Alex Webster revela um objetivo que o Cannibal Corpse ainda não atingiu

Alex Webster, baixista/fundador do Cannibal Corpse, refletiu sobre a trajetória da banda e, o quanto ele é fissurado em música clássica e filmes de terror; paixões essas que acabam virando títulos e letras das músicas, além de comentar como tocar algo tão extremo cobra um preço físico (exceto pelo curioso de caso George “Corpsegrinder” Fisher, uma “máquina” imparável e incansável). Ele também falou da parceria duradoura com a Metal Blade Records e de como, aos poucos, o Cannibal Corpse e o metal extremo foram saindo das sombras do underground para se tornarem parte da cultura pop.
Pouco antes do show em Oklahoma City, no último dia 30 de setembro, Alex Webster bateu um papo com o Los Angeles Times. A entrevista rolou no meio da turnê americana, onde o Cannibal Corpse divide o palco com o Municipal Waste, Fulci e Full of Hell.
Perguntado se prefere fazer turnês tocando em arenas e em festivais grandes ou clubes e teatros mais intimistas, Webster respondeu:
“Sabe, por mais que seja ótimo poder tocar em estádios, arenas e coisas assim quando temos a oportunidade, sempre tocamos em lugares menores por muitos anos. Esses, com certeza, são mais confortáveis para nós. Um lugar de médio porte, como o House of Blues, é um exemplo perfeito de um local de médio porte no qual nos sentimos muito confortáveis. Mas, sabe, estamos felizes em fazer tudo. Ainda tocamos ocasionalmente em clubes bem pequenos, como com capacidade para menos de 1.000 pessoas. Acho que ocasionalmente ainda tocaremos em um lugar assim. E então, claro, sim, quando estamos com bandas maiores como Meshuggah ou Mastodon, tocamos em lugares realmente grandes. Gostamos de tudo, mas o médio porte é realmente perfeito para nós agora. Eu já experimentei de tudo e somos gratos pelas oportunidades de tocar em estádios, mas gosto mais dos shows menores, pela intensidade e pela intimidade de estar tão perto do público.”
O Cannibal Corpse possui atualmente dezesseis álbuns completos. Webster contou como a banda escolhe o repertório para cada turnê:
“Nós meio que pensamos no que as pessoas nos pedem, como quando conversamos com as pessoas depois dos shows, músicas que elas gostam. Com 16 álbuns, há certos que sempre vamos tocar, alguns outros como os “hits”. Uma banda de death metal não tem hits como outros tipos de música podem ter, porque não há uma parada de singles para death metal, por exemplo. Então, nós meio que escolhemos com base no que recebeu boas reações ao longo dos anos. E temos alguns que são obrigatórios. Tentamos incluir aquelas músicas populares e tentamos misturar algumas que achamos que as pessoas gostariam, mesmo que não sejam as maiores. Tentamos cobrir toda a carreira, porque temos orgulho de todos os álbuns que fizemos. Todos eles representam muito trabalho. Naquele ponto da nossa carreira, cada álbum era a melhor coisa que podíamos fazer naquele momento. Então, sim, vocês verão no set que vamos tocar, provavelmente no show em Anaheim, que o repertório que temos tocado nesta turnê abrange tudo, desde o início da carreira até o álbum mais recente. Há muita coisa do meio também. Neste momento, não conseguimos incluir uma música de cada álbum no repertório. Geralmente, acabamos esquecendo alguns álbuns.”
Webster também citou algumas das bandas de aberturas mais memoráveis com as quais já fizeram turnês:
“Ah, bom, tivemos tantas turnês boas. Fizemos ótimas turnês com todos os tipos de bandas diferentes, bandas de black metal como Dark Funeral e Mayhem. Fizemos ótimas turnês com eles. Fizemos turnê com o GWAR antigamente e até com bandas como Misfits. São tantas para citar. Agora estamos com o Municipal Waste e estamos muito felizes por termos conseguido fazer algumas turnês com eles, porque simplesmente amamos o que eles estão fazendo. Eles são caras ótimos e uma ótima banda ao vivo. Ótima banda no geral. Eles são uma banda meio thrash. Fizemos turnê com o Whitechapel e fizemos muitos shows com o Suicide Silence. Gostamos de deathcore, grindcore, thrash, black metal, hardcore, seja lá o que for, qualquer coisa pesada ou extrema que tenha uma boa reação do público, mas não necessariamente exatamente o que fazemos. Gostamos de tentar. Também não vemos problema em fazer uma turnê só de death metal, e já fizemos muitas delas. Mas descobrimos que as pessoas gostam mesmo de uma turnê com uma variedade de metal extremo, e não com todas as bandas tocando o mesmo tipo de coisa. Nesta turnê, a mistura é ótima: o grindcore do Full of Hell, o death metal gutural e gore do Fulci, o crossover do Municipal Waste e nós somos death metal old-school. Então é uma boa mistura e podemos ver o público se divertindo com cada banda.”
Com relação ao desgate físico por fazer música brutal, ele disse:
“O headbanging é uma parte importante do nosso show, e era mais fácil quando éramos mais jovens, mas conforme envelhecemos, fica mais difícil. Ainda fazemos isso, no entanto. Acho que os bateristas são os que mais sofrem. No meu caso, consigo me controlar um pouco e headbangear um pouco menos, escolhendo os momentos para realmente me soltar. Mas o nosso baterista, não importa o que aconteça, tem dificuldade do começo ao fim. É assim para os bateristas de metal extremo. Então, eles têm a maior dificuldade, com certeza. Posso sentir que não tenho mais 25 anos, tenho 55, e depois de anos de headbanging, as coisas às vezes dão errado. Mas nós apenas nos controlamos. Mas quando se trata do George (Corpsegrinder), ele parece ter uma energia ilimitada; para ser sincero, não notei que ele tenha diminuído o ritmo. Ele ainda está lá em cima, a 1.600 km/h em todos os shows que fazemos.
É um tipo de música muito atlética para tocar e apresentar no palco. Há também muito atletismo na plateia, e vemos isso na plateia. Já vi algumas coisas bem acrobáticas acontecerem por lá. Mas, à medida que você envelhece, meio que precisa se adaptar um pouco. Não importa o que aconteça, tentamos manter o nível de intensidade o mais alto possível em todos os shows.”
Sobre se ele e seus colegas de banda imaginaram que algum dia se tornariam parte da cultura pop, Alex comentou:
“Não, não tínhamos ideia. Só somos muito gratos por isso ter acontecido. Muitas bandas da nossa época ainda fazem isso, como Morbid Angel, Deicide, Obituary e muitas outras que são nossas colegas. Pense nisso, quando nos juntamos em 1988, o heavy metal em si tinha apenas 20 anos, com o Black Sabbath surgindo por volta de 1968. Não havia precedente para um subgênero como thrash, death metal ou black metal durar tanto tempo. Agora estamos juntos há mais de três décadas e contando, e nunca poderíamos ter previsto isso. Somos todos muito gratos aos fãs que continuam vindo, comprando nossos álbuns e camisetas, apoiando bandas como nós e mantendo o death metal vivo.”
Quanto ao Hall da Fama do Rock and Roll e se ele acha que a banda poderia estar lá, Alex acredita que isso não é impossível de acontecer, mas, ao mesmo tempo, ele já fica feliz por ver outras bandas de Metal sendo reconhecidas:
“Eu teria pensado que era impossível antigamente, mas hoje em dia essas organizações estão dando mais atenção ao metal extremo. Eu acho que talvez um dia isso possa acontecer, nunca se sabe. Outras bandas de metal estiveram em uma posição semelhante, como Lamb of God, Slayer, Motorhead e Mastodon, foram indicadas no passado. Megadeth ganhou, eu acho. Eu realmente não acompanho, mas uma vez que algo tão extremo como o death metal está por aí há décadas, ele se torna uma parte estabelecida da cena musical. O respeito acaba sendo dado até mesmo por organizações que talvez não o reconhecessem antes. Agora eles meio que precisam reconhecer. Eu não acho que seja impossível para uma banda como Cannibal Corpse, mas ao mesmo tempo, eu não vou ficar esperando por isso. Estou feliz em ver outras bandas de metal sendo respeitadas.”
O Cannibal Corpse trabalha com a Metal Blade Records há muitos anos. Alex falou sobre isso:
“Sim, optamos por continuar com a Metal Blade. É realmente incomum, porque a maioria das bandas que conhecemos já passou por algumas gravadoras ao longo da carreira. Com a gente, nos demos bem com a Metal Blade imediatamente. É o tipo de gravadora com a qual você pode falar com pessoas de alto escalão. Conhecemos Brian Slagel, o dono e fundador, imediatamente. Ele é mais apaixonado por metal do que qualquer pessoa que eu conheço. Isso pode não ser verdade para todas as gravadoras. Sempre fomos felizes com a Metal Blade, para nós é como uma família. Todos que trabalham lá também amam heavy metal; eles não estão lá apenas pelo trabalho, são fãs. Foi uma combinação perfeita. Nunca pensamos em ir para outro lugar. Somos a Metal Blade para a vida toda.”
Cannibal Corpse e o amor por filmes de terror
Perguntado se os filmes de terror ainda inspiram as letras da banda, ele respondeu:
“Bem, sim, eles fazem. Mas não 100%. Para as nossas letras, costumo começar com uma lousa em branco, não diretamente de filmes, mas a inspiração pode vir de qualquer lugar: filmes, notícias, livros. Hoje em dia, as manchetes estão cheias de histórias horríveis que alimentam nossa inspiração. Às vezes, esses eventos reais são mais brutais do que qualquer filme de terror. Tudo entra na sua cabeça e, quando você está escrevendo, sai. Quanto a filmes de terror, todos nós somos fãs, e não me importo com novos filmes de terror, mas adoro clássicos como “Cidade dos Mortos-vivos”, “O Iluminado”, “O Exorcista” e outros clássicos. O entretenimento de terror é uma daquelas coisas que pode parecer assustador para alguns, mas muitas pessoas gostam como uma forma de arte.”
Outra paixão de Webster é a música clássica:
Webster também um amante da música clássica:
“Adoro música clássica; ouço desde pequeno. De Beethoven, Bach e Mozart, todas essas músicas são incríveis. Há complexidade, harmonias e até mesmo um pouco de escuridão e peso em algumas das melhores músicas clássicas. Algumas peças clássicas são tão pesadas que soam como metal antes mesmo de o metal existir, como “Mars, Bringer of War”, de Holst, por exemplo. Muitos metaleiros adoram essa composição. A música clássica foi a música extrema de sua época e provou que não é preciso eletricidade, amplificação ou mesmo letras sangrentas para ser pesado.”
Sobre a crescente presença de mulheres fazendo Death Metal e um público cada vez maior de mulheres frequentando os shows, ele disse:
“Eu noto isso e apoio. Acho incrível. Queremos que todos se envolvam nessa música, sejam homens ou mulheres. O metal une a todos, independentemente do gênero. O legal é que agora, no death metal e no thrash, temos bandas como Crypta, Nervosa e Castrator, entre muitas outras, que mostraram que não importa quem está tocando, talento é talento, e muitas dessas mulheres estão fazendo um metal realmente matador. Não sei por que isso está acontecendo mais agora, mas fico feliz que esteja.”
Webster revelou que um objetivo que a banda ainda não atingiu é abrir para o Metallica:
“Como banda, parece que já fizemos de tudo, mas ainda queremos continuar fazendo os melhores álbuns possíveis. Quanto a turnês, talvez abrir para o Metallica seria ótimo. Nunca tivemos a chance de abrir para a maior banda de metal do mundo. Também tivemos surpresas, como tocar no Red Rocks com o Amon Amarth. Foi incrível. Tocar no Madison Square Garden e no Forum em Los Angeles com o Meshuggah foi outra honra. Nosso objetivo é sempre fazer a melhor música possível, e o resto acontece naturalmente.”
Em seguida, Alex falou sobre as conquistas que mais lhe dão orgulho com o Cannibal Corpse:
“Temos orgulho da nossa carreira como um todo. Tem sido incrível. Pequenos detalhes se destacam, como participar do filme
“Ace Ventura” em 1994. Fazer turnê com o Slayer em 2019 também foi um sonho realizado. Fizemos turnês pela América do Sul, Ásia e Austrália várias vezes. No geral, estamos orgulhosos e gratos a todos os nossos fãs ao redor do mundo por tornarem essa carreira possível.”
Por fim, Webster refletiu sobre os equívocos que as pessoas cometeram contra o Death Metal ao logo tempo:
“Bem, o mais óbvio é que eles veem as imagens, leem as letras e acham que toleramos toda essa violência. Isso não é verdade. Os fãs são pessoas comuns, muitas vezes aficionados por terror. As pessoas não presumem que fãs de filmes de terror toleram a violência, então por que presumiriam isso de fãs de música de terror? Na verdade, é muito positivo para músicos e fãs. Para pessoas com alguma hesitação, ansiedade ou medo em relação ao metal, eu recomendaria que viessem a um show. Ver todos os rostos sorridentes. Ver quanta diversão as pessoas têm e quanta energia é liberada. Ver toda a camaradagem e o headbanging. As pessoas podem se surpreender.”