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Álbuns Injustiçados: Acid – “Maniac” (1983)

Durante a onda que crescia e atingia o seu auge nos primeiros anos da saudosa e gloriosa década de 80, da qual a conhecemos pela famosíssima sigla N.W.O.B.H.M. (New Wave Of British Heavy Metal em seu original), bandas de outros países europeus buscavam o seu espaço inspiradas em seus ídolos britânicos, e tentando arrumar alguma fatia do mercado para si. Sim! As bandas podiam não pensar tanto assim no começo, porém, todo mundo queria e quer ganhar dinheiro tocando. Só esse pessoal que banca o velho “truezão” da espaçonave, que acha que bandas não funcionam como empresas. Se elas prestam serviço, é um meio de trabalho, e logo são um tipo de negócio. Partindo desse ponto em busca de visibilidade e espaço no certame musical, os belgas do Acid já haviam lançado o seu auto-intitulado debut, que a meu ver é realmente um álbum excelente com todo aquele poderio reunido em prol do Rock veloz e capitaneado pela talentosíssima Katrien de Lombaert, mais conhecida do Kate. Sua voz aguerrida e cortante, que combinada às linhas de guitarra construídas por “Donald “Demon” Devers e Dirk “Dizzy Lizzy” Simoens, contribuiu muito para o surgimento e moldagem do que entendemos por Speed Metal. Os dois primeiros álbuns da banda foram lançados no ano de 1983, sendo o já citado em janeiro e o “Maniac”, que é o álbum que abordaremos juntos, em novembro.

   

O Acid surgiu praticamente junto com o mais famoso movimento da época, tendo sua fundação datada em 1980. Localizada em Bruges, West Flanders (sim, eu também me lembrei do personagem Ned Flanders), os belgas sabiam que o seu país não fazia parte do mapa musical e ao lado dos compatriotas do Crossfire foram à luta em busca de reconhecimento por seu trabalho. Para quem não conhecia a banda até então, sua sonoridade remete às bandas da época com um toque de velocidade e “sujeira” a mais, que viria a ser característica do estilo. O termo sujeira é quando a distorção da guitarra fica mais ríspida meio que lembrando uma serra elétrica de verdade, e saindo dos moldes mais limpos do Metal mais tradicional. Junto a isso, inclua o talento dos músicos e a voz potente da Kate. Pronto! Temos o Acid completo e em plena forma!

“Maniac” foi lançado pelo selo “Giant Records”, gravado e mixado no ICP Recording Studios. O álbum foi produzido pela dupla Filip ‘Max’ van Loo e Luc V. d. Bossche. A arte emblemática possui a assinatura de H. Geldhof, enquanto os engenheiros de produção foram Djoum Ramon e Michel Dierickx. Junto aos integrantes já destacados, temos a afiada cozinha formada pelo baixista Peter “T-Bone” Decock e pelo baterista Geert “Anvill” Ricquier, que inclusive tocou em uma banda chamada Hiroshima. Em meio a toda aquela leva de bandas lançando discos que viriam a ser cultuados anos mais tarde, o Acid, que já tinha em seu currículo dois excelentes álbuns, acabava aparecendo nas mais diversas coleções de discos de fãs não somente dos seus arredores como também do ponto inicial da N.W.O.B.H.M. Com um segundo disco ainda mais equilibrado e com uma proposta mais aparente e concreta, a banda conseguiu participar de mais festivais e tirar certo proveito disso. Obviamente que não podemos comparar com a explosão de sucesso que outras bandas tiveram, mas dentro do underground a banda apareceu da forma que conseguia. Fãs declarados de Motörhead, os belgas buscavam a inspiração necessária no que Lemmy e seus compatriotas ofereciam através de suas canções mais rápidas e agudas.

O logotipo indicava que o conteúdo era veloz como um raio e cortante como uma navalha, e desde então passamos a entender os estilos através do formato de seus nomes. Não que isso pudesse evidenciar a sonoridade real com 100% de certeza, mas isso ficou cada vez mais alinhado com o estilo da banda. E nos anos 90 houve um choque grande com diversas bandas mudando o logotipo por conta das mudanças sonoras, ao mesmo tempo em que bandas mudaram não somente o logo como também o design de capa, mesmo que o som não estivesse tão alterado. Bastava isso para o público mais tradicional torcer o nariz para determinado disco. Infelizmente o Acid não participou dessa época, pois veio ao fim em meados de 1985, após o lançamento de seu terceiro e último álbum de estúdio, o ótimo “Engine Beast”. Antes disso, haviam lançado o EP “Black Car” em 1984.

Não é toda banda que sobreviveu firmemente aos anos 80, e nem a década foi um primor por completo. Tudo estava acontecendo de forma rápida e um atraso sequer no lançamento de um álbum poderia custar muito caro mesmo. Como tudo ainda era novidade, não se sabia ao certo qual seria a bola da vez em se tratando de sucesso. O Iron Maiden já vivia a sua terceira fase com outro vocalista e se consolidava cada vez mais no cenário internacional. O Judas Priest, que contribuiu e muito à época mesmo sendo uma banda bem mais antiga, seguiu rumo ao estrelato. E o Acid estava ali indo de encontro ao seu espaço, mas permanecendo como uma banda intermediária, assim como aconteceu com as bandas Iron Angel, Angel Witch, Crossfire, Maniac, e diversas outras de porte e qualidade idênticos aos do Acid. “Maniac” possui oito músicas em seu formato original, com quatro músicas no lado A e as outras quatro no lado B da bolacha. A abertura conta com “Max Overload”. Na sequência temos a faixa-título, e em seguida aparece “Black Car” que dá nome ao único EP da banda, e fecha a primeira metade com “America”. Já o outro lado da moeda traz as canções “Lucifera”, “No Time”, “Prince Of Hell And Fire”, e fecha com “Bottoms Up”. O que dizer destas “múzgas”? Todas possuem seu brilho e sua relevância, sendo de total acerto colocá-las em um set junto com as faixas do disco anterior. Claro que não daria para executar o disco todo, caso o espaço adquirido para tocar não fosse mais longo. Porém, cada faixa possui energia suficiente para agitar o público em um evento. E nada como mergulhar nessa obra para destrinchar os detalhes desse segundo plano infalível do magnífico Acid!

Os primeiros tilintares das taças referentes às notas de baixo aplicadas pelo excepcional T-Bone quebram os ossos dos ouvintes mais fracos que perdem o controle ao ouvirem o início sagrado de “Max Overload”, faixa perfeitamente escolhida para abrir a contagem do velocímetro. Com um som atômico que faz seu estômago roncar, embora soe muito alto, de propósito a estourar seus tímpanos. Guitarras incandescentes entram em cena para botar fogo no asfalto e seguir em frente. Demon despeja solos arrasadores de quarteirões enquanto seu compatriota Dizzy Lizzy mantém a base firme e veloz. Um verdadeiro clássico do estilo mais ríspido do Metal. “Maniac” não apenas é uma grande faixa como um dos grandes hinos do Speed Metal e apresenta uma sonoridade rápida, livre e com sede de sangue. O maníaco pode ser sujo, sanguinário e implacável, mas será pego até a última nota dessa grande faixa. Riffs que entram na mente e te fazem “bangear” mesmo que você não queira. A explosão de baixo acompanhada pela bateria precisa elevam o patamar da canção para um lugar cada vez mais alto. Sem contar os solos que mais uma vez destroçam a carcaça pútrida da vizinhança bastarda e mentecapta que com certeza você tem aí na sua vila. A terceira escritura deste papiro musical atende por “Black Car”, e por ter esse nome lembra uma cerveja da qual eu gosto bastante, que é a Black Cab da linha Fuller’s versão stout. E nada como uma boa cerveja para apreciar essa grande prosa rítmica. O estripador de metal de mil nomes acelera em busca de sua vítima e não há quem busque justiça diante dessa ameaça que simplesmente mata quem o vê com a velocidade da luz na estrada. O andamento é completamente um veículo em movimento sem ligar pra sinalização e semáforo algum. As linhas de bateria de Anvill reforçam os fraseados das cordas e enfeitam o vocal supremo de Kate, que assim como nas canções anteriores, exerce um papel primordial para o conjunto da obra. Aqui os solos ficam mais despojados e longos, fazendo alusão às bandas setentistas que ousavam bastante nesse quesito. “America” fecha a primeira leva de músicas com uma viagem alucinante para o gigante americano, repleta de diversão e muitos desafios para sobreviver e guardar em mente o tremendo sucesso que se pode fazer tocando Heavy Metal. Suaves dedilhados dão um clima mais sereno após uma avalanche sonora, mas é apenas uma intro diferente dentro da proposta e que cai como uma luva para o tanque de guerra sonoro que surge na próxima parte da canção. Fãs de Iron Angel e Living Death observam isso com os ouvidos atentos e os olhos bem arregalados. É uma verdadeira escola para o estilo que demorei um pouco a entender e que depois disso passei a admirá-lo cada vez mais.

O lado B apresenta “Lucifera” como sendo a própria filha do diabo. Ela faz de tudo para ter o controle de cada ser. Usando sua malícia e sua sensualidade ela engana os pobres coitados que perdem a alma e a dignidade. Você pode até não lembrar o nome do pai dela ao ouvir as batidas de tons, bumbo, pratos e caixa, sem mencionar a outra parte do exército macabro, mas sabe que roubar almas é o jogo dele. Ela come miolos e chupa sangue, e não tem vergonha de odiar a Deus. Essa parte revela bem os planos de “Lucifera”, a filha de Satanás: “I am wild, I am hot / Give me sperm from your Rod / Let me think what I need / Could it be Satan’s seed.” Após muitos sacrifícios envoltos de pura luxúria e roubos de almas, é a vez de “No Time”, faixa esta que começa a todo vapor sem deixar nenhum rastro de vagareza no caminho. A trilha alterna entre um piloto de corrida e alguém que está preste do fim guiando o seu super carro até a linha de chegada. Ou seria um desfiladeiro? Viajando nessa estrada, temos a companhia de raios e trovões quase que nos protegendo de outros males. A rodovia está vazia, então o certo é pisar fundo, acompanhado de mais um solo de qualidade. De forma mais contida, os primeiros acordes de “Prince Of Hell And Fire” que remetem ao que os canadenses do Exciter apresentam em suas canções menos explosivas. A canção atinge o subsolo, onde os cheiros da cidade exalam e propagam o odor de uma jornada com fim declarado. Podemos não ver a criatura chegar e nem ao menos partir, mas você é um homem morto e não sabe. O príncipe do inferno e do fogo é o filho de Satanás e está com sede de sangue. O encerramento deste registro magistral se dá com “Bottoms Up”, que não dá chances de sequer respirar na pista. Os giros no ponteiro só aumentam, fazendo com que você nem veja o tempo passar direito. “Minha vida é uma grande festa / Onde eu sou o convidado especial / Para comemorar você precisa de dinheiro / Sem tempo para deitar, sem lugar para descansar” – a vida é uma festa para quem tem motivos para comemorar e com dinheiro no bolso tudo fica mais fácil. Porém, os exageros tomam conta da sua mente que começa a ver animais pequenos indo em sua direção, sem que você saiba qual o caminho certo a seguir. Whiskey, vodka e gin foram as poucas bebidas que você tomou e fará tudo isso novamente no dia seguinte, regado a este turbilhão de guitarras ásperas e baixo com efeito de chumbo caindo na sua cabeça, tudo isso somado a altíssimas doses de bateria. A obra está finalizada e condecorada. Você e eu passamos no teste deste grande desafio, e tenho a plena certeza de que deu vontade de percorrer tudo isso outra vez. Esse álbum é para glorificar de pé, senhoras e senhores!

Sobre o que acontece com o Acid nos dias de hoje, o status da banda é disputado no momento. Eles fizeram uma declaração em sua página do Facebook que a cantora Kate de Lombaert havia deixado a banda e que eles continuariam com o baterista Anvill como o único membro original. Isso foi contestado por uma postagem do festival Keep It True, que afirmava que Kate tocaria na edição de 2021 do festival com sua própria versão do Acid. Não me surpreenderei se em pouco tempo surgirem dessa disputa duas bandas. Um Acid mesmo e um Acid “A.D.” ou “Inc.”, tomando como exemplo Entombed A.D. e Venom Inc. No mais, o que importa é o resgate dessa grande obra que é simplesmente um exemplo a ser seguido quando o assunto é tocar Speed Metal. Ouça e brinde ao som do gigante belga Acid! Kate de Lombaert reina absoluta!

“Lord and master
Shepherd of sounds
Max overload, overpowering the slaves
Max overload, overpowering the stage”

Integrantes:

  • Kate de Lombaert (vocal)
  • Demon (guitarra)
  • Dizzy Lizzy (guitarra)
  • T-Bone (baixo)
  • Anvill (bateria)

Faixas:

  1. Max Overload
  2. Maniac
  3. Black Car
  4. America
  5. Lucifera
  6. No Time
  7. Prince of Hell and Fire
  8. Bottoms Up

Redigido por: Stephan Giuliano

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Comentários

  1. Um amigo meu fazia coleção de CDs e desistiu, sabendo que eu era também colecionador ele me deu vários cd’s entre eles o “MANIAC” do ACID… Cara, que álbum sensacional… um dos melhores álbuns de heavy metal que tenho em minha coleção e detalhe… IMPORTADO kkk!!!

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