Blasfemador – “Cosmofobia” (2021)

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Por mais incrível que pareça, o público que se diz fã de Metal, não conhece tão bem outras áreas habitadas pelo estilo, geograficamente falando. Quando a coisa toma proporções que estendem as linhas do horizonte e atravessam os caminhos do sudeste do país, dá a entender que a visão desse mesmo público fica turva, no mínimo. É só ver a audiência que é captada por bandas de potencial amplo, mas que não pertencem aos locais mais tradicionais dessa vasta e fértil terra. A famosa “cena”, como costumam se referir a qualquer movimento pequeno e quase irrelevante, é sempre distorcida e destacada nos momentos errados, muito por conta do público que não comparece, que não pesquisa, que não quer saber de informações e muito menos bandas novas. E nem sempre tão novas assim, pois muitas delas estão na estrada anos a fio e devido a ausência desse público, fica parecendo que a banda é realmente nova e está iniciando na parada. E qual o motivo de estarmos abordando o público ao invés do disco a ser resenhado? Simples! Pois, esta banda pertence ao que carinhosamente chamamos de “bueiro”.

O Blasfemador é aquela típica banda que gosta e pratica o som ríspido, sujo, podre e bastante visceral, de modo a seguir o mapa da mina deixado por Venom, Celtic Frost, Sodom e Kreator (nos primeiros discos), só para citar algumas pontas da rosa-dos-ventos de tal inspiração. O som pode confundir as cabeças das pessoas ao tentarem associar a alguma sub vertente, pois estas bandas não ligam muito para isso e despejam toda a sua fúria em prol do Metal sujo e corrompido por natureza. Seja Speed, Black / Speed, Black / Thrash, ou algo ainda mais nefasto, esse tipo de banda está por aí em algum bueiro tocando o terror.

Divulgação

Da magnífica Fortaleza, Ceará, para todo o território do Metal, o Blasfemador iniciou suas atividades no ano de 2008, mas somente um ano depois é que veio o seu primeiro registro oficial, a demo tape “Ataque do Metal Maníaco”, mostrando que a banda se interessava pelo nosso dialeto local. No ano seguinte veio a primeira bolacha completa e recheada, “A Meia Noite Levarei Tua Alma”, álbum excelente para quem gosta de um bom aperitivo assado no fogo do inferno. Quatro anos se passaram e veio o EP “Na Trilha dos Senhores do Horror”, dando sequência ao propósito em prol dos ecos da caverna. E após o lançamento dos singles, a banda cearense está agora neste ano apresentando ao nobre apreciador de “múzga” cortante e empoeirada, seu segundo full length, “Cosmofobia”, via Mutilation Productions, e que foi lançado de forma oficial no dia 25 de março. Com tantos lançamentos (o Metal está mais vivo do que nunca!) diários, a disputa se torna cada vez melhor e não há espaço para reclamar sobre falta de novidade. Informação, bandas e discos têm de sobra ano após ano. O álbum foi gravado e mixado no Burning Studio, de Jairo Alexandre. A capa possui a assinatura do artista Anderson Green Devil da Green Devil Artwork.

São dez faixas que passarão por esta escrita e que, se passarem no teste de amolar faca, será mais um disco realmente cortante como um esmeril ou uma espada bastante afiada. Sem mais delongas, vamos mostrar a esse público que existe Metal em todo o território do Brasil!

“Re-animator” é a faixa que abre o disco e traz um dos temas de lendário escritor H. P. Lovecraft, contendo a figura do Dr. Herbert West, que faz diversas experiências em cadáveres, tentando trazê-los de volta à vida. Do nome original, “Herbert West – Reanimator”, é um conto de terror escrito entre outubro de 1921 e junho de 1922. A introdução apresenta o ladro sinistro do tema, entrando em ebulição ao tocar de cada nota. Um dedilhado de respeito que distorce ao dar lugar para as guitarras flamejantes, prometendo por fogo em todo o cenário. Fica clara a proposta de um Speed Metal cru e bem direto. Você tem problemas com letras em português? Vá se tratar, então! O Blasfemador mostra a quem ouvir que o que vale é conseguir encaixar o tom certo entre verso e riff. E não existe clichê por aqui, pois está sendo contada uma história de fato. Fique com o excelente refrão que antecede o solo assinado por Igor Shredder:

“Como abutres em busca de corpos
Espécimes frescos, perfeitos estranhos
Adormecidos em sono sem sonhos
Reanimados do eterno não ser”

Os vocais de Fabrício Maleficarum engrossam o caldo da maldade sonora e faz com que as cortinas abertas para o espetáculo virem cinzas após entrarem em chamas. Não há segredo e a temática contribui para o sucesso, vide a capa que entrega todo o cenário de forma inteligente e perspicaz. Sem segredo algum, “Fome Animal” se baseia no filme de terror de mesmo nome, lançado em 1992. A fome insaciável acompanha riff a riff até encontrar a sua presa fatal. O refrão apresenta o ilustre convidado James MacBain, que é vocalista da banda escocesa Hellriper. A combinação trouxe mais energia para a canção, que por sua vez, ataca com uma tirania bastante pesada e esbanja vigor, além da técnica ao dominar solos de guitarra e viradas insanas de bateria, cortesia do batera Romário Bruxo, mistura do mítico baixinho artilheiro com Ronaldinho Gaúcho, uma breve brincadeira com o pseudônimo do rei das baquetas, pedais e bumbos por aqui.

A introdução de bateria com o baixo (parceria entre o baixista Lucas Herege e o baterista Romário Bruxo) vindo na sequência emula os primeiros metros percorridos ao ligar os motores do calhambeque veloz. “Terror Extraterreno” invade o cosmos e traz um inimigo externo da Terra, destacando uma possível invasão alienígena. Toda a sonzeira que soa mais extrema que suas antecessoras, coloca em primeiro plano o ex-guitarrista Rafael Dilacerador, que deixou esta faixa antes de sair da banda. O final traz uma breve passagem que simula uma nave de extraterrestres. A quarta faixa atende por “Epidemia, Fome e Morticínio”, e apareceu anteriormente no EP “Na Trilha dos Senhores do Horror” de 2014, e provavelmente, por descrever muito bem o momento crítico atual vivenciado por todos, acabou recebendo uma nova versão para ser introduzida na tracklist de “Cosmofobia”. A regravação funcionou muito bem e deixou a música ainda mais impetuosa e lacerante, mantendo a espinha do Speed bastante sólida e eficiente. “Epidemia transformando em zumbis / A raça contaminada, mutação dos seres humanos / Destruição da era da paz / Sem futuro, sem sobreviventes a força do caos” – em diversos momentos, seja por doença ou por algum outro tipo de problema global, deixou boa parte da população em frangalhos. E para deixar tudo ainda mais impactante, outro grande convidado foi convocado para participar da festa maquiavélica do Blasfemador. Falo de Olof Wikstrand (não confundir com a bebida Orloff), vocalista da banda sueca Enforcer, uma das grandes revelações dos últimos anos dentro da nova geração do Heavy Metal. Ele foi convidado para fazer uma breve participação, na qual ele canta um trecho em português, o que é ainda mais legal!

Existe uma forma melhor de recrutar demônios do que com um belo hino regado a muita cerveja, churrasco e crânios esmagados no chão? A receita essencial para isso está em “Blasfemador Recrutando Demônios“, música perfeita para bailar com sua amada diabrete de longas madeixas cinzentas e chifres pontiagudos. “O Speed Metal domina sua mente / Ele não tem compaixão / Cerveja gelada e cigarro a queimar / Cabeças explodindo no chão” – a receita está dada, restando a você preparar a sua festança para aterrorizar a sua vizinhança. Em sexto lugar nas paradas de sucesso do submundo aparece “A Filha das Trevas”, faixa esta que retrata a história de uma garota que chega a um convento após a morte de seus pais e se introduz no mundo sobrenatural, participando de rituais, orgias e possessões diabólicas, espalhando o caos e o terror bem debaixo dos olhos de deus e seus servos. Tanto que a canção inicia com o ritual, dando o merecido tom pútrido e amedrontador, caso aumente o som para realmente assustar os moradores próximo a você. Quando os riffs surgem a caldeira esquenta e aguarda a próxima vítima da sacristia. Arremessando chamas em todo o convento, a criança amaldiçoada pela magia diabólica espalha as chamas do fogo negro infernal e absoluto por toda a extensão de sua audição. Mais uma daquelas canções para brindar e festejar pelo anti-divino diante de uma seita de tirar o fôlego, tamanha a crueldade e devastação sonora causada pelo nobre Blasfemador. Não é à toa que esta ganhou um videoclipe, contendo trechos da película “Alucarda, A Filha das Trevas”, de 1977. A canção originalmente pertence ao single “Ódio, Caos e Distorção” (2019) e em comparação à sua primeira versão, esta ganhou uma encorpada boa e o equilíbrio certo entre instrumentação e vocais, tornando-a mais intensa e versátil, sendo merecida a menção dos responsáveis pela masterização e mixagem do álbum, David Barroso e Victor Prospero.

“A Filha Das Trevas” videoclipe

“Iconoclasta” repete a fórmula tradicional contida em muitos discos de Speed “sujão” brasileiro somada à letra bastante direta e que condiz com o assunto, além de mais um convidado participando do ato, João Esteves, o Jão, guitarrista do Ratos de Porão, nos vocais. “Seguindo sem mestres, sem deuses / Destruindo regras e leis / Sou uma força que tudo destrói / A nova espécie de anti-herói.” Que tal um pouco mais? “Iconoclasta! / Riff assassino, letra nefasta”. Em seguida temos o interlúdio, que retrata o chamado da famosa criatura Cthulhu (Túlio Maravilha, para os mais íntimos), a besta botafoguense do apocalipse do universo cósmico de H.P. Lovecraft (esqueça o “botafoguense” se não entender sobre o esporte bretão). O nome dela é “O Despertar da Besta”; simples, notório e direto. O chamado foi feito e o “Mal Ancestral” despertou para a completa insanidade da humanidade. De acordo com o criador da obra, Cthullu representa o mal tão ancestral e devastador que vislumbrá-lo levaria qualquer humano às raias da insanidade, ou seja, é como Caim para os vampiros. Esta faixa traz um pouco de Black/Thrash para a lista de maldades sonoras da banda. Os vocais de Fabrício Maleficarum sempre tendem para este lado da moeda, mas o Speed prevalece, representando a alma do que vem a ser o Blasfemador. Cthullu chega descendo o porrete nos posers que infestam os sete mares da consciência que deixa de ser sã a partir de então, se é que foi sã de verdade algum dia. São apenas almas que vagam no astral, escravos do Mal Ancestral.

Fechando as portas da espelunca, temos que pegar a estrada, mas não uma estrada comum, e sim a “Estrada da Fúria”. A fúria contida nos instrumentos é solta antes de completar 1 minuto. O ritmo imposto pela banda funciona como se fosse uma espécie de bis em um show, quando a banda sai de cena e retorna para tocar mais uma ou mais músicas antes de fechar o espetáculo. Com um ar de Motörhead nos acordes mais agudos e nos solos, a canção encerra a nova obra giratória e incinera tudo o que vê pela frente, causando um estrondo por conta do motor do calhambeque explosivo. O que pode ser dito sobre um disco bastante competente em sua proposta é que ele não veio para ser a revolução do Metal nem nada disso, e nem deveria ser assim, O Metal não precisa disso, ainda mais o Metal feito aqui no Brasil. A ideia é ser original dentro do seu ideal em forma de música, e o que pode ser visto em “Cosmofobia”, é algo realmente voltado para as camadas do underground, mas com qualidade, e sem tanta sujeira assim. A sujeira fica por conta da timbragem e distorção escolhida, e da montagem de todo o aparato musical, ao invés de apenas gravar algo em equipamento precário, que trará a ilusão de uma boa sujeira. Esse sim é um bueiro digno de ser frequentado inúmeras vezes. Fica o aguardo para que o Blasfemador possa fechar a sua primeira trinca de ases com a devida malevolência e sem moderação.

“Aguardando o alinhamento do infortúnio estelar
Ritos, sacrifícios sobre eras sem parar
Seu chamado ecoa em todo espaço sideral
Enlouquecendo as mentes fracas dos que vagam no astral”

Nota: 8,8

Integrantes:

  • Fabrício Maleficarum (vocal)
  • Lucas Herege (baixo)
  • Igor Shredder (guitarra)
  • Romário Bruxo (bateria)

Faixas:

  1. Re-animator
  2. Fome Animal
  3. Terror Extraterreno
  4. Epidemia, Fome e Morticínio
  5. Blasfemador Recrutando Demônios
  6. A Filha das Trevas
  7. Iconoclasta
  8. O Despertar da Besta
  9. Mal Ancestral
  10. Estrada da Fúria

Redigido por: Stephan Giuliano

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