Resenha: Lex Legion – “Lex Legion” (2026)

É possível afirmar sem exagero que o vocalista dinamarquês Kim Bendix Petersen, mundialmente conhecido como King Diamond, figura entre os artistas mais originais que o Heavy Metal já produziu. Muito além do famoso corpse paint e dos falsetes inconfundíveis, ele construiu uma identidade própria tanto à frente do Mercyful Fate quanto em sua carreira solo, combinando temáticas sombrias, interpretações teatrais, melodias memoráveis e composições repletas de mudanças de clima.
Ao longo dessa trajetória, King Diamond também ajudou a revelar músicos extraordinários. Diversos instrumentistas que passaram por sua banda se tornaram referências em seus respectivos instrumentos, especialmente por equilibrar técnica refinada, peso e senso melódico. Entre eles, poucos carregam uma ligação tão profunda com seu legado quanto o guitarrista Andy LaRocque, parceiro do vocalista desde meados dos anos 1980.
Ainda assim, existe uma curiosidade difícil de ignorar: embora siga ativo nos palcos, King Diamond não lança um álbum de inéditas desde “Give Me Your Soul… Please”, de 2007. Após enfrentar uma grave cirurgia cardíaca em 2010, o cantor retomou gradualmente sua rotina, realizou turnês, reativou o Mercyful Fate e voltou a falar sobre um novo trabalho solo. Porém, mesmo com os singles “Masquerade Of Madness”, de 2019, e “Spider Lilly”, de 2024, o aguardado “Saint Lucifer’s Hospital 1920”, anteriormente batizado como “The Institute”, continua sem uma data definitiva de lançamento.
Uma reunião que traz lembranças imediatas

Enquanto os fãs aguardam por novidades de King Diamond, Andy LaRocque decidiu olhar para trás e reunir alguns velhos companheiros de estrada. Ao lado dos guitarristas Pete Blakk, do baixista Hal Patino e do baterista Mikkey Dee, ele deu vida ao Lex Legion, projeto que resgata parte importante de uma das formações mais queridas da carreira solo do dinamarquês.
Os quatro instrumentistas gravaram juntos os clássicos “Them” e “Conspiracy”, dois discos fundamentais para a consolidação da faceta mais teatral e obscura de King Diamond. Posteriormente, LaRocque, Blakk e Patino participaram de “The Eye”, mas com Snowy Shaw na bateria. Já em “The Spider’s Lullabye”, Mikkey Dee não integrou as gravações, que tiveram Darrin Anthony nas baquetas. Portanto, o encontro do Lex Legion marca a reunião de quatro quintos daquela formação clássica do fim dos anos 1980.
Para completar o quinteto, o grupo recrutou o vocalista norueguês Nils K. Rue, conhecido por seu trabalho no Pagan’s Mind. O resultado chegou em 12 de junho, através da MNRK Heavy, com o álbum autointitulado “Lex Legion”. São nove faixas que não escondem a influência da fase clássica de King Diamond, mas evitam transformar a nostalgia em mera caricatura.
Um retorno às raízes, mas sem depender delas

O Lex Legion não parece interessado em funcionar apenas como um projeto de estúdio ou uma reunião pontual entre amigos. Mikkey Dee, que passou mais de duas décadas no Motörhead e atualmente integra o Scorpions, já havia demonstrado em entrevistas o desejo de voltar a tocar um Heavy Metal mais próximo de suas raízes. Com seus antigos parceiros novamente ao lado, a oportunidade surgiu no momento certo.
Além disso, a demora pelo novo álbum de King Diamond criou uma lacuna evidente para esse tipo de sonoridade. O próprio Andy LaRocque fez questão de destacar que as músicas do Lex Legion não são sobras de material escrito para a banda de seu antigo chefe: trata-se de um projeto separado, com identidade e repertório próprios. Ainda assim, é impossível ignorar o elo estético entre os dois universos.
Com uma produção moderna na medida certa — cortesia do próprio Andy LaRocque, que gravou, produziu, mixou e masterizou o disco —, o material soa como uma espécie de viagem no tempo para os fãs e, acredito, também para os próprios envolvidos. Não cabe comparação direta com os álbuns clássicos; seria completamente injusto e até sem sentido. Porém, o que podemos constatar é que, ao reunir esses músicos algumas décadas depois, o resultado naturalmente resgatou aquele mesmo tipo de sonoridade.
Outro ponto que merece destaque é que, apesar do som característico, o Lex Legion não aposta em uma história central ou em um tema conceitual, como tantas vezes aconteceu na discografia de King Diamond. Cada composição funciona individualmente, sem depender de uma narrativa maior. Isso deixa o álbum mais direto e também mais fácil de absorver logo nas primeiras audições.
Faixas curtas, melodias fortes e muito peso
O álbum inicia com os dois singles previamente disponibilizados, “Sleep Eternally” e “Gypsy Tears”, e imediatamente percebemos que Nils K. Rue consegue emular de maneira quase idêntica os vocais de King Diamond, incluindo os famosos falsetes. Apesar disso, o disco soa menos como uma cópia e mais como uma homenagem. Existe identidade própria ali, mesmo que esse DNA esteja inevitavelmente ligado à carreira solo do cantor dinamarquês.
“Sleep Eternally” surge com melodias de guitarra excepcionais da dupla LaRocque/Blakk, enquanto o refrão abre espaço para uma carga emocional e teatral tão atraente quanto funcional. Já “Gypsy Tears” é um Heavy Metal robusto, com backing vocals que você jura terem sido gravados pelo próprio King Diamond. É o tipo de música que imediatamente transporta o ouvinte para aquele universo de mansões amaldiçoadas, personagens perturbados e histórias macabras que fizeram tantos fãs se apaixonarem por essa fase.
“When The Stars Align” começa remetendo o ouvinte aos tempos de “The Eye” (1990), mas logo ganha vida própria, principalmente pelo peso investido. Aqui, Mikkey Dee espanca seu kit impiedosamente e nos lembra o motivo de ser considerado um dos bateristas mais festejados da cena Metal. Já “(I Am) The Ressurrected” possui uma linha mais próxima da crueza de “Them” (1988) e conquista imediatamente até o mais cético dos ouvintes.
Um ponto interessante neste trabalho é que todas as composições têm curta duração, variando entre três e quatro minutos. Dessa forma, a banda vai direto ao ponto, sem firulas e sem trechos instrumentais excessivamente longos, focando na força das melodias. O resultado soa como uma versão mais enxuta do trabalho realizado no passado, mas sem perder a essência.
Faixas curtas, riffs fortes e muita familiaridade

Um bom exemplo disso é “Lost Inside”, que apresenta certa similaridade com o tipo de composição ouvido em “Conspiracy” (1989), mas sem todas aquelas viradas e mudanças rítmicas mais extensas. A impressão é que o Lex Legion quis promover um revival da fórmula, simplificando um pouco a estrutura e tornando as músicas mais imediatas.
“Dreams Of Darkness” se apresenta inicialmente como uma das faixas mais autorais e menos ligadas diretamente ao legado de King Diamond. Trata-se de uma verdadeira pedrada, com destaque para os solos dessa dupla que dispensa comentários. “Saviours” possui um ótimo riff inicial e, novamente, o peso e a crueza de “Them” servem como parâmetro. Em determinado momento, um coro ao melhor estilo “ó ó-ó-ó” aparece e certamente fará o mestre King pensar: “Miseráveis, vocês foram longe demais”. Em uma palavra: excelente!
O álbum ainda traz a visceral “Life Eternal”, na qual Nils demonstra toda a sua classe vocal, provando ser um cantor multifacetado e com repertório vasto. Para encerrar a audição, a breve “Far Away” é uma belíssima instrumental que poderia compor tranquilamente a tracklist de “Conspiracy”.
Além da nostalgia
“Lex Legion” não tenta esconder sua origem nem fugir das referências que tornaram seus integrantes conhecidos. Pelo contrário: o disco abraça essa herança, mas a utiliza como ponto de partida. Há homenagens evidentes, especialmente no trabalho de guitarras, no clima sombrio e em determinados arranjos vocais, porém o resultado vai além de um exercício nostálgico.
Naturalmente, caso o projeto continue, será interessante observar até que ponto o grupo desenvolverá uma identidade ainda mais particular. Entretanto, como apresentação, o álbum acerta em cheio. Para os fãs de King Diamond que convivem há quase duas décadas com a espera por um novo disco de inéditas, o Lex Legion oferece uma alternativa digna, bem executada e carregada de familiaridade.
Nota: 8,5
Integrantes
- Pete Blakk – guitarra
- Andy LaRocque – guitarra
- Hal Patino – baixo
- Mikkey Dee – bateria
- Nils K. Rue – vocal
Faixas
- “Sleep Eternally”
- “Gypsy Tears”
- “When The Stars Align”
- “(I Am) The Ressurected”
- “Lost Inside”
- “Dreams Of Darkness”
- “Saviours”
- “Life Eternal”
- “Far Away”