Black Metal: jornalista gera reações em colunistas do The Guardian ao expor decepção com ideologias extremas

No último dia 25 de agosto, a jornalista eslovena, crítica, romancista e editora, Ana Schnabl, publicou um artigo no The Guardian, contando a sua inserção no universo do Black Metal quando era apenas uma adolescente, por influência do melhor amigo, um amante da música extrema. Aquele som transgressor, questionador, repleto de atitude, angústia e rebeldia, fascinou Ana e tornou-se parte de sua identidade. Bem, isso até o momento em que ela decidiu se aprofundar nas mensagens que muitas das bandas que ela gostava traziam nas suas letras e que, até então, ela nunca havia parado analisar e entender o que elas realmente significavam:
“Logo, meu quarto começou a parecer um mausoléu: havia pôsteres de bandas com homens maquiados como cadáveres encarando a névoa nórdica, e CDs com listas de faixas que mais pareciam encantamentos do que música. Comecei a me vestir de acordo – preto sobre preto sobre preto. Vasculhei fóruns em busca de prensagens raras e bootlegs ao vivo. E, no entanto, eu não sabia realmente o que estava ouvindo.
A música em si era hipnótica: crua, implacável, carregada de atmosfera. Soava como alienação, angústia e misantropia – o que, para um adolescente, era mais ou menos o objetivo. Deu forma à rebelião. Mas não dei uma olhada nos bastidores. Apenas saboreei a vibe.”

Ana, de 40 anos, relembrou o momento em que o amigo decidiu contar-lhe quem era Varg Vikernes, a figura por trás do Burzum. Depois de terem conversado sobre a terrível história de Varg, a pergunta que se fizeram fizeram foi: “o que vamos fazer com isso?”. Chegaram à conclusão que deveriam apenas ignorar a música do Burzum e seguir ouvindo as outras bandas.
Ana também tinha um primo (onze anos mais velho) com quem ela havia falado sobre sobre suas bandas preferidas de Black Metal, durante uma visita. No entanto, ao contrário de Ana, seu primo não só ouviu todas aquelas bandas, mas mergulhou fundo em suas letras e traduziu muitas delas, pesquisou, leu entrevistas e artigos e rastreou conexões. Ou seja, fez tudo o que Ana não fez.
Ela contou que o primo entrou em contato com ela por telefonema e falou sobre suas descobertas:
“Minha versão adolescente adorava o visual e o som misantrópicos dessas bandas, mas fiquei horrorizada quando descobri o que elas representavam.
Descobriu-se que várias dessas bandas não eram apenas provocadoras com um pendor para o macabro. Elas traficavam algo mais sombrio: imagens fascistas codificadas, simpatias nazistas explícitas, alusões antissemitas. Algumas tinham ligações com grupos de ódio reais. Outras cantavam odes à pureza racial em línguas arcaicas ou citavam ideólogos de extrema direita sob camadas de fontes rúnicas. Graveland e Nokturnal Mortum — bandas que eu outrora prezava por sua “atmosfera” — agora eram impossíveis de ouvir da mesma forma. O fundador do Graveland, Rob Darken, frequentemente expressava visões nacionalistas brancas e se alinhava com ideias fascistas pagãs. No início de sua carreira, o Nokturnal Mortum tinha fortes laços com a cena black metal nacional-socialista (NSBM); os membros da banda deram entrevistas endossando ideologias neonazistas. O que pensávamos ser meramente transgressivo acabou se revelando, em alguns casos, ideologicamente claro — e sua ideologia era o etnonacionalismo, o fascismo e a supremacia branca.”
Entretanto, ele não lhe passou nenhum tipo de sermão e apenas disse à ela:
“Você é inteligente. Mas não deixe que sua inteligência a torne descuidada.”

A desilusão de Ana com o Black Metal
As palavras do primo mexeram fortemente com Ana e ela se sentiu mal por ter sido levada ao engano por sua falta de curiosidade. Não houve nenhum interesse de sua parte em saber sobre as letras, o que suas bandas favoritas representavam ou se estavam tomadas por ideologias. Ela se importava apenas com a música em si.
“Aquela frase mudou alguma coisa. Porque ele estava certo – eu não tinha sido descuidado por acidente. Eu tinha me tornado descurioso. Eu não queria saber o que as letras diziam e o que as bandas representavam, porque saber poderia ter arruinado o mundo que eu havia construído. Naquela época, eu achava que estava escolhendo a música. Mas, na verdade, eu estava escolhendo pertencer a algo.
Depois daquela conversa, comecei a me afastar. E, curiosamente, meu amigo também. Quanto mais líamos – quanto mais percebíamos que a estética marginal era, em alguns casos, uma cortina de fumaça para um ódio profundamente arraigado – mais difícil se tornava ouvir a música sem hesitar. A imagem que havíamos construído, de músicos misantropos uivando em paisagens frias, ruiu. O que restou foi mais preocupante: uma subcultura na qual alguns membros usavam ideologia com a mesma facilidade com que pintavam o rosto. A estética não era apenas superficial; era camuflagem.
Nós dois paramos de ouvir – não de uma vez, mas aos poucos. Guardei os CDs em caixas. Deixamos de seguir os fóruns. Com o tempo, meu amigo e eu nos afastamos, mas não por causa da música, não diretamente. A vida interveio.”

Hoje, ela ainda faz reflexões sobre a sua fase de encantamento com Black Metal e sobre a importância de ler, pesquisar e saber o que você está ouvindo. Ana falou sobre como ideologias nocivas podem se infiltrar indiretamente na música sem que as pessoas se deem conta. Segundo Ana, é preciso entender o que está por trás para não ser induzido a abraçar discursos e ideologias nefastas:
“E aqui está o que eu ainda me pergunto: se meu primo não tivesse dito nada, eu teria notado? Eu teria me importado? Eu teria acabado defendendo ideias nas quais não acreditava simplesmente porque elas vinham envoltas em sons que eu amava?
Gostamos de imaginar que somos os autores das nossas convicções – que a ideologia surge por meio da argumentação e da razão. Mas, muitas vezes, ela se infiltra de forma indireta, aproveitando a estética, a comunidade e o gosto. Quando se é jovem, especialmente, o pertencimento pode ser mais importante do que a crença. Você absorve códigos e lealdades sem nem perceber. Você profere as coisas sem querer. E quanto mais as repete, mais se torna elas.
O que me salvou não foi a minha própria clareza moral, mas um ato silencioso de atenção. Alguém em quem eu confiava dedicou tempo para investigar o que eu não investiguei e ofereceu esse conhecimento sem condescendência. Não pareceu um confronto. Foi como se eu estivesse sendo gentilmente direcionada de volta para mim mesma.
Ainda ouço música alta. Techno, por exemplo. Mas se a música tem letra, eu a ouço. Faço mais perguntas. Sei como é fácil se deixar seduzir pela sensação de profundidade sem entender o que há por trás.

Colunistas do The Guardian respondem ao artigo de Ana Schnabl
O escritor e professor de ciências, Dr. Jac Common, comentou sobre experiência relatada por Ana. De acordo com o Dr., os excêntricos, rejeitados e radicais de esquerda estão “recuperando a cena”:
“Sou um ouvinte ávida de música pesada, incluindo os diversos subgêneros do black metal. As reflexões de Ana Schnabl sobre sua atração adolescente pela atmosfera e desolação do black metal, e o subsequente horror diante da revelação das políticas e motivações de muitos músicos, ressoaram em mim.
Embora o metal possa refletir e intensificar os antagonismos da sociedade em geral (fascismo, racismo, misoginia e assim por diante), a cena foi e está sendo recuperada pelos excêntricos e rejeitados, para quem a música pesada não é apenas um santuário, mas um lugar para vislumbrar um mundo mais justo e gentil.
Bandas de black metal do Reino Unido, como Dawn Ray’d e Underdark, cantam (ou gritam) sobre marxismo e solidariedade de classe. Backxwash e Uboa (Xandra Metcalfe) misturam hip-hop e noise, respectivamente, para criar hinos dissonantes sobre a experiência queer e trans. Ragana, Divide and Dissolve e Panopticon uivam contra a escravidão negra e a destruição ecológica.
A primavera do black metal radical de esquerda borbulha intensamente, e vale a pena beber profundamente.”

De acordo com a jornalista e apresentadora de notícias, Jo Palmer, há muito pensamento de extrema-direita no Black Metal; por outro lado, ela vê uma cena “antifascista” muito vibrante:
“Que pena que Ana Schnabl tenha abandonado o black metal, um gênero vasto composto por bandas do Azerbaijão ao Quênia, da Islândia ao Peru, com centenas só no Reino Unido. Não vou negar que há uma presença notável de projetos de extrema direita no black metal. Felizmente (pelo menos para mim), também existe uma cena black metal antifascista muito vibrante, produzindo músicas excelentes e canalizando o intenso poder emocional do gênero para uma raiva extremamente justificada contra o estado do mundo. Evitar atos suspeitos exige um pouco de diligência, mas vale a pena.”

Já o diretor de cinema Iain Forsyth, conhecido pelo seu trabalho em “Nick Cave: 20.000 Dias na Terra” (2014), “The Extraordinary Miss Flower” (2024) e “Broken English” (2025), comentou:
“Como fã de black metal, li o artigo de Ana Schnabl com interesse. As simpatias fascistas de alguns dos criadores do gênero são bem documentadas, mas o mundo do black metal moderno é diverso. A banda feminista de black metal Witch Club Satan toca no festival Supersonic este ano, e o Agriculture toca um black metal “extático” com uma estética queer. Não descarte todo o gênero, assim como você descartaria todo o punk porque alguns punks simpatizavam com o nazismo.
Quando somos jovens e ingênuos, podemos muito bem jurar lealdade tolamente, seja ao black metal ou aos Bay City Rollers. À medida que envelhecemos, esperamos melhorar em separar o joio do trigo.”

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