A ascensão e a “queda” do Thrash Metal segundo Gene Hoglan: “O grunge foi muito influenciado pelo Thrash”

O Thrash Metal viveu uma ascensão meteórica nos anos 1980. Em poucos anos, bandas extremamente velozes, agressivas e brutais deixaram o underground para conquistar espaço no mainstream, algo que parecia improvável para um estilo tão pesado. Ainda assim, a história mostrou que nomes como Metallica, Slayer, Megadeth e tantos outros conseguiram invadir paradas de sucesso, dominar revistas especializadas e transformar discos em fenômenos de vendas com milhares — e, em alguns casos, milhões — de cópias comercializadas ao redor do mundo.

Embora muitos enxerguem aquele período como um verdadeiro ponto fora da curva dentro da indústria musical, músicos que participaram diretamente da cena têm uma visão diferente. Entre eles está o renomado baterista Gene Hoglan, conhecido por seus trabalhos com Dark Angel, Death, Strapping Young Lad, Testament, Fear Factory e Dethklok. Antes de se consolidar como um dos bateristas mais respeitados do Metal extremo, Hoglan acompanhou o nascimento do Thrash Metal de perto enquanto atuava como roadie de bateria do Slayer. Em entrevista recente a Remzi “Jam Man” Yates, do Rocking With Jam Man, o músico explicou como enxerga o inesperado crescimento do gênero.

“Nós estávamos nadando contra a corrente”

Segundo Gene Hoglan, o sucesso do Thrash Metal aconteceu justamente porque a cena oferecia algo completamente oposto ao que dominava o mercado naquela época.

“Se é que havia alguma coisa, éramos nós que estávamos nadando contra a corrente, porque naquela época do thrash, hair metal, cock rock — ou seja lá como as pessoas queiram chamar — hard rock, radio rock… isso era enorme naquele período. E nós, fazendo um som brutal naquela época, éramos muito rejeitados pelas massas.”

Na sequência, o baterista afirmou que parte do público começou a se cansar da estética exagerada e da superficialidade que, segundo ele, dominavam o chamado Hair Metal.

“Foram os fãs que provavelmente também estavam começando a se cansar daquele hair metal e de tanto laquê. Tudo aquilo parecia meio plástico, aquele tipo de música. Parecia tudo meio falso. Esses caras apareciam todos produzidos e cheios de spray no cabelo nos fins de semana, mas durante a semana iam para seus empregos normais e coisas assim’, elaborou Hoglan. ‘Pelo menos o thrash metal era algo real. Subíamos ao palco usando o que vestíamos para ir ao show, o mesmo que usávamos na vida real, no dia a dia. E a música que tocávamos era realmente agressiva em oposição ao que estava acontecendo diante do público naquela época.”

A criação de uma cena que ninguém imaginava durar

Apesar do impacto que o estilo causaria posteriormente, Gene Hoglan revelou que os músicos da época jamais imaginaram que o movimento alcançaria tamanha relevância histórica.

“Nós não sabíamos que isso teria alguma longevidade. Era simplesmente a música que amávamos tocar. Era a música que amávamos criar. Nós realmente curtíamos ajudar a construir uma cena. Mas até onde isso chegou, não fazíamos ideia. Estávamos tocando a música que amávamos. E, como eu disse, acho que muita gente estava começando a ficar cansada de todas aquelas bandas [de hair metal] que soavam iguais, pareciam iguais e tinham o mesmo conteúdo lírico — festas, garotas, dirigir carros e esse tipo de coisa. Estávamos tentando fugir desse molde que outros tinham criado, e foi isso que acabou acontecendo. E é bem impressionante, 43 anos depois, ainda estar conversando sobre os primeiros dias e isso continuar fazendo parte de tudo.”

Além da velocidade e da agressividade sonora, o Thrash Metal carregava uma identidade própria. Enquanto muitas bandas apostavam em glamour e excessos visuais, grupos como Dark Angel, Slayer e Exodus focavam em riffs cortantes, letras sombrias e apresentações intensas. Essa autenticidade ajudou a criar uma conexão forte com fãs que buscavam algo mais cru e direto.

“O Metal nunca morreu”

Entretanto, o início dos anos 1990 marcou uma mudança drástica no cenário musical. Com a explosão do Grunge, muita gente passou a repetir que o novo movimento havia “matado” o Metal. Para Gene Hoglan, porém, essa narrativa nunca fez sentido.

“Isso é algo que eu sempre senti’, disse ele. ‘Quando o metal meio que desapareceu no começo dos anos 90, ele simplesmente voltou a ser underground como sempre foi para todos nós. Ele nunca morreu, mas a única coisa que permaneceu fiel a tudo isso foram todas as bandas de thrash ou influenciadas pelo thrash. Esses caras foram os que conseguiram surfar um pouco a maré. Todos nós que estávamos no lado mais pesado da música tínhamos orgulho de onde estávamos. Tínhamos orgulho do que havíamos feito, então não tínhamos nada do que nos envergonhar.”

Na visão do baterista, o Metal apenas deixou de ocupar o centro das atenções da indústria fonográfica. Ainda assim, a cena permaneceu viva no underground, sustentada por músicos e fãs extremamente fiéis ao estilo.

O Grunge devia muito ao Thrash

Por fim, Gene Hoglan destacou que o próprio Grunge absorveu diversas influências do Thrash Metal, o que desmonta a ideia de rivalidade absoluta entre os estilos.

“Quando o grunge surgiu e as pessoas disseram que o grunge matou o metal, isso não aconteceu de forma alguma. O grunge foi muito influenciado pelo thrash metal. Dá para ouvir isso. Você conversa com os caras dessas bandas grunge, das grandes bandas, e eles dizem: “Nós amávamos thrash. Éramos totalmente ligados ao thrash.” Então, o thrash foi um estilo musical de grande alcance e extremamente influente. Especialmente porque influenciou tudo o que veio depois dele, na minha opinião. Death metal, grindcore, tudo o que era realmente pesado, acho que realmente veio da era do thrash. Então, quando você tem raízes tão fortes, as árvores crescem altas.”

Décadas depois de sua explosão comercial, o Thrash Metal continua influenciando bandas, músicos e subgêneros extremos. E, para alguém que testemunhou tudo desde o começo como Gene Hoglan, isso apenas confirma que aquela explosão dos anos 1980 esteve longe de ser um acidente passageiro.

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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