Resenha: Blackmass – “Enthroned Legion” (2019)

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Sabemos que Curitiba é constantemente elogiada por diversos aspectos, entre paisagem, locomoção, pontos turísticos, além de suas próprias tradições e curiosidades. Porém, outro fato marcante para a gloriosa capital do estado do Paraná é que de lá surgiram e continuam a aparecer ótimas bandas de Metal, como é o caso desta que vamos conversar e dissecar a sua ossada juntos. O Brasil por si só é um país rico neste quesito, embora se mantenha ainda como um país inóspito para a cultura em si, mas que detém uma grande parcela da população ávida por produzir grandes trabalhos para o seu povo. Todos os setores culturais sofrem com a carência de investimentos, tornando ao mesmo tempo essa população cada vez mais aguerrida e com vontade de vencer. Claro que ao mesmo tempo em que isso ocorre, transitam seres inúteis que só pensam em atrapalhar e puxar o tapete daquelas que jogam limpo, e se eu pudesse, jogaria esses seres em um incinerador gigante. Mas, como o assunto é para tratar da boa e maravilhosa “múzga”, nos vemos diante de uma banda que no ano de 2019 lançou aquele que fecha o dito conhecido como trinca de ases. E para uma banda conseguir tal é feito é preciso muito empenho e reconheço bem quando se chega a este número plenamente satisfatório.

O início da jornada do Blackmass é contado a partir de 2001, mas somente em 2002 é que surgiu o primeiro trabalho oficial da banda através da demo “Diabolical Ritual”. Com esse nome já fica fácil dizer que se trata de uma banda de Black Metal, ainda mais para quem acompanha de perto essa linha sonora mais extrema dentro do Metal. Já no ano seguinte em 2003, foi lançado o EP “Episculum, Servo Servorum Satanii”, consolidando o que nós destacamos a princípio. Pulamos um ano e adiantando o calendário para 2005, temos o debut dos caras nomeado “Gloria Diaboli”. Isso me lembra um bocado o incrível Satyricon. Bem, continuando a trajetória dessa grata discografia do Blackmass, temos o álbum “Nemesis” de 2008, e a segunda demo intitulada “Halls of Condemnation, que foi lançada seis anos após o último álbum de inéditas. Mais cinco anos de espera e, enfim, tivemos o lançamento de “Enthroned Legion” no dia 20 de dezembro via Mutilation Productions, que possui uma excelente loja na famosa Galeria do Rock, no centro de São Paulo. Alysson F. Irala é o nome do responsável pela gravação, produção e engenharia do mais recente disco. De acordo com a própria banda, o conceito e a arte gráfica são criações de Vintras, que uniu as ideias passadas pelos integrantes sobre a Legião Entronizada, na qual o mesmo explorou isto dentro da sede do clero católico. A mensagem a ser passada é a entronização de Lúcifer na basílica de Pedro, significando em um triunfo da iluminação ou iluminismo sobre a base da fé cristã que é dogma da redenção.

Muitos dizem que houve um período em que o Black Metal no Brasil estava um tanto em baixa, talvez pelo fato de boa parte das bandas estarem tocando longe dos lugares recentes que surgiram após a queda da histórica casa de shows Led Slay, também em São Paulo. Para o dono do pincel da marca Tigre, este é apenas um fato que coincidiu e que não houve queda alguma. O fato é que grande parte das bandas de Black Metal costumam optar pelo caminho mais underground possível, e quando alguma banda desta subvertente se destaca esta mesma é massacrada pelos próprios fãs por acharem que estão se vendendo. E muitas destas acabam cedendo à pressão exercida por estes ditos fãs. Logicamente que esse número não é tão expressivo se analisarmos com a devida atenção, afinal de contas, muitas bandas do Metal negro seguem seus caminhos em busca de maior projeção e também uma maior fatia de mercado neste cenário tão disputado dentro do Black Metal nacional. Ou seja, pode ficar tranquilo que o leque é vasto e sem ir muito a fundo, consegue-se encontrar grandes bandas com excelentes discos por aqui sim. Só não serão citadas para não deixar o texto grande demais e destoando do que realmente deve ser tratado por aqui, ou seja, novamente, o novo álbum do Blackmass. E aproveitando este término de parágrafo, coloco sobre a mesa os dizeres de que a banda pensa muito diferente destes radicais que apontam o dedo para determinada banda que suba de patamar graças ao seu trabalho. Para os integrantes do Blackmass, qualquer material produzido e colocado à venda, seja por LP, CD ou K7, estará automaticamente inserido dentro do mercado, e para quem realmente gosta do assunto, sempre pensará em obter lucro frente ao seu trabalho. Claro que não é algo simples, ainda mais em se tratando do país ignorante e de terra fértil em que vivemos, mas a luta tem de continuar e quem realmente gosta deve continuar prestigiando e adquirindo material físico da banda que de fato gostar.

Para entender sobre o som do Blackmass, é bom você pegar aí na sua coleção, caso tenha, álbuns do compatriota Evilwar, Marduk, Besatt, Belphegor, e Varathron. Ao menos um álbum de cada e comece a juntar os detalhes oferecidos pelas bandas destacadas, e a partir daí poderá ter uma noção mais próxima do que vem a ser a linha sonora dos curitibanos. Os riffs de guitarra são acelerados e constantes, mostrando que para exercer tal função é preciso muita energia e preparo para não enfraquecer e perder a velocidade nas palhetadas. Os dedilhados fazem o contraponto e oferecem uma dinâmica maior ao esquadro montado para cada trecho das composições. As linhas de baixos conduzem o alicerce para um lugar mais firme e encorpado, sem se perder no meio do caminho, o que ocorre quando não se está completamente alinhado. A bateria remete àquela metralhadora que contém mira a laser, pois o desfecho tanto das partes mais extremas quanto as mais cadenciadas, são muito bem trabalhadas. Sem contar os temas característicos contrários aos dogmas religiosos, blasfêmias, cumprimentos ao nobre Satã, e por aí vai. E é neste clima que daremos início a essa viagem triunfante do antidivino em busca de redenção e controle da nação universal.

“Incêndio! Dor!

Medo! Desdém!

Aniquilação!

Vingança e ódio!”

A Legião Entronizada abre os porões sem luz com “Wrath Of Legion” e seus primeiros versos que foram enfatizados acima. A ira da legião toma a cena de assalto e chega para reivindicar o seu trono para que o verdadeiro rei do submundo possa assumir o controle de tudo. Com guitarras estridentes de palhetadas constantes da dupla Lord Aeshma e D. Katharsis, a levada da breca é aquela bem tradicional de como as bandas que foram colocadas como exemplos para a sonoridade do Blackmass faziam e continuam a destilar o seu ódio ao plano religioso mentiroso e inaceitável. “Veja a chama da ira / Para queimar todo o reino cristão / Derrote todos os seus inimigos / Apague qualquer vestígio de obediência” – os manifestos dão prosseguimento à tomada de posse para que o mal prevaleça em meio ao peso derramado pelo contrabaixo de Ondska e as sequências brutais de bateria de Danda. E antes de partir para a próxima “múzga”, é bom ressaltar os vocais de Vintras, que despejam toda sua potência em cada verso esganiçado de modo preciso e sem forçar a barra em nenhum momento. É o tipo vocal de Black Metal extremo que sempre soa bem aos ouvidos de quem gosta de uma sonoridade mais agressiva. Em seguida temos a crescente do enxofre através de “Rising Suphur”, faixa ainda mais extrema que sua antecessora, mostrando que não é qualquer um que conseguirá seguir em frente nessa jornada maquiavélica. Toda a receita sonora para este tipo de sonoridade é colocado em evidência desde seus primeiros segundos de barulheira da mais alta qualidade. “A escolha inevitável / Reivindique sua decisão agora / Lamente suas crenças estúpidas / Ou ainda escravizado pelo credo da igreja!” – Os avisos sobre a falsa conduta e os preceitos duvidosos dos senhores de batina se mostram cada vez mais enraivecidos e repletos de dor por conta de toda essa tramóia desde muito tempo atrás com destaque para os solos de Lord Aeshma.

“Mortuus quod in caelum

et mortuus quod in terra ad aeternum”

É assim que inicia o terceiro hino das sombras chamado “Mortuus Est”, de modo impetuoso repleto de ódio à Santíssima Trindade. Momentos de coro e paradas que dão aquele respiro de meio segundo fazem dessa terceira música, a terceira ponta do tridente diferente das outras, tornando o álbum mais versátil do que poderia se imaginar. Ainda mais por se tratar de um subgênero dentro que quando mais direto, costuma ser bem direto mesmo. “Discípulos fogem com medo da morte / Véus rasgados em suprema impotência / Até o sol recuar / Enquanto o salvador morre de dor” – não se aceita em hipótese alguma qualquer menção bíblica de forma que a torne verdadeira. Fechando a primeira metade do artefato sombrio aparece no reflexo do espelho a faixa “Black Crowned Kings”, com seu arsenal afiado e revelador da pútrida e horripilante mensagem contida naquele livro famoso maldito. “A sexta taça da vingança satânica / Sete trombetas do abismo anunciam / O fim das divindades que escravizaram os humanos / O paraíso cai na perdição eterna” – chega o momento em que o martelo do inferno bate no altar e condena os divinos ao exílio para que todo o reino dos céus agora derrotado veja o seu império celestial cair aos pedaços, enquanto Lord Aeshma e D. Katharsis dilaceram o pouco que sobrou da alma daqueles que não estão adequados a ouvir o som deste fruto proibido chamado Blackmass.

O lado b da bolacha abre com “Descendit Ad Infernus” e mostra uma banda bem entrosada e sabedora do que está fazendo ao notar a junção de mais elementos enriquecedores de sua própria musicalidade. Vocais mais graves com partes em modo de prenúncio, dedilhados espinhentos com a clava forte banhada em riffs com palhetadas ininterruptas. Tudo isso somado ao alicerce formado pelo baixista Ondska e pelo baterista Danda. “Rei falho das coisas terrenas / Viciado em fraquezas humanas / Um deus apenas adorado por leprosos / A escória da terra, como sua própria imagem” – uma alusão ao santo divino que estaria a governar o mundo apoiado por seus dilemas obsoletos e imprestáveis, condenando uma população inteira à escravidão eterna. Ao continuar a leitura, nos deparamos com um breve lembrete também conhecido como introdução para a chegada de “Incinerated Heaven”, que nos polpa de maiores cerimônias e entrega o cálice repleto de sentimento profano e vontade de tocar o mais intenso possível cada nota para o topo da capela rache e desabe. São momentos assim que colocam em dúvida sobre qual parte do disco é mais extrema. Mesmo com tanta aceleração, é possível notar as nuances exercidas pelos paranaenses em busca de um aprecio maior do Metal extremo. Os guitarristas formam um belo duo de asseclas das forças do mal e provocam um híbrido excepcional entre as bases ríspidas e viscerais com toques precisos em acordoamentos mais agudos. “Feitiçarias apocalípticas /… para ser cumprido nesta noite mortal / Sob as asas do arcanjo profano /…nós atacamos / Iremos atacar impiamente!” – Cadáveres celestiais, pilhas de ruínas, penas extraídas alimentam nossas chamas que servirão de combustível para derrubarmos os portões do céu pela sabedoria esquecida, onde deve-se banir o divino assim como as sombras que reinavam de forma suprema nos velhos tempos de bruxaria e magia negra, dentre outras feitiçarias.

“Sovereign Antichrist” anuncia para todo o exército do levante antidivino que estamos perto do fim dos trabalhos por aqui e sem nenhum tipo de cerimônia é dada a largada para o avanço daquele que reclama o seu trono. Vintras acompanha o ritmo frenético de seus compatriotas de banda e mostra todo o seu poder ofensivo diante de uma defesa iluminada frágil que se parte como porcelana ao cair no chão. A máquina de bater bife come solta no certame musical e é proferida pelo bravo e incansável Danda. Um pouco mais cortante e beiraria o Speed Metal em versão completamente extrema. Algo para enveredar e impor ao mundo que estamos próximos de uma verdadeira batalha campal e espiritual. Sobre um criador que mata sua prole, um salvador inútil e moribundo que nada mais é do que uma fábula inofensiva para controlar a vida dos tolos que sem razão alguma o segue mesmo com seu descarado desprezo e falso sorriso, onde os humanos sujam suas mãos com o sangue dos deuses atingidos por eles, e o mesmo cria uma figura imaginária como o seu próprio olhar e suas próprias ambições. “Onde brasas ferozes devoram sua carne / Correntes incandescentes prendem seu coração / Coro enlouquecido ressonou em mente / Convidando-os a cometer suicídio ritual.”

O álbum se encerra com um dedilhado misterioso, acompanhado por um leve e breve coro ao fundo. O clima é propenso para diversas atrocidades que virão a seguir… Os primeiros acordes distorcidos acontecem e despertam os vocais para a faixa “Ravenous Demonium”, que conta com a participação do vocalista Magus Dux Adramelech, que divide os vocais com Vintras. Um pouco menos impetuosa que sua irmã anterior ela coloca outros temperos nesse molho insano que borbulha sangue puro. Mas, logo retoma o posto das extremidades malevolentes e ricas em blast beats quase infinitos. Porém, há momentos de respiro e levadas mais cadenciadas que tornam esta canção muito tranquila de digerir. “Intervenção divina / De esplendor infernal / A terra vai sofrer / Mil anos / Mil anos mergulhado nas sombras / Como desespero e dor / Enegrecer os céus” – logo ao toque de um sino sua alma será dilacerada em meio a um canto lúgubre, pois o diabo está sempre perto nas entrelinhas do destino das sombras que se alongam e tomam conta do terreno ao entardecer e olhos que queimam como carvão em brasas de vistas nebulares que dobram o tumulto junto ao cosmos que avisa aos navegantes que chegamos ao fim desta etapa com altas doses de boa vontade e qualidade no quesito música. A trinca está formada e se fortaleceu ainda mais após o fechamento da mesma com este esplêndido álbum. Que durante a retomada dos shows, o Blackmass possa figurar nos mais renomados festivais que almejar participar. Afinal, trata-se de uma horda muito interessante a ponto de poder figurar entre as principais bandas nacionais do estilo.

“Canções fúnebres ecoam

Nas paredes do castelo celestial

Esquecido nas sombras

Esta noite temerá o teu nome

Um julgamento infernal começa

Deus foi condenado e culpado

Cadafalso foi construído no céu

Para punir essas mentiras bíblicas”

Nota: 8,7

  • Integrantes:
  • Vintras (vocal)
  • Lord Aeshma (guitarra solo)
  • D. Katharsis (guitarra)
  • Ondska (baixo)
  • Danda (bateria)
  • Participação especial:
  • Magus Dux Adramelech (vocal na faixa 8)
  • Faixas:
  • 1. Wrath Of Legion
  • 2. Rising Suphur
  • 3. Mortuus Est
  • 4. Black Crowned Kings
  • 5. Descendit Ad Infernus
  • 6. Incinerated Heaven
  • 7. Sovereign Antichrist
  • 8. Ravenous Demonium
  • Redigido por: Stephan Giuliano

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