Resenha: Yoth Iria – “Gone With The Devil” (2026)

A cena grega de Black Metal sempre apresentou características próprias. Ao longo das décadas, nomes como Rotting Christ e Varathron provaram que era possível expandir os limites do gênero sem abrir mão de sua identidade. Seguindo essa mesma linha, o Yoth Iria — grupo que conta com o veterano baixista Jim Mutilator, ex-integrante do Varathron — dá mais um passo importante com a chegada de “Gone With The Devil”, terceiro álbum de sua discografia. Lançado em 8 de maio pela Metal Blade Records, o trabalho mostra uma banda cada vez mais confortável em explorar novas possibilidades sonoras.

Com dez faixas distribuídas em pouco mais de 44 minutos, o registro rapidamente demonstra que não se trata de mais um representante do Black Metal interessado apenas em reproduzir fórmulas desgastadas. Embora as raízes extremas permaneçam evidentes durante toda a audição, o quarteto investe em uma abordagem mais ampla, incorporando elementos épicos, melodias cuidadosamente construídas e arranjos que ampliam significativamente o alcance de suas composições.

O peso da atmosfera e das grandes composições

Os momentos mais marcantes do álbum aparecem justamente quando a banda aposta em construções mais grandiosas. Faixas como “Dare To Rebel”, “The Blind Eye Of Antichrist”, “3AM” e “Blessed Be He Who Enters” revelam um grupo interessado em criar experiências imersivas. Coros bem posicionados, passagens atmosféricas e uma ambientação sombria ajudam a construir uma identidade que vai muito além da agressividade tradicional do gênero.

Ao invés de recorrer apenas à velocidade ou à brutalidade, o Yoth Iria investe na criação de tensão e dramaticidade. O resultado é um repertório que exige atenção do ouvinte e recompensa cada nova audição com detalhes que inicialmente podem passar despercebidos. Há uma preocupação evidente em trabalhar dinâmicas, contrastes e texturas, algo cada vez mais raro dentro de um segmento frequentemente preso a convenções rígidas.

Vocais versáteis e músicos em grande fase

Outro destaque importante está na performance vocal de He. Seus guturais carregam força e personalidade, mas o que realmente chama atenção é a maneira natural com que alterna entre registros agressivos e vocais limpos. Essa versatilidade aparece de forma inegavelmente inspirada em “I, Totem”, uma das composições mais elaboradas do disco e também uma das mais representativas de sua proposta artística.

Na parte instrumental, o trabalho mantém um nível impressionante do início ao fim. Assim, as linhas de bateria de Bill “Vongaar” Stavrianidis assumem um caráter quase ritualístico em determinados momentos, especialmente durante “Once In A Blue Moon”, contribuindo para a atmosfera mística que permeia o álbum. Enquanto isso, Jim Mutilator entrega uma atuação sólida e precisa, preenchendo os espaços com linhas de baixo encorpadas que reforçam o peso das composições sem comprometer sua fluidez.

Guitarras inspiradas e um encerramento memorável

Em “Give ‘Em My Beautiful Hell”, a banda apresenta algumas das instrumentações mais diferenciadas do trabalho. Ainda assim, quem rouba a cena são os guitarristas Nikolas Perlepe e Naberius, responsáveis por riffs criativos, harmonizações sofisticadas e solos executados com extremo bom gosto. O mais interessante é que toda essa riqueza de detalhes não transforma o material em algo excessivamente melódico ou distante de suas origens extremas.

Os minutos finais decerto reservam duas verdadeiras joias. “The End Of The Known Civilization” surge carregada de atmosfera e apresenta uma influência perceptível dos também gregos do Katavasia, enquanto “Harut, Government, Fallen” encerra a experiência de maneira emocionante, trazendo melodias envolventes e coros que remetem diretamente à fase viking do lendário Bathory.

Ao final da audição, fica evidente que “Gone With The Devil” representa um passo importante na evolução do Yoth Iria. O grupo demonstra maturidade para expandir seus horizontes e explorar novas possibilidades sem abandonar completamente as características que definiram sua identidade até aqui. Existe, naturalmente, o risco de avançar demais e descaracterizar parte de sua proposta original nos próximos trabalhos. No entanto, se a inspiração e o nível de execução apresentados neste álbum servirem de parâmetro, a banda possui argumentos suficientes para continuar essa jornada com confiança.

Nota: 9

Integrantes:

  • Bill “Vongaar” Stavrianidis (bateria)
  • Nikolas Perlepe (guitarra)
  • Naberius (guitarra)
  • He (vocal)
  • Jim Mutilator (baixo)

Faixas:

  • 01 Dare To Rebel
  • 02 Woven Spells Of A Demon
  • 03 The Blind Eye Of Antichrist
  • 04 I, Totem
  • 05 3am
  • 06 Give ‘Em My Beautiful Hell
  • 07 Once In A Blue Moon
  • 08 Blessed Be He Who Enters
  • 09 The End Of The Known Civilization
  • 10 Harut, Government, Fallen
Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
Deixe seu comentário