A história improvável que salvou a vida de Chuck Billy: “Se aquela mulher não batesse na minha porta, eu teria morrido”

O vocalista Chuck Billy, uma das vozes mais emblemáticas do Thrash Metal, está prestes a compartilhar em detalhes os momentos mais marcantes de sua trajetória. No próximo dia 10 de novembro, o líder do Testament lançará o livro de memórias “Holding My Breath: The Two Testaments Of Chuck Billy”, através da Permuted Press. A obra promete revisitar tanto a ascensão de uma das maiores bandas da cena da Bay Area quanto a batalha contra um câncer raro que quase encerrou sua história precocemente.
Escrito em parceria com Dave Erickson, o livro foi estruturado em duas partes complementares. O chamado “Velho Testamento” mergulha nos primórdios do Thrash Metal, na formação do Testament, nas rivalidades, amizades e excessos que marcaram os anos dourados do gênero. Já o “Novo Testamento” aborda o período mais difícil da vida de Billy, quando, aos 38 anos, recebeu o diagnóstico de um seminoma de células germinativas, uma forma rara de câncer, e passou a lutar pela própria sobrevivência.
A publicação também revisita o histórico show beneficente “Thrash Of The Titans”, realizado em 2001, evento que reuniu gigantes do metal para ajudá-lo durante o tratamento e que acabou desempenhando papel importante na revitalização do Thrash Metal no início dos anos 2000. O livro conta ainda com prefácio de Rob Halford, do Judas Priest, e texto de encerramento assinado por Randy Blythe, vocalista do Lamb Of God.
Uma sequência de coincidências que mudou tudo
Recentemente, durante uma entrevista concedida a Scott Itter, do programa Dr. Music, Chuck Billy voltou a falar sobre o período em que descobriu a doença. O relato impressiona justamente porque tudo aconteceu por uma sucessão de eventos improváveis que, no fim das contas, acabaram salvando sua vida.
Segundo o músico, os primeiros sinais surgiram certamente quando ele começou a sentir dificuldades para respirar. Na época, entretanto, acreditava que o problema tinha uma explicação bastante simples.
“Eu tinha começado a fumar naquela época. Eu estava fumando havia cerca de dois ou três meses e simplesmente subi as escadas da minha casa, completamente ofegante, pensando: ‘Cara, esses cigarros estão acabando comigo. Preciso parar de fumar. Não consigo respirar.’ Essa foi a primeira coisa que percebi.”
O vocalista admitiu que dificilmente teria procurado ajuda médica por conta própria.
“Acho que tive muita sorte, fui muito abençoado e tinha um anjo olhando por mim, porque provavelmente eu teria continuado fumando de qualquer jeito. Eu era o tipo de cara que nunca ia ao médico. Provavelmente não tinha ido a uma consulta desde os exames físicos do ensino médio para jogar futebol.”
Foi então que aconteceu algo completamente inesperado.
“Um dia, totalmente do nada, uma corretora de imóveis bateu na minha porta e disse que tinha alguém interessado em comprar minha casa. Minha casa nem estava à venda.”
Inicialmente, Billy não demonstrou interesse em vender o imóvel, mas resolveu ouvir a proposta.
“Eu respondi que não tinha interesse, mas fiquei curioso para saber por quanto ela conseguiria vendê-la. Quando ela me disse o valor, pensei: ‘Bem, tudo bem. Se você conseguir vender por esse preço, talvez eu tenha interesse.'”
A proposta acabou sendo concretizada.
“E ela conseguiu. Vendeu a casa.”
A mudança que levou ao diagnóstico
Depois da venda, o músico decidiu se mudar para uma pequena cidade próxima de Antioch, local onde já passava bastante tempo por conta de outros projetos musicais.
“Naquela época, eu estava tocando com alguns caras em Antioch, que ficava a cerca de uma hora da minha casa, e passava bastante tempo em uma pequena cidade do interior muito agradável, onde não acontecia muita coisa. Então, quando vendemos a casa, eu disse à minha esposa: ‘Vamos nos mudar para lá. É tranquilo, fica às margens de um rio. Vamos para aquele lugar.'”
A mudança gerou mais uma coincidência decisiva.
“O baterista com quem eu trabalhava lá era um cara do Sadus, e a esposa dele trabalhava em um hospital da região. Ela nos recomendou um médico.”
O casal decidiu então trocar seus profissionais de saúde e realizar uma bateria de exames preventivos.
“Minha esposa e eu decidimos trocar de médicos, dentistas e tudo mais. Resolvemos fazer um check-up completo.”
Dias depois, veio a ligação que mudaria sua vida.
“O médico ligou depois dizendo que estava tudo bem com a minha esposa, mas queria que eu voltasse para fazer uma tomografia do tórax e alguns exames de raio-X adicionais. Foi assim que encontraram o problema.”
“Eu provavelmente teria morrido sem perceber”
Os exames revelaram uma situação extremamente grave. Um enorme tumor estava crescendo dentro de seu peito.
Ao recordar aquele momento, Chuck Billy não esconde a convicção de que uma série de acontecimentos improváveis foi responsável por mantê-lo vivo.
“Então foi uma situação completamente fortuita. Se aquela mulher nunca tivesse batido à minha porta para vender minha casa, eu provavelmente teria morrido sem sequer perceber o que estava acontecendo.”
Em seguida, o cantor revelou a dimensão do problema.
“Eu tinha um tumor no peito do tamanho de uma abóbora. Ele estava crescendo a partir do meu coração e pressionando meus pulmões, e era por isso que eu não conseguia respirar. Eu simplesmente não tinha espaço suficiente para que meus pulmões se expandissem.”
Após o diagnóstico, Chuck Billy iniciou um intenso tratamento que combinou quimioterapia com práticas tradicionais ligadas às suas raízes indígenas. Aproximadamente um ano depois, em 2002, os médicos o declararam livre do câncer.
“O câncer me tornou mais espiritual do que religioso”
Durante a conversa com Scott Itter, o vocalista também falou sobre a profunda transformação pessoal que viveu após superar a doença.
Criado em uma família católica, Billy passou boa parte da vida seguindo os ensinamentos religiosos que recebeu durante a infância. Entretanto, a experiência de quase morte, somada ao contato com curandeiros indígenas e tradições ancestrais, alterou completamente sua forma de enxergar a espiritualidade.
Segundo ele, as experiências vividas durante o tratamento foram tão impactantes que mudaram sua relação com a fé.
“Fui criado como católico. Catecismo, tudo isso durante a escola. Minha mãe era muito religiosa. Então eu diria que fui criado dentro da religião. Era o que eu conhecia.”
O músico explicou que as viagens ao redor do mundo e a busca por suas raízes indígenas acabaram ampliando sua visão.
“Desde a primeira vez que encontrei um homem-medicina, entrei nesse processo acreditando que tudo era uma questão de mente sobre matéria. Qualquer coisa que eu estivesse fazendo, eu acreditava que estava funcionando.”
Após superar a doença, sua percepção espiritual mudou definitivamente.
“A espiritualidade me tornou mais espiritual do que religioso.”
Hoje, sua casa abriga símbolos de diversas tradições religiosas e espirituais.
“Minha casa está cheia de diferentes deuses de várias crenças. Eu não tenho apenas um deus dentro de casa. Tenho representações de todos eles, porque hoje sou uma pessoa espiritual.”
O Testament vive uma das melhores fases de sua história
Enquanto se prepara para lançar sua autobiografia, Chuck Billy também atravessa um período extremamente positivo com o Testament. A banda lançou recentemente o excelente “Para Bellum”, trabalho que recebeu avaliações bastante favoráveis da crítica especializada e figurou em inúmeras listas de melhores lançamentos do ano.
O álbum foi elogiado pela capacidade de combinar a agressividade clássica do Thrash Metal com uma produção moderna e refinada, mostrando uma banda criativamente inspirada mesmo após mais de quatro décadas de carreira. Muitos críticos destacaram o equilíbrio entre peso, técnica e composição, características que sempre diferenciaram o Testament dentro da cena da Bay Area.
Além do reconhecimento da imprensa especializada, o grupo também vem ampliando sua presença nas plataformas digitais, atraindo novos ouvintes e consolidando números cada vez mais expressivos em streaming, festivais e turnês internacionais. Em um gênero onde muitas bandas históricas vivem apenas da nostalgia, o Testament segue produzindo material relevante e conquistando espaço entre veteranos e novas gerações de fãs.