Bill Ward explica por que nunca tocou “Paranoid” da mesma forma duas vezes: “Eu não saberia como fazer isso”

Os quatro integrantes da formação clássica do Black Sabbath desempenharam papéis fundamentais na construção de uma linguagem musical que mudaria para sempre os rumos do Heavy Metal. Desde os primeiros discos, cada músico trouxe características muito particulares para dentro da banda. Tony Iommi criou riffs que se transformaram em referência obrigatória para gerações de guitarristas. Enquanto isso, Ozzy Osbourne desenvolveu uma forma única de cantar e interpretar que se tornou sua marca registrada.
Ao mesmo tempo, Geezer Butler elevou o papel do baixo dentro da música pesada. Seu timbre encorpado e sua abordagem técnica adicionavam peso e complexidade às composições, muitas vezes preenchendo espaços que em outras bandas exigiriam uma segunda guitarra. Já Bill Ward levou a bateria para um território ainda pouco explorado no início dos anos 1970, construindo linhas cheias de personalidade, explorando dinâmicas incomuns e incorporando elementos de improvisação que ajudaram a tornar o som do Black Sabbath algo verdadeiramente singular.
Em entrevista ao programa LA Radio Sessions, comandado por Mike Stark, o baterista falou justamente sobre essa liberdade criativa que marcou a trajetória da banda. Durante a conversa, ele destacou duas músicas que considera especiais por motivos completamente diferentes: “Spiral Architect”, pela riqueza musical e sofisticação dos arranjos, e “Paranoid”, pela simplicidade que permitia constantes variações durante as apresentações ao vivo.
“Spiral Architect” representava o lado mais aventureiro da banda
Ao recordar a faixa que encerra o álbum “Sabbath Bloody Sabbath” (1973), Bill Ward demonstrou enorme carinho pela composição. Segundo ele, a música representava um momento em que o grupo se sentia confortável para correr riscos e expandir seus horizontes sonoros.
“’Spiral Architect’ era brilhante de tocar ao vivo. Tínhamos aqueles enormes elementos orquestrais. Eu amava tudo sobre essa música. Era uma das minhas favoritas. Quando a escrevemos, achei que era muito aventureira musicalmente. Eu adoro o fato de termos uma música de rock com uma produção quase clássica.”
O baterista também destacou a combinação entre os timpanos, o baixo de Geezer Butler e as guitarras de Tony Iommi, elementos que, segundo ele, criavam uma atmosfera única.
“Há algo nela que soa muito gótico para mim. É absolutamente metal em seu auge. O mais bonito é que ela continua sendo metal. Eu consigo perceber como a banda estava mudando, mas sem perder suas raízes. Nunca abandonamos aquele som duro e implacável de onde viemos.”
Cansaço extremo e criatividade caminhavam lado a lado
Durante a entrevista, Ward revelou que o período de composição de “Spiral Architect” coincidiu com uma fase extremamente desgastante para o grupo. A agenda intensa de shows deixava pouco espaço para descanso, mas isso não impedia que novas ideias surgissem.
“Você precisa lembrar que estávamos no terceiro ou quarto álbum e muito cansados. Tínhamos tocado sem parar pelo mundo inteiro. Não havíamos parado. Não fazíamos pausas, exceto para ir ao banheiro ou almoçar. Fora isso, continuávamos tocando rock and roll.”
Mesmo diante desse cenário, o músico acredita que a faixa capturou perfeitamente o momento vivido pela banda e revelou ainda uma curiosidade sobre a letra.
“Se vou contar os segredos de todo mundo, eu escrevi aquela letra. Não digo isso para me engrandecer. Não poderia me importar menos com isso. Apenas acho que tudo se encaixou perfeitamente e representou um momento muito específico pelo qual todos nós estávamos passando.”
Improvisação sempre fez parte do Black Sabbath
Questionado sobre o espaço para improvisação dentro das apresentações do Black Sabbath, Bill Ward explicou que a liberdade criativa era muito maior do que muitos imaginam.
Segundo ele, algumas músicas exigiam execução precisa, mas ainda assim havia momentos reservados para experimentação, principalmente nas introduções, encerramentos e longos solos de guitarra executados por Tony Iommi.
“A maior parte do nosso show era improvisação, agora que penso nisso. Tony fazia aqueles enormes solos de guitarra. Às vezes nossos shows duravam duas horas e meia ou até mais. Havia espaço para solos de bateria, de guitarra ou de baixo, dependendo da situação.”
Essa abordagem diferenciava a banda de muitos grupos que reproduziam no palco exatamente o que havia sido gravado em estúdio.
“Nunca toquei Paranoid da mesma forma duas vezes”
Foi então que Ward citou um dos maiores clássicos da história do Heavy Metal para ilustrar sua filosofia como baterista.
Quando Mike Stark comentou que muitas bandas executam suas músicas ao vivo nota por nota, exatamente como aparecem nos discos, o músico respondeu sem hesitar:
“Nós mudávamos as coisas o tempo todo. Eu nunca toquei ‘Paranoid’ da mesma forma duas vezes. Eu nem saberia como fazer isso.”
Apesar da liberdade criativa, ele explicou que sempre procurava respeitar a essência original das composições.
“Eu tentava manter o groove da forma como tínhamos feito originalmente. Mas em algumas noites eu simplesmente pensava: ‘Que se dane, vou colocar isso aqui’. Então acabava adicionando alguma coisa diferente.”
A declaração ajuda a explicar por que as apresentações clássicas do Black Sabbath continuam tão fascinantes décadas depois. Embora músicas como “Paranoid” possuíssem estruturas relativamente simples, músicos como Bill Ward encontravam maneiras de reinventá-las constantemente sem comprometer sua identidade. Essa combinação entre disciplina e espontaneidade foi um dos ingredientes que transformou o quarteto de Birmingham em uma das bandas mais influentes da história do Heavy Metal.