Bill Hudson sobre André Matos: “Tem 20 pessoas gozando com o pau dele hoje no Brasil”

Em uma nova entrevista concedida ao Manrasta Connection, o guitarrista brasileiro Bill Hudson (I Am Morbid, Northtale, Doro, Circle II Circle, Trans-Siberian Orchestra), respondeu a pergunta de um internauta sobre se ainda vale a pena nos dias de hoje montar uma banda de Power Metal aos 42 anos. Veja a resposta de Bill Hudson:
“A minha sincera opinião é que ele não deve. Por que vai ser ser uma perda de tempo do caralho, perda de dinheiro, vai ser só frustração. Mas… se ele quer mesmo fazer, se independente da porra toda ele quer fazer, eu acho que, na minha opinião, a primeira coisa e mais importante de tudo que ele tem que ter em mente é a expectativa de que não vai dar certo. Você não pode colocar nenhuma esperança de que dê certo. Tipo, espere o melhor e prepare-se para o pior. Por que Power Metal não é um estilo popular hoje, só vende para gente da nossa idade, 35, 45, ninguém que tem 17 anos vai comprar Power Metal, nunca mais. Nos Estados Unidos o estilo é caricato, é uma piada. E é o mercado mais importante.
Mas, se você conseguir fazer duas turnês na Europa e uma no Japão todo ano, rolou! Foi o que a minha banda Northtale fez, só que eu perdi no fim da história uns quinze mil euros. E essa é a segunda parte importante, é que nem um investimento que você faz no mercado, você tem que gastar sabendo que não vai voltar. Na minha banda de Power Metal eu trabalhei com um vocalista brasileiro, inclusive, que fez o segundo disco e o moleque estava colocando todas as fichas dele na banda e e eu falava: ‘Não, mas você tem que fazer alguma coisa da sua vida.’ E ele: ‘Não, a banda vai dar certo. Eu vou viver da banda.’ Eu falava: ‘Cara, a banda tem que gerar um milhão de dólares para você viver da banda, para chegar no ponto em que você vai viver da banda. Tem que gerar um milhão por ano, cara. Não vai acontecer.’ E aí gerou uma frustração enorme no cara, tipo, me odeia hoje por causa disso. Então se vai fazer uma banda, faça por hobby, faça para perder dinheiro mesmo e foda-se o mundo.”
Em outro momento da entrevista, enquanto falava sobre seus maiores ídolos do Power Metal e que inclui, evidentemente, Kain Hansen, do Helloween, Bill também citou o falecido vocalista do Angra, André Matos e Shaman.
“Para mim, o gênio supremo… não é nem que são as minhas músicas preferidas, mas para mim é o cara mais talentoso que já teve no estilo, é o André Matos. Todo mundo, alías, eu sempre falo isso, todo mundo, todo mundo… tem vinte pessoas gozando com pau dele hoje no Brasil. Todo mundo quer tocar as músicas dele. Meu, deixa o cara em paz e faz o trabalho de vocês. Né, tipo… ele foi o maior gênio na minha opinião. Muito unnappreciated [desvalorizado]. Aliás, no Brasil ele teve um status grande e tal, mas meu, ninguém sabe quem ele é fora do Brasil.”
Rasta observou que o mercado americano é um pouco resistente ao Power Metal, diferentemente do mercado europeu. Bill Hudson comentou:
“Isso aí, eu sempre falo que é assim: é mais ou menos a mesma coisa que eles não gostarem do soccer — é que não é violento o suficiente — é muito gay para eles. Com o Power Metal é a mesma coisa. Nos Estados Unidos o que eu vi pegar mesmo foi só o Dragonforce, que foi na época do Cellador. Aliás, foi por isso que prestaram atenção na gente, porque a gente era o Dragonforce americano. E, na verdade, só porque era meme, né? Banda videogame, não sei o quê! Eles não gostavam igual a gente gosta. Eles não gostavam pelo mesmo motivo que a gente gosta. Então tá, o Sonata Ártica vai e faz uma turnê grande nos EUA, e toca para 600 pessoas, legal. Mas, tipo, não é… Então aqui é agressão. É a única coisa que eles entendem. Eles só entendem essa linguagem. Mas o André Matos fez menos barulho na Europa do que a gente pensa. Na verdade só conheciam ele no Brasil e no Japão, e alguma galera na Alemanha. E tem tantos vídeos deles tocando em lugar pequeno também na época.
Eu toquei no Le Zenith [na França], que o Angra tocou em 99 e que o Bruce Dickinson participou. Eu toque lá com Alice Cooper e não estava sold out com Alice Cooper. Quando o Angra tocou com o Bruce Dickinson estava sold out.”
De acordo com Bill Hudson, as composições de André Matos eram uma evolução do Helloween, que é a maior referência do estilo:
“Sim, era a evolução disso. Era a evolução do Helloween. No Brasil, quantas bandas hoje no Brasil lançam coisas e colocam ‘elementos brasileiros’? de veio isso? O Sepultura fez com índios lá em um disco. De onde veio isso? Né? então tipo, é por isso que o Angra influenciou tanta gente na nossa época. Enfim, Timmo Tolki, Kai Hansen e o André eram os meus preferidos na época.”
Segundo Bill Hudson, o único músico que continua sendo grande no estilo é Tobias Sammet (Edguy, Avantasia):
“É o único cara que continua sendo grande assim hoje.”
Rasta observou que o projeto Avantasia deu tão certo que ficou maior o Edguy, e Bill Hudson completou:
“Exato. tanto o que Edguy parou. Ele usa até o mesmo batera, e tal.”
Voltando a André Matos, Bill Hudson concluiu:
“Ele era bem fora da curva. Se tivesse sido europeu ou americano ele teria sido milionário, ele teria sido uma lenda.”
Comentários polêmicos bem argumentados… tem razoabilidade! Agora, não sei se ‘só o Angra/Angels Cry 1.994’ que influenciou o “Roots/Sepultura – 1.996”, vez que Egberto Gismonti, em 1.977, já lançava: “Sol do Meio-Dia”, ou mesmo em “Orfeu Novo”, 1.974. Obras com nítida influência de sonoridade/temática indígena etc!