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Resenha: Exkil – “Violence Prevails” (2025)

Quando pensamos no Metal praticado no Brasil é impossível não se deixar levar pelo sentido de dualidade que estas duas palavras representam. “Metal” e “Brasil” em uma mesma frase pode significar coisas diferentes e, você pode se lembrar de nomes como Sepultura, Krisiun e Angra, que se deram bem e conseguiram ter carreiras longevas, mas pode pensar também em como é difícil ter uma banda e tocar Metal em um país que valoriza estilos como Funk, Sertanejo e Pagode.

Se o pensamento pender para a primeira opção, iremos chegar ao consenso que temos excelentes músicos, excelentes bandas, muita capacidade criativa, porém, pouca estrutura somada a um auto grau de amadorismo. Se você foi pelo outro caminho e pensou em como é difícil tocar Metal na terra do Trap, dos MC’s e dos “artistas” que nem artistas são, saiba que é mais complicado ainda quando entendemos que são estes os nomes que dominam as paradas de sucesso, os shows organizados com verbas governamentais da lei de incentivo a cultura e, consequentemente, são os donos das melhores estruturas e dos eventos realmente grandes.

Ser profissional, competente, caprichoso e, acima de tudo, talentoso, no Brasil, é algo muito difícil de se ver. E por isso precisamos dar todos os louros a quem os merece, a Exkil, banda de Thrash Metal que foi formada em Piracicaba, interior de São Paulo, traz todos os pré-requisitos necessários para alçar voos mais altos. Isto, é claro, se estivéssemos em um país sério. Como não estamos, nos resta torcer para que estes 4 rapazes encontrem uma solução alternativa (e criativa) e consigam mostrar o seu trabalho para cada vez mais pessoas.

Photo: Léo Benaci (@leobenacifoto)

O acaso não existe

O grupo foi formado em 2021, lançou o ótimo EP “Between Death And Chaos” em 2022 e, agora, no último dia 4 de julho, apresentaram finalmente seu primeiro disco completo chamado “Violence Prevails”. A espera já gerava expectativas por conta dos singles disponibilizados, que imediatamente chamaram nossa atenção por conta da ótima produção, bem como das performances técnicas.

Os três singles apresentados previamente foram “Violence Prevails”, “Titans Rising” (com participação do vocalista do Korzus, Marcello Pompeu) e “Reckoning”. Todas estas apresentam uma banda musicalmente pronta para figurar entre os principais nomes do nosso Metal, mas a Exkil ainda guardou alguns adendos importantes para seu debut.

O primeiro deles é o profissionalismo. O quarteto faz tudo direitinho e como manda o figurino. Trabalham bem suas redes sociais, possuem videoclipes elaborados, estão constantemente fazendo shows e fizeram questão de nos apresentar um material certamente diferenciado se pensarmos na realidade descrita no início deste texto.

Um segundo fator é a questão técnica. Todos os integrantes são ótimos e, desse modo, desempenham de forma extremamente satisfatória as suas funções. O grupo é formado por Daniel Ferrante (vocal e guitarra), Gabriel Bunho (guitarra), Evandro Tapia (baixo) e Evandro Kandalaft (bateria). Todos eles, sem exceção, soam como destaques individuais em momentos diferentes da audição.

O último e derradeiro ponto são as composições. Logo, de nada adiantaria o grupo ser profissional e os integrantes tocarem uma enormidade se as músicas não fossem boas o suficiente. Mas elas são! Tão boas que eu me arrisco a dizer que este disco fatalmente estará entre os melhores do ano.

Reprodução/Facebook oficial Exkil

Início convincente

“Violence Prevails” foi gravado no Casarão Music Studio, com produção de Franco Torrezan. A arte da capa é um trabalho artístico de Douglas Alves e, como em todo bom álbum de Thrash Metal, traz um conceito. A serpente está dominando a justiça e a liberdade e, com isso, os nomes das faixas estão sendo jogados ao ar. Cada uma das músicas representam mazelas da sociedade e o título expõe o óbvio em nosso mundo atual, “a violência prevalece”.

O disco abre com “Oblivion”, que é muito longe de ser apenas uma mera introdução e já traz a Exkil nos dando uma prévia do que está por vir durante toda a audição, com peso, pegada e visceralidade. “Drive You Nuts” abre os trabalhos propriamente ditos com muita energia e, de cara, empolga em um Thrash trabalhado e veloz. Mesmo possuindo pouco mais de 4 minutos, somos imersos em construções complexas, viradas e performances estonteantes. Não poderia começar melhor.

A faixa título “Violence Prevails” é nada menos que uma das melhores músicas lançadas em 2025. O refrão é ótimo e propício para ser cantado ao vivo, os solos de Gabriel Bunho são um deleite e os vocais de Daniel Ferrante se encaixam de forma perfeita. Aqui temos uma candidata a hino logo no início do tracklist. “Titans Rising” chega apresentando um lado diferente da banda, com um ritmo mais cadenciado e pesado, ótimos grooves e muita técnica sendo exibida na parte dos solos. Importante mencionar que a presença de Marcello Pompeu (Korzus) dá um toque a mais de classe no refrão.

Photo: Léo Benaci (@leobenacifoto)

Sem faixas desnecessárias

Em “Blood Fueled Desires” temos o que mais se aproxima de um Metal mais moderno, porém, sem se distanciar da veia Thrash. “Intoxicate” poderia ser um dos singles do álbum (e ainda pode), tamanho é seu poder de devastação. O riff no início é esmagador e, no decorrer da música, lembra o Metallica dos tempos áureos com alguns solos que nos remetem diretamente ao Megadeth da fase Mustaine/Friedman. Além disso, o refrão é poderoso e seria capaz de apostar que vai funcionar bem nos shows ao vivo. “Nothing Shall Remain” é brutal em todos os aspectos, musicalmente, tecnicamente e criativamente. Um dos muitos pontos altos do disco e, com toda certeza, uma das que vão chamar mais a atenção dos fãs e gerar mais repeats.

Na sequência, mais uma das minhas favoritas, “For The Frightened”. Com um início que incentiva o headbanging, aqui temos mais uma que apresenta referências nítidas ao Megadeth em sua fase de ouro. “Mistreat” tem uma introdução caprichada, depois explode num ritmo mais veloz e contagia com suas linhas de guitarra caprichadas. Neste ponto da audição precisamos falar da parte rítmica formada pelos Evandros (Tapia e Kandalaft), o que estes dois senhores fazem é uma sacanagem. A quantidade de camadas, viradas, linhas equilibradas e precisão cirúrgica imprimidas em cada uma das canções são um show à parte.

Photo: Sérgio Durrer @sergiodurrer

Final apoteótico

No final, temos duas verdadeiras bordoadas, “Reckoning” e “Lies”, cada uma proporcionando destruição à sua maneira, mas ambas igualmente aniquiladoras. “Reckoning” é a voadora no pescoço e “Lies” o cruzado de direita no meio da fuça. A primeira convoca o moshpit e a segunda, apesar de mais trabalhada, ainda carrega um poderio avassalador capaz de castigar os pescoços mais treinados.

Ao final da audição, o que mais surpreende é a maturidade da Exkil logo em seu primeiro álbum completo. Há uma quantidade grande de bandas por aí com discografias extensas e que ainda não conseguiram apresentar um trabalho desta magnitude. O lado ruim de “Violence Prevails” é que ele acaba e você automaticamente pensa, “quanto tempo vamos ter que esperar para ouvir mais músicas novas dessa banda?”. Esperamos que não muito.

Em um ano onde o Thrash Metal é um dos destaques em termos de bons lançamentos e discos como os novos trabalhos de nomes como Sacrifice, Warbringer, Hazzerd, Warfield, Razorgrave e Sodom, tem se destacado entre os thrashers de todo o mundo, temos mais um nome que chega com força para brigar entre os grandes de 2025: a Exkil. E é do Brasil.

Audição obrigatória!

Nota: 9,5

Integrantes:

Faixas:

  1. Oblivion
  2. Drive You Nuts
  3. Violence Prevails
  4. Titans Rising
  5. Blood Fueled Desires
  6. Intoxicate
  7. Nothing Shall Remain
  8. For the Frightened
  9. Mistreat
  10. Reckoning
  11. Lies
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