Bandas femininas: empoderamento ou mera exploração do sexismo?

Há alguns anos, com o surgimento de discursos enaltecendo temas como o empoderamento feminino, a presença das mulheres dentro do Metal passou a ser cultuada por boa parcela dos headbangers.
Desde a chamada polarização política, muitas pautas foram cooptadas por vertentes canhotas e destras, inflamando o debate e promovendo a discórdia. E como você sabe muito bem, em um mundo muito polarizado e pouco politizado como o nosso, basicamente qualquer assunto se transforma em uma série de discussões acaloradas nas redes sociais. Temas que nem deveriam causar tanta comoção viram um eterno Fla x Flu, mas neste caso, sem vitoriosos.
Como todos sabemos, existiram mulheres influentes tocando e participando ativamente do meio Rock/Heavy Metal desde que o gênero foi criado. Nomes como Doro Pesch, Lita Ford, Jinx Dawson, Leather Leone, Sabina Classen, Kate De Lombaert, Joan Jett e tantas outras, precisam ser lembrados sempre que falamos do assunto.
Sendo assim, percebemos que discursos mais radicalizados e pouco baseados em fatos históricos, e aqui me refiro aqueles que afirmam categoricamente que as mulheres sempre foram menosprezadas no gênero, devem certamente ser tratados com cuidado.

O discurso
Apesar disso, é evidente que hoje em dia temos muito mais mulheres tocando Heavy Metal, inclusive, com diversas bandas formadas apenas por mulheres. E é aqui que vou convidar o amigo leitor a raciocinar e prestar a atenção em pontos sensíveis que geralmente são jogados para debaixo do tapete.
No discurso feminista ou de empoderamento, o que vemos são argumentos que defendem a não objetificação das mulheres, slogans anti-machistas, anti-sexistas e o ataque severo aos padrões tradicionais de beleza. Diversas marcas, sobretudo no Brasil, passaram a utilizar em suas campanhas pautas que fazem menções a minorias e camadas da sociedade antes esquecidas. Mulheres negras, outras mais gordinhas e também mulheres com aparência normal/cotidiana — muitas vezes sem maquiagem — começaram a aparecer em comerciais e peças publicitárias.
A tentativa é de aproximar o produto/marca do dia a dia das pessoas comuns. Sendo assim, cada vez mais vemos todos os tipos de mulheres participando de espaços onde antes víamos apenas modelos, cantoras e atrizes renomadas. O discurso é aquele politizado que você já conhece, mencionando coisas como subjetividade sobre o que vem a ser a beleza real. Em muitos casos, acontece até a demonização e a tentativa de subversão dos arquétipos tradicionais, tudo com um discurso politicamente correto e inclusivo.
Você pode concordar ou discordar, mas jamais ignorar que isso está sendo feito. Tudo muito bonito (ou não), só que parece não ser exatamente este o caso da massificação das mulheres no meio do Heavy Metal.


A prática
Eu sei que muitos irão odiar o que vão ler nos próximos parágrafos, mas é a pura realidade. Existe um discurso que justifica a ascensão feminina no gênero, mas na prática o que é pregado não se transforma em ações efetivas. Não sejamos hipócritas, você nunca se questionou o motivo de bandas como a Crypta, por exemplo — grupo feminino com integrantes inclusive engajadas em causas como feminismo e minorias — ser uma banda formada por quatro moças brancas, bem estabelecidas financeiramente e guiadas pelos padrões tradicionais de beleza.
E não são justamente estes padrões que são atacados por pessoas que adotam esta vertente ideológica?
Curiosamente, a banda já trocou de integrantes algumas vezes e os padrões foram mantidos em todas as ocasiões. Além do trio que se mantém desde o início formado por Fernanda Lira, Luana Dametto e Tainá Bergamaschi, tivemos Sônia Anubis, Jéssica Falchi, Helena Nagagata e, agora, Victoria Villarreal. Nenhuma negra, nenhuma gordinha, nenhuma mulher fora dos estereótipos padrões. E veja bem, não acredito que estes devam realmente ser pré-requisitos para preencher uma vaga de musicista em uma banda, aliás, não deveriam ser desde que o discurso proferido seja outro. O que não é o caso aqui. Á partir do momento que você faz militância em prol de determinada causa, invariavelmente seremos obrigados a cobrar um “practice what you preach”, não é mesmo?

Sexualização
Mas engana-se quem pensa que a Crypta é o foco desta discussão. Nem de longe, há exemplos muito mais escrachados e — por que não? — execráveis. Creio que todos ouviram falar na banda Dogma, as moçoilas vestidas de freira e amplamente conhecidas por exibir coxas e virilhas, muito mais do que suas músicas. No caso da Dogma, temos literalmente a exploração da imagem em detrimento da arte musical. E há um detalhe, esta exploração vai muito além, já que nem se trata de uma banda de fato.
Como assim não se trata de uma banda? Pois é, a Dogma é registrada por homens e até mesmo os nomes das personagens são criações de homens. Se você acessar o canal do Youtube, vai ver que os vídeos mais antigos apresentam homens tocando sob o nome Dogma. Como não conseguiram nada, deram o famoso pulo do gato.
O que quero dizer é que a banda Dogma tem dono(s), e não são mulheres. Sendo assim, literalmente, estamos falando de homens que contrataram mulheres para vestir pouca roupa, se insinuar para a plateia e vender uma imagem sexista disfarçada de “anti-religião”. Acontece que as “integrantes” da banda sequer compõe as músicas e são meras figurantes. Sendo polêmico aqui, não vejo muita diferença do que o Dogma faz hoje e o É o Tchan fazia na década de 90. Aliás, há uma diferença sim, o É o Tchan era o que era e não se escondia atrás de discursos ideológicos.

Padrões mantidos
Com esta ascensão das mulheres no mundo da música pesada, o que vemos são mulheres que seguem os padrões de beleza de sempre ganhando destaque. Muitas bandas estão conquistando seguidores e entusiastas aos montes explorando temas sensíveis, como a sexualização e a objetificação. Percebam o dado que vou trazer, e aqui nem vou mencionar bandas montadas exclusivamente com este objetivo, mas vamos mencionar algumas das principais mulheres da cena Rock/Metal da atualidade?
Antes disso, que fique claro, quando menciono “principais mulheres”, me refiro as que estão fazendo mais sucesso, aquelas que além de talentosas e boas instrumentistas, estão tendo carreiras mais prolíficas. Sendo assim, do mainstream à grupos mais undergrounds, podemos mencionar artistas como Nita Strauss, Adrienne Cowan, Alissa White-Gluz, Courtney LaPlante, Tatiana Shmayluk, Simone Simons, Cristina Scabbia, além da própria Fernanda Lira e tantas outras.
A pergunta capciosa é: alguma dessas não corresponde ao chamado padrão tradicional de beleza?

A boa e velha hipocrisia
Me parece claro que mesmo com todos estes discursos à respeito de empoderamento, subjetividade da beleza e inclusão de minorias, estas pautas estão sendo sumariamente ignoradas pelo mainstream e seus participantes. A propósito, não vejo muitas reclamações à respeito disso nem no underground. Parece que os artistas estão preocupados com o assunto somente na hora de fazer aquele textão pomposo no Instagram para engajar sua base de fãs. No mais, é o famoso “segue o baile” porque o dinheiro precisa ser ganho e não vai cair do céu.
Se nos voltarmos às bandas formadas somente por mulheres ou grupos com mulheres em seus lineups, boa parte explora a imagem da mulherada muitas vezes sexualizando e, obviamente, capitalizando em cima. Há uma infinidade de bandas, todas possuem uma característica em comum e você deve imaginar qual é, mas vamos mostrar algumas imagens que falam mais do que mil palavras.

Sorria, você está sendo enganado!
Poxa, mas há algum problema nisso? E a resposta é óbvia: nenhum problema! Artistas, gravadoras e empresários entendem que a imagem é capaz de vender um produto. E sejamos honestos, principalmente, quando esta imagem é provocante, picante, instigante e, em muitos casos, ainda vem acompanhada de performances que caminham nesta mesma linha. É jogo ganho.
Mas então qual o motivo de toda esta argumentação? Mais simples ainda. O que vemos hoje em dia são as mulheres tendo o mesmo valor que sempre tiveram no Metal. A diferença é que hoje se explora muito mais a imagem sob o pretexto de inclusão, empoderamento ou o que quer que seja.
Sempre existiram bandas femininas e mulheres no meio do Rock/Metal. Girlschool, The Runaways, Heart, Suzi Quatro, Blondie, Fleetwood Mac, Coven, Jefferson Airplane, Warlock e, até mesmo aqui no Brasil, nomes como P.U.S., Valhalla e Volkana, não nos deixam mentir.

O que temos hoje em dia são pessoas capitalizando em cima de um discurso ideológico que possui adeptos apaixonados, tudo para introduzir cada vez mais bandas com integrantes mulheres na cena Metal. Por que? Porque vende! Estas bandas, em sua grande maioria, exibem integrantes femininas com os mesmíssimos padrões de beleza de sempre, e muitas exploram sem qualquer pudor a sexualidade. É o eterno culto ao corpo esbelto, mas travestido de empoderamento.
Nada de novo no front. Só estamos vivendo uma exacerbação do que sempre existiu. E o detalhe é que esta pratica bastante antiga, inclusive, tem como principais consumidores os mesmos homens que são curiosamente chamados de “machistas” e “escrotos” por entusiastas do feminismo.
Exacerbação do mais do mesmo
Como você pode ver, existe um discurso retórico, mas o dinheiro segue sendo o objetivo final. Obviamente, a máquina trituradora está ligada e funcionando a todo vapor. E é tão lucrativo que algumas musicistas já estão começando a partir até mesmo para plataformas de entretenimento adulto (Onlyfans). Lorraine Lewis (ex-Vixen) e Sônia Anubis (ex-Crypta e ex-Burning Witches) são os exemplos óbvios, mas possivelmente não serão as últimas.

Respondendo a pergunta do título, há realmente mais bandas femininas e mulheres na indústria do Metal atualmente, mas não por conta de discursos feministas ou de empoderamento. Há mais mulheres porque há mais demanda. Enquanto o que vender mais for a imagem em detrimento da arte/música, mais bandas irão surgir explorando a sexualidade. Consequentemente, o efeito dominó acontecerá e haverá a exacerbação do sexismo tão odiado pelos adeptos do politicamente correto.
Sempre haverá espaço
Finalizando, as mulheres sempre mereceram espaço. Há muitas bandas onde o foco não é este exposto nesta matéria e muitos trabalhos são realizados de maneira digna. O problema encontra-se nas narrativas.
Para as bandas que possuem mulheres em seus lineups (independente de padrões de beleza ou qualquer outra bobagem), mas sua preocupação é exclusiva com a arte, estas prosseguirão independente do discurso polarizado da vez. E sendo assim não poderíamos encerrar esta matéria de outra forma.

Abaixo estão algumas bandas onde as mulheres realizam trabalhos incríveis independente da proposta visual. Todas merecem a sua atenção. Isto é, se o que você procura é Metal de qualidade, mas se estiver somente interessado em ver coxas, decotes e moças fazendo caras e bocas, esta matéria já te deu exemplos suficientes nos parágrafos acima. Favor encaminhar-se ao onlyfans e deixar os links abaixo somente para os apreciadores da boa música.
Bicho, não sei se você já viu um show da Crypta pessoalmente, mas a Fernanda Lira é (bem) gordinha. Bandas como Eskrota e The Monic também tem mulheres fora do padrão tocando.
Opa, com certeza Vagner, mas a matéria evidencia a cena de maneira generalizada, é óbvio que existem exceções. E no caso da Crypta, há uma pequena crítica com relação ao discurso, mas elas focam na música, não vendem sexualização não. Valeu pelo comentário.
Um texto com uma reflexão muito necessária. Mas que muitas mulheres (e alguns homens) vão fingir que não entenderam.
Pra algumas pessoas perceber que a sua “cruzada por justiça social” está equivocada pode ser algo muito doloroso.