Andreas Kisser e Paulo Baron criticam debate sobre “falsas despedidas”: “Ninguém pode ditar quando um artista tem que parar”

Ao longo das últimas décadas, as chamadas turnês de despedida se consolidaram como uma verdadeira máquina de gerar receita dentro do Rock e do Heavy Metal. Em teoria, esses eventos simbolizam o encerramento de trajetórias históricas, oferecendo aos fãs a última chance de ver seus ídolos ao vivo. No entanto, na prática, essas promessas soam falsas e raramente se sustentam — e é justamente aí que surgem os problemas.
Com frequência, essas turnês exploram um forte apelo emocional que impulsiona a venda de ingressos, muitas vezes com preços inflacionados. Além disso, funcionam como uma ferramenta eficiente para reacender o interesse em bandas que já não vivem seu auge criativo, apostando principalmente na nostalgia. Como consequência, o conceito de “despedida” sofre um desgaste significativo.
O desgaste do conceito de despedida
Diversos nomes contribuíram para esvaziar o peso dessa palavra. Bandas como Manowar, Scorpions, Kiss e até Slayer já anunciaram encerramentos que, posteriormente, deram lugar a retornos — em alguns casos, mais de uma vez. Além disso, episódios recentes envolvendo Rush e Twisted Sister reforçam ainda mais a percepção de que o “adeus” pode ser apenas uma pausa.
Diante desse histórico, não surpreende que a turnê final do Sepultura, intitulada “Celebrating Life Through Death”, tenha sido recebida com certo ceticismo. Ainda assim, o grupo brasileiro conseguiu algo raro: voltou ao centro das atenções globais, ocupando lugares em grandes festivais e lotando casas de show ao redor do mundo.
Entretanto, conforme o tempo passou, dúvidas começaram a surgir. Afinal, trata-se realmente do fim ou apenas de mais um capítulo dentro dessa tradição de despedidas não tão definitivas?

Declarações recentes reacendem a polêmica
Agora, uma nova declaração de Andreas Kisser, feita em entrevista ao canal de Régis Tadeu — capitaneada por Felipe Andreoli e pelo empresário Paulo Baron — adiciona ainda mais combustível ao debate.
Durante a conversa, Andreoli levantou um ponto pertinente ao afirmar que, mesmo após uma decisão de encerrar atividades, é natural que músicos sintam vontade de retornar no futuro:
“Estamos com saudade de fazer aquilo de novo. Quem é que vai dizer, ‘Não, você falou que ia parar então não pode voltar?'”
A reação de Kisser e Baron foi de concordância imediata. Em seguida, o guitarrista do Sepultura respondeu:
“Eu falei, ‘Nós vamos parar e se voltar ou não, isso é irrelevante’, é completamente irrelevante. O tempo que vai dizer, a gente pode nunca mais voltar, como pode voltar. E eu sempre deixo as portas abertas.”
Na sequência, Baron reforçou a ideia:
“Perfeito! Perfeito! Eu costumo falar isso sobre essa conversa de ‘falou que vai acabar então tem que acabar’. Nas lives que a gente faz com o Régis, escuto muito essa crítica do fato do artista… e o fã sentir que ele tem o direito de falar quando um cara deve acabar. E ele fala assim: ‘Você já falou que acabou!’. Às vezes o músico sente uma necessidade de subir no palco, o fã não entende isso.”

Estratégia ou espontaneidade?
Antes de mais nada, é preciso desmistificar esse discurso. As falas de Kisser e Baron soam, em muitos momentos, como tentativas de suavizar ou até esconder intenções previamente planejadas. Afinal, é amplamente conhecido que turnês de despedida, shows de reunião ou retornos estratégicos geram enorme engajamento — e, consequentemente, aumentam significativamente as receitas.
Além disso, diversos artistas já recorreram a esse tipo de estratégia para recuperar visibilidade em momentos de menor prestígio. Curiosamente, os próprios envolvidos no debate servem como exemplos disso.
O Angra, por exemplo, vinha de uma turnê comemorativa do álbum Temple Of Shadows, que ganhou ainda mais destaque após o anúncio de um hiato por tempo indeterminado. No entanto, esse intervalo durou cerca de sete meses e abriu caminho para mudanças na formação, incluindo a saída de Fabio Lione, a entrada de Alírio Neto e shows da formação nova era. Ao final, a banda capitalizou tanto o hiato quanto o retorno — tudo em um curto espaço de tempo.
No caso do Sepultura, o questionamento levantado por Felipe Andreoli é válido. Não há problema algum em uma banda encerrar atividades e, anos depois, decidir voltar — como ocorreu com o Slayer (5 anos depois), ou em intervalos ainda maiores, como os casos de Rush e Twisted Sister (10 anos depois).
No entanto, o que chama atenção é o fato de Andreas Kisser já mencionar um possível retorno antes mesmo do fim da turnê de despedida. Isso transmite a sensação de algo previamente planejado.

O discurso e a justificativa já estão prontos!
Vale lembrar que, na época do anúncio da turnê, isto é, no início do ciclo, o discurso girava em torno de um encerramento definitivo. Contudo, conforme o fim se aproxima, as declarações passaram a incluir termos como “precisamos descansar” e “uma pausa será saudável”, além de abrir margem para possibilidades futuras.
Em entrevista ao Metal On Tap, Kisser chegou a citar exemplos de bandas que anunciaram despedidas e retornaram, como se atitudes questionáveis de terceiros validassem decisões futuras:
“Vamos explorar territórios diferentes e tal. E o futuro, vamos lidar com ele quando chegar. As possibilidades estão sempre abertas. Não acho que temos força para fazer oito turnês de despedida, mas quem sabe? [risos] Quero dizer, você vê Scorpions, vê Ozzy Osbourne, vê Kiss, Mötley Crüe, Slayer… Está tudo bem descansar e sair um pouco. Isso é saudável, porque mostra que a arte não está realmente ligada a um estereótipo do que você deve ser aos olhos dos outros.”
O ponto crítico: a responsabilidade não é do fã!
Retomando a entrevista atual, Baron ainda afirmou:
“Eu acho que ninguém pode ditar, ninguém, e eu falo aqui claramente, ninguém pode ditar quando um artista tem que parar. Acho que o único que pode ditar se um artista parou, é o próprio artista.”
E Kisser complementou:
“O fã tem total liberdade de não comprar ingresso. Não compra o disco. O fã tem toda a liberdade. Ninguém tá forçando ninguém a fazer nada”
Entretanto, esse tipo de argumento levanta questionamentos importantes. Em muitos casos, parece haver uma subestimação da capacidade crítica do público. Ao assistir determinadas escorregadas argumentativas, ficamos com a nítida impressão que estas figuras acreditam piamente que estão falando para uma massa de acéfalos.
A ideia de que fãs “ditam regras” não se sustenta diante da realidade.

A decisão de encerrar atividades acontece nos bastidores — em reuniões fechadas com integrante da banda, executivos e empresários — sem consulta ao público. Por outro lado, os fãs recebem essa informação como um fato consumado — muitas vezes acompanhada de campanhas que vendem a ideia de um último momento histórico. Isso gera comoção, aumenta a demanda e leva muitos a fazer sacrifícios financeiros para participar desses eventos.
Diante disso, é perfeitamente compreensível que o público se sinta frustrado ao perceber inconsistências no discurso. Soa como uma traição.
No fim das contas, a imagem do fã como um “ditador” que controla decisões artísticas parece mais uma construção conveniente de Baron do que um reflexo da realidade. Soa como uma maneira de culpar terceiros ao invés de assumir responsabilidades.
Resta saber como o público reagirá aos próximos capítulos dessa história — especialmente quando as palavras ditas hoje por Andreas forem confrontadas com as ações do amanhã. Como ele mesmo disse, “O fã tem total liberdade de não comprar ingresso. Não compra o disco!”.
e tao mais honravel dizer vai dar pausa ou desacelerar igual o vocalista do sodom disse de grandes turnes deve ser algo exaustivo ,problema mora nesses retornos rapidos esse do angra foi piada talvez o hiato mais curto da historia do metal e aquela nostalgia vende e muito se tem besta para comprar tanto o discurso da ultima vez ao vivo vai ter empresario para apostar mais uma vez nessa carta praticamente ganha ,vide o kiss viveu disso por anos literalmente.