Gritos do Submundo reúne FHC, Ofith, Subser e Pigmachine em retrato brutal do underground paulistano

A cena underground de São Paulo acaba de ganhar um registro que vai muito além de uma simples compilação. Lançada nesta sexta-feira, 26 de junho, a coletânea “Gritos do Submundo” reúne FHC (Fim da Humanidade Capitalista), Ofith, Subser e Pigmachine em um formato 4 Way Split, com 28 faixas que atravessam diferentes vertentes da música extrema.
A proposta chama atenção justamente por fugir do modelo mais comum de coletâneas, normalmente baseadas em uma ou duas músicas de cada artista. Em vez disso, cada banda apresenta uma sessão completa, dando ao ouvinte a chance de mergulhar com mais profundidade nas identidades de quatro nomes. Aliás, embora partam de referências distintas, carregam o mesmo espírito de resistência e independência.
O resultado percorre terrenos como grindcore, punk, hardcore, stoner, sludge e metal extremo, sem tentar esconder suas diferenças. Pelo contrário: é justamente essa diversidade que dá força ao projeto. Em um momento no qual muitos eventos e line-ups acabam repetindo fórmulas, “Gritos do Submundo” aposta no contraste entre estilos. Dessa forma, o projeto encontra uma maneira de ampliar a experiência de quem escuta.
A ideia partiu do produtor Fábio Moysés, conhecido também por seus trabalhos em bandas como Sacrifix, Perpetual Requiem, Malevolent Age e Pigmachine. Segundo ele, o gosto por coletâneas vem de longa data e sempre esteve ligado à possibilidade de descobrir novos artistas.
“Sempre fui fã de coletâneas. Antigamente, era uma das melhores formas de conhecer bandas novas — e ainda acredito nisso. Já participei de algumas e sempre achei uma experiência muito rica.”
No entanto, Moysés queria ir além de um lançamento fragmentado. A intenção era construir um material que apresentasse blocos mais completos de cada grupo, permitindo que a coletânea tivesse peso próprio e não funcionasse apenas como uma vitrine rápida de faixas soltas.
“Eu gosto de ouvir bandas rápidas e pesadas, independentemente do estilo. Foi exatamente isso que busquei aqui. Tem grind, punk, hardcore, stoner e metal — bandas que descarregam peso, atitude e honestidade.”

Quatro nomes de peso integram o projeto
Entre os nomes envolvidos, a FHC carrega uma trajetória importante dentro do punk/hardcore paulista. Formada em 1998, na Zona Norte de São Paulo, a banda construiu seu caminho com letras ácidas, posicionamento social e forte ligação com a cena periférica e os movimentos culturais independentes. Em sua discografia aparecem títulos como “Correria”, “666% Jesus”, “Massacre Capetalista”, “Tempos de Guerra” e o registro “FHC ao Vivo no KMF (25 Anos)”.
Já a Ofith, formada em 2017, representa uma abordagem mais densa e atmosférica, misturando elementos de alternative metal, stoner, sludge e sonoridades experimentais. Depois do EP “Grief and Hope”, de 2023, o grupo passou a ampliar sua presença ao vivo e segue consolidando um som que se distancia de rótulos fáceis.
Um dos momentos mais carregados de significado em “Gritos do Submundo” vem com o Pigmachine. A banda presta homenagem a Marcão “Cyborg” Masiero, primeiro baixista do Genocídio, falecido em 2024. A faixa ganha ainda mais peso com as participações de Murillo Leite, do Genocídio, e Rodrigo Malevolent, do Malevolent Age, transformando a homenagem em um encontro entre memória, agressividade e respeito a uma figura importante da cena.
A produção do material ficou a cargo do próprio Fábio Moysés, enquanto a mixagem e a masterização foram assinadas por Marco Nunes. A arte ficou por conta de Marco Saturnino. Mais do que reunir quatro bandas em um mesmo lançamento, “Gritos do Submundo” funciona como uma fotografia de uma cena que segue ativa justamente porque continua sendo construída por quem vive o underground na prática, longe de tendências passageiras e sem necessidade de concessões.
“Gritos do Submundo” já está disponível nas plataformas digitais.