dentro do Rock e Metal?

Sendo sucinto: Não! Não funciona, nunca funcionou e jamais funcionará!

Por que? Porque dentro do Rock e Metal não existe uma única bolha unida em prol de pautas politicamente corretas. Como já foi bem destacado no início do texto, este nicho está polarizado e subdivido em grupos, portanto a turma do politicamente correto não tem a força necessária para cancelar efetivamente um artista. Não formam maioria e ao contrário disso, tem atraído o ranço da maioria.

“Como não funciona? O Iced Earth perdeu contrato com a Century Media! O Marilyn Manson perdeu empresário e a gravadora chutou ele!”

Como diz o ditado, quem está na chuva é para se molhar e, sim, explicarei tudo, como diria um comediante de outrora, “nos mínimos detalhes”. No caso do Iced Earth, a Century Media, digamos, se aproveitou da situação para fazer um marketing em cima do assunto do momento, mas já foi amplamente divulgado que o contrato entre banda e gravadora tinha praticamente encerrado quando retiraram o nome do grupo do cast e os produtos do site. Aliás, há uma entrevista de Jon Schaffer datada do final do ano passado, onde ele diz abertamente que não iria renovar o contrato com a gravadora por que não estava totalmente satisfeito com o suporte que era dado para a banda. Sendo assim, foi bastante “oportuna” a atitude da Century Media. Sabiam que não teriam mais a banda em seu cast e resolveram dar uma “lacrada”. A pergunta de um milhão de dólares é: Teriam feito o mesmo com uma banda do tamanho do Iron Maiden? Vou mais além, se o Iced Earth tivesse renovado o contrato por mais dez anos, será que a atitude teria sido essa? Fica o questionamento e os amigos leitores tem a liberdade para chegar as conclusões que acharem mais cabíveis.

Sobre o cancelamento em si, é muito fácil cancelar um cara que está preso. Mas esse linchamento virtual funcionou? Sinceramente? Não! Alguns poucos fãs militantes disseram que não ouviriam mais os álbuns da banda, mas quantos novos seguidores eles conseguiram com toda essa exposição midiática? Vou falar por mim, desde que a loja Mundo Metal foi inaugurada, nunca havia vendido um CD do Iced Earth. Na semana dos acontecimentos no capitólio dos EUA e com o posterior “cancelamento” de Jon Schaffer, posso garantir que foram muitos os CDs e canecas temáticas vendidos.

No caso de Marilyn Manson é um pouco mais complicado, ele realmente perdeu o empresário e a gravadora o dispensou. Sendo assim, o cancelamento funcionou? Vamos analisar.

Sim, ele perdeu dinheiro com a dispensa da gravadora, em contrapartida foi divulgado ontem, 10 de fevereiro, que com a ampla exposição do caso de abuso ao qual ele é acusado, aumentaram significantemente as vendas de produtos relacionados ao artista e há muito mais pessoas ouvindo suas músicas nas plataformas de streaming nos últimos dias, ou seja, a exposição está chamando a atenção para que mais pessoas ouçam a música do artista “cancelado”.

Vamos seguir com o raciocínio, até porquê este é um caso em aberto e pode ter diversos desdobramentos. Se Manson for condenado e preso por abuso, ainda assim, ele terá uma base de fãs que continuará o seguindo. E não, não é exagero, até porque nós temos diversos exemplos de artistas execráveis que foram presos por crimes hediondos e ainda assim, continuam tendo fãs. Varg Vikernes tem uma base de fãs sólida e até mesmo o lunático/assassino Charles Manson tinha… Agora, digamos que essa fumaça toda feita em cima do caso seja apenas fumaça, digamos que daqui algumas semanas a mídia não mais foque neste assunto por que estará ocupada com o novo assunto do momento, digamos que essas acusações não deem em nada. Vocês acham que Manson sai prejudicado ou fortalecido com a situação?

A gravadora que o dispensou, dispensou junto com ele uma legião de fãs que o seguem. Um artista com a expressividade de Manson, que vende a quantidade de discos que ele vende e lota arenas como ele lota, ficará sem gravadora por quanto tempo? Pensem! Quem perdeu dinheiro com esse cancelamento, o artista ou a gravadora? Se Manson for preso, pode até ser que a gravadora tenha feito um bom negócio, mas não há qualquer indício de que isso irá realmente ocorrer e em qualquer outra situação o tiro no pé terá sido grande. Já Manson, se for julgado e condenado, pagará por seus crimes recebendo royalties volumosos, mas se isso não acontecer, o cara terá no mínimo umas dez gravadoras grandes batendo na sua porta querendo um contrato.

Vamos mais além ainda, vamos voltar ao fatídico episódio protagonizado por Phil Anselmo em 2016, onde o ex, vocalista do Pantera fez uma saudação nazista e depois gritou “White Power” em cima de um palco. O cara foi trucidado na internet, foi cancelado por direita e esquerda. O que aconteceu com ele? NADA! Sofreu boicote em algum festival na época onde o Down foi impossibilitado de tocar, depois gravou um vídeo pedindo desculpas e fim. Por mais que alguns poucos militantes que realmente praticam o que pregam (coisa rara!) tenham parado de consumir material das bandas as quais Phil fez/faz parte, o cara segue com seus contratos intactos, continua gravando discos, vendendo seus produtos e tocando mundo afora. Vários indivíduos que o cancelaram na época, depois pagaram para ver o show do cara tocando os clássicos do Pantera.

Agora me diga, como é que esse tal cancelamento pode ser considerado algo funcional?

Não é, nunca foi e nunca será. Aqui no Mundo Metal… quantas vezes tentaram nos cancelar? Várias! E quantas vezes esse pessoal foi realmente bem sucedido? NENHUMA! Muito pelo contrário, em todas as vezes que nos “cancelaram” nós crescemos e ganhamos mais público.

“Mas então me explica de uma vez por todas. Por que dentro do Rock e do Metal acontece esse efeito contrário e os cancelados acabam se beneficiando com o cancelamento?”

Simples! Porque o Rock jamais será uma ferramenta do politicamente correto. Porque os fãs de maneira geral não compactuam com isso. Porque ninguém, além dos pulhas pertencentes as patrulhas de pensamento, suporta essa tal cultura do cancelamento. Sabe o que essa galera tem conseguido fazer com bastante eficácia? Aumentar o público dos artistas que detestam, dando visibilidade e exposição massiva a eles. Todos nós sabemos que o marketing negativo é tão eficiente quanto o positivo. É mais do que comprovado que o maior castigo para um artista se chama OSTRACISMO. Quem não é visto não é lembrado. Parar de falar, parar de ouvir, não dar audiência e, consequentemente, diminuir a visibilidade até que esta personalidade seja esquecida é o maior dos cancelamentos. O que a cultura do cancelamento faz é exatamente o oposto disso. Durante os últimos dez dias, Marilyn Manson é noticiado dia e noite sem parar em basicamente todos os sites de Rock do mundo. Vocês acham mesmo que estão cancelando o cara? Vocês estão o promovendo!

Parabéns pela BURRICE!

Redigido por Fabio Reis

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