A flopada do Sepultura explicada em detalhes

O Mundo Metal disse, desde o primeiro dia do anúncio do último show do Sepultura, que havia alguma coisa estranha naquela conta. A apresentação havia sido marcada para a Mercado Livre Arena Pacaembu, estádio que, dependendo da configuração utilizada, pode receber um público na casa de 32 mil a 40 mil pessoas em shows. Na última semana, porém, o evento foi transferido para a Suhai Music Hall, cuja capacidade fica próxima de 9 mil espectadores.

Mas de onde tiramos a afirmação de que colocar o Sepultura em um estádio era quase uma insanidade?

Da própria história do Sepultura.

Quando analisamos os shows próprios da banda ao longo da carreira, encontramos uma realidade muito diferente daquela em que o Sepultura poderia tocar em um estádio.

Registros espalhados pela trajetória do quarteto seguem um padrão bastante claro. Há shows próprios para pouco mais de mil pessoas, outros na faixa de 1.500 a 2.500 e, nos mercados mais fortes, apresentações capazes de chegar a 3 mil, 4 mil ou 5 mil espectadores. No início da turnê Celebrating Life Through Death, ainda sob forte apelo do anúncio da despedida, a banda chegou a realizar 3 apresentações em São Paulo com cerca de 8 mil pagantes.

A realidade histórica do público do Sepultura

Existiram cerca de quatro apresentações que funcionam como pontos fora da curva.

A mais famosa aconteceu em 1991, na Praça Charles Miller, em São Paulo. No auge da formação clássica com Max Cavalera, o Sepultura reuniu um público estimado entre 30 mil e 40 mil pessoas. Mas existe um detalhe fundamental: o show foi gratuito.

No ano seguinte, vieram os históricos shows da Indonésia, em 1992. Os números são conflitantes: algumas fontes falam em 25 mil pessoas, enquanto outras apontam algo próximo de 40 mil espectadores em cada apresentação. Biografias posteriores do próprio Sepultura mencionam mais de 100 mil pessoas somando os dois shows, mas esse número nunca foi comprovado. A estimativa mais confiável segue na casa de 40 mil pessoas em cada uma das duas apresentações.

O Sepultura chegou à Indonésia em 1992 encontrando um país com uma enorme geração de jovens e uma cena de Metal em franca expansão, mas com pouquíssimo acesso a grandes atrações internacionais. Além disso, o país vivia sob um regime autoritário, e o Metal funcionava como espaço de expressão e contestação. A banda brasileira conquistava o mercado internacional naquele momento e, por isso, chegou ao país com status de grande atração.

Outro grande público aconteceu em 1998, no Barulho Contra a Fome, no estacionamento do Anhembi, em São Paulo. Cerca de 30 mil pessoas compareceram, mas novamente havia elementos extraordinários envolvidos. Era a primeira grande apresentação oficial de Derrick Green diante do público brasileiro após a saída de Max Cavalera, o evento tinha caráter beneficente e reunia outras atrações e convidados. O ingresso custava apenas R$ 10 mais 1 kg de alimento, valor equivalente hoje a aproximadamente R$ 52.

Todos esses eventos aconteceram ainda na década de 1990. Depois disso, o Sepultura jamais repetiu esses feitos.

O fator Cavaleras

Obviamente, um grande anúncio poderia mudar completamente essa equação e justificar a escolha de um estádio.

A presença dos irmãos Max Cavalera e Iggor Cavalera, por exemplo, teria potencial para transformar o evento. O fator nostalgia de uma reunião da formação clássica certamente alcançaria até mesmo uma parcela de fãs que não tem interesse pelo Sepultura atual.

Seria um acontecimento histórico.

Uma despedida envolvendo Max Cavalera, Iggor Cavalera, Andreas Kisser e Paulo Jr. colocaria o último show em outro patamar comercial, simbólico e emocional. Seria justamente aquele elemento extraordinário capaz de tirar o evento da realidade habitual da banda e transformá-lo em algo muito maior.

Mas isso não aconteceu.

Apesar do convite público feito por Andreas Kisser e de tentativas de negociação que, segundo declarações posteriores, chegaram a envolver representantes e advogados das partes, as conversas não avançaram. Max Cavalera e Iggor Cavalera não aceitaram participar.

Com isso, desapareceu o maior elemento capaz de justificar uma estrutura para dezenas de milhares de pessoas.

O apelo emocional da despedida

O segundo fator que poderia funcionar como fiel da balança seria o próprio caráter de despedida. O problema é que o Sepultura passou quase três anos se despedindo.

A turnê percorreu extensamente o Brasil e passou por praticamente todas as regiões do país. Muitos fãs tiveram não apenas uma, mas várias oportunidades de acompanhar a despedida. Consequentemente, o impacto emocional provocado pelo anúncio inicial diminuiu bastante.

O público já teve tempo para assimilar o fim da banda, comprar ingresso, assistir ao show e realizar sua própria despedida. Quando o último concerto finalmente chega, boa parte daquele sentimento de urgência existente no começo da turnê já foi consumida.

Back to the beginning

Restaria ainda uma terceira possibilidade: transformar o evento em uma espécie de grande festival. Nesse cenário, o Sepultura continuaria como atração principal, mas seria acompanhado por outros nomes suficientemente fortes para atrair públicos diferentes.

Também não foi esse o caminho escolhido. A organização optou por montar uma programação baseada principalmente em bandas próximas ao Sepultura e em nomes de pequeno ou médio porte.

Ou seja: não houve reunião da formação clássica, o caráter de despedida já havia sido explorado durante anos e o evento também não recebeu um conjunto de atrações capaz de funcionar como um verdadeiro festival de grande porte.

Sendo assim, qual seria o elemento capaz de justificar um estádio para 30, 35 ou até 40 mil pessoas?

Na prática, nenhum.

E essa equação fica ainda mais complicada quando adicionamos outro fator decisivo: o preço dos ingressos.

Ou seja, nada na configuração anunciada justificava uma apresentação em estádio.

O desgaste causado pelas declarações

Existe ainda um último elemento que ajuda a entender por que essa despedida perdeu parte de seu poder de mobilização: o histórico recente de declarações de Andreas Kisser.

Nos últimos anos, o guitarrista se tornou presença constante em podcasts e programas de entrevistas. Isso naturalmente aumentou sua exposição, mas também produziu uma sequência de declarações polêmicas que geraram desgaste com os fãs.

O caso de Eloy Casagrande é um bom exemplo.

Andreas Kisser voltou diversas vezes ao assunto desde que o baterista deixou o Sepultura para ingressar no Slipknot. Em entrevistas, classificou como “esquisita” a maneira escolhida por Eloy Casagrande para sair, ressaltou que a decisão aconteceu poucas semanas antes do início da turnê de despedida e demonstrou repetidamente sua insatisfação com a forma como tudo aconteceu.

O problema é que, para o público, Eloy Casagrande simplesmente tomou a decisão correta.

Max e a contradição pública

Com Max Cavalera, o tom foi ainda mais pesado.

Andreas Kisser criticou publicamente as regravações dos primeiros discos feitas por Max Cavalera e Iggor Cavalera, classificando o trabalho como artisticamente fraco, irrelevante e chegando a dizer que teria “valor artístico zero”.

Em outra entrevista, ao falar sobre a transição do Sepultura para apenas uma guitarra após a saída de Max Cavalera, afirmou que, nos últimos anos da formação clássica, o antigo companheiro praticamente “só fazia barulho no palco”. Ao comentar sobre Max hoje, Andreas disse que é lamentável vê-lo tocando e finalizou dizendo que “não houve evolução técnica nenhuma”.

Essas declarações se tornam ainda mais descabidas quando colocadas ao lado de outro fato: o próprio Sepultura tentava convencer Max Cavalera e Iggor Cavalera a participar do último show da banda.

Andreas Kisser confirmou que conversou pessoalmente com Iggor Cavalera, que representantes das partes tiveram contato e que um convite formal chegou a ser encaminhado também para Max Cavalera. Os irmãos, no entanto, recusaram a participação.

É difícil imaginar uma estratégia de reconciliação mais contraditória.

De um lado, tentava-se construir nos bastidores uma reunião histórica. Do outro, continuavam surgindo publicamente críticas duríssimas justamente contra aqueles que seriam necessários para transformar o show em um acontecimento realmente extraordinário.

O risco de esvaziar a própria despedida

Outro episódio problemático veio quando Andreas Kisser falou sobre a própria natureza da despedida.

Ao ser questionado sobre a possibilidade de o Sepultura retornar no futuro, afirmou que isso seria “irrelevante agora” e admitiu que a banda talvez volte algum dia. Para o guitarrista, o importante seria viver o momento atual.

A declaração pode fazer sentido do ponto de vista pessoal, mas comercialmente produz um efeito perigoso. Uma turnê de despedida depende justamente da sensação de última oportunidade.

O fã compra o ingresso porque acredita que aquele momento não acontecerá novamente. Quando o próprio líder da banda admite, antes mesmo do fim da despedida, que uma eventual volta futura não deve ser descartada, a urgência desaparece.

Quando a comunicação destrói valor

E então chegamos à declaração que talvez simbolize melhor toda essa sequência.

Durante participação no programa Papo com Clê, do canal Corredor 5, Andreas Kisser discutia a ideia de artistas criarem música pensando na expectativa do público. Foi nesse contexto que disparou:

“Com todo o respeito, o fã que se foda, mano.”

Na sequência, ele explicou seu raciocínio. Existe um contexto, claro, mas isso não apaga o peso da frase. A comunicação constrói — ou destrói — valor.

No fim das contas, o Sepultura precisava convencer o público de que aquele seria um momento único. E, em boa parte dos últimos anos, a própria banda parece ter trabalhado contra essa sensação.

Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
1 comentário
  • boa materia ,andreas nao se ajuda acho artistas deviam tomar muito cuidado aonde vao e principalmente oque falam ele vive menosprezando o max e na hora dele ganhar dinheiro encima dele aew convite magico surgiu bem conveniente ainda se surprende que os cara negaram e brincadeira ,tirando o schizophrenia ele participou das gravaçoes originais o primeiro album e ep ele nem era da banda nao sei porque foi dar bedelho ,os cavaleras tem todo direito fazer oque eles quiseram fazer com o material que eles participaram ,acho andreas super estimou a importancia da banda colocou esse evento megalomaniaco dificilmente iria dar certo.

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