5 bandas que passei a gostar a partir de uma música – Parte 2

Os primeiros contatos com o Rock e, consequentemente, com o Heavy Metal, são muito importantes para o desenvolvimento do gosto musical. Nem sempre se tem aquele familiar ou amigo que poderia indicar uma banda ou até mesmo um disco em específico. Você se identifica ao ouvir o rádio em determinado momento do dia, ao entrar em algum estabelecimento que esteja tocando música – pode ser até mesmo uma loja de discos, o que seria até mais plausível – e que te pegue de assalto. Fitas gravadas por algum amigo, pastas de mp3 com listas de bandas e músicas variadas ou até mesmo bem organizadas. Plataformas digitas e derivados, enfim.

Várias são as situações a qual você pode se deparar com um som ou com um álbum e este, por sua vez, acabar por te tornar um fã declarado daquele artista. Aqui, citarei dois exemplos que formam o verdadeiro intuito deste nobre e novo quadro.

Creio que não seja preciso explicar novamente como o quadro funciona, mas se você ainda não conferiu a parte inaugural deste tema, aproveite para clicar AQUI e conferir as explicações breves sobre o funcionamento da trama. Portanto, vamos direto ao assunto e às cinco músicas da vez!

Behemoth – “The Thousand Plagues – I Witness”

A Polônia se tornou um dos grandes berços do Metal extremo ao longo dos anos e consolidou essa fama ainda na década de 90. Eu já comentei como passei a gostar do Vader, mas agora a história pertence a um conterrâneo diferenciado. Suas raízes se calcavam no Black Metal; no entanto, a inquietude criativa de seu líder, vocalista e guitarrista, Adam Darski, vulgo Nergal, começou a mudar o rumo da prosa através do seu terceiro álbum de estúdio, “Pandemonic Incantations” (1998).

É claro que falo do Behemoth! Além disso, para o dono do nanquim virtual aqui, a jornada realmente frutífera começa neste disco. Contudo, eu não o conheci de imediato. Naquela época, eu estava conhecendo bandas novas e adentrando cada vez mais fundo na caverna abissal do Metal podre e indigesto à maioria. Como o Death Metal é e sempre será a alma do negócio, eu não estava muito distante dos trabalhos do Behemoth.

O chamado das profundezas do Metal polaco

Certo dia, enquanto ouvia sons pesados e aleatórios, me deparei com um nome meio grande e separado com traço. Ademais, a capa incluía um desenho meio dourado em um fundo preto. Essa identidade visual chamou a minha atenção e me fez ouvir o som com mais calma. De repente, “The Thousand Plagues – I Witness” invadiu a minha lista de reprodução. A faixa interrompeu todo o meu trajeto e me forçou a anotar o nome em um papel. Nessa época, a internet era escassa, mas o sangue metálico corria forte pelas minhas veias e me impulsionava cada vez mais adiante.

Aquele som infernal, estridente e com efeitos catastróficos me conduziu a um nível de submundo jamais visto. Do mesmo modo, os vocais narrados de forma profética e apocalíptica só ampliaram a minha curiosidade, enquanto a bateria de Inferno se mostrava cada vez mais extrema e nefasta. Por fim, o ritmo repugnantemente insano e repleto de enxofre me levou a ouvir o disco completo. Entretanto, eu só fiz isso depois de escutar essa música várias vezes, selando o meu pontapé inicial para gostar do trabalho do Behemoth.

Ficha técnica de “The Thousand Plagues – I Witness” (Behemoth)

  • Música: “The Thousand Plagues – I Witness”
  • Lançamento: “Pandemonic Incantations” – 2 de março de 1998
  • Selo: Solistitium Records

Integrantes:

  • Nergal (vocal, guitarra, baixo)
  • Inferno (bateria)

Músico convidado:

  • Piotr Weltrowski (teclado)

Arkona – “Liki bessmertnykh bogov”

O fim oficial da União Soviética (URSS), em 26 de dezembro de 1991, redesenhou as fronteiras europeias. Como consequência dessa fragmentação, surgiram várias nações novas e outras recuperaram a soberania antiga. Países como a Iugoslávia e a Tchecoslováquia também se dividiram, enquanto a queda do Muro de Berlim unificou as Alemanhas Oriental e Ocidental. Essa grande transformação geopolítica no início da década de 1990 coincidiu exatamente com uma revolução no cenário do Heavy Metal mundial.

Se antes os regimes tirânicos isolavam esses territórios e impediam o surgimento de bandas, após essas mudanças a abertura política facilitou tudo. Foi nesse contexto que conheci o Master (Мастер, no original), a primeira banda de Thrash Metal que ouvi vinda da Federação Russa — a qual não se deve confundir com o Master norte-americano. No entanto, eu não dei muita atenção ao grupo na época e decidi seguir em frente com minha curiosidade, caçando novas e antigas bandas de qualquer lugar do mundo.

As faces dos deuses me mostraram o caminho eslavo

Mais tarde, após ter contato com o Folk Metal e com vertentes que misturam elementos pagãos ao Metal extremo, deparei-me com um nome especial: Arkona (Аркона). Descobri logo de cara que uma mulher assumia os vocais. Contudo, ela não era uma vocalista comum; parecia uma deusa condecorada pelo Black Metal — época em que eu também conhecia o Astarte, só para exemplificar.

Eventualmente, uma música específica repaginou todo o meu pensamento sobre a fusão de Metal com mitologia local. Trata-se de “Liki bessmertnykh bogov” (Лики бессмертных богов), que significa “rostos (ou faces) dos deuses imortais”. O Arkona compôs a faixa inteiramente em seu idioma natal, inserindo definitivamente o alfabeto cirílico nas minhas audições seguintes. Todavia, seria algo extremamente comum que eu descobriria pouco depois.

Nessa canção, Maria Arkhipova (Мария Архипова) — mais conhecida como Masha Scream — transmite um misto de lamúria, revolta, esperança e apoio nas tradições russas. Além disso, Masha exibe um ímpeto impressionante por meio de sua voz diferenciada, cantando com um sotaque único e fora do comum, sem jamais se render ao inglês habitual. Ela demonstra, por fim, extrema habilidade, versatilidade e técnica ao transitar com facilidade entre vocais guturais, drives e linhas limpas.

Ficha técnica de “Liki bessmertnykh bogov” (Arkona)

  • Música: “Liki bessmertnykh bogov”
  • Lançamento: “Goi, Rode, goi!” – 28 de outubro de 2009
  • Selo: Napalm Records

Integrantes:

  • Masha “Scream” (vocal, teclado, tamborim, chocalho, komuz)
  • Ruslan “Kniaz” (baixo)
  • Vlad “Artist” (bateria)
  • Sergey “Lazar” (guitarra, balalaika, komuz, harpa de boca de Yakut – faixa 10)

Besatt – “Stworzony z blyskawicy”

Mais uma vez a Polônia surge com um grande representante do Metal extremo. Dessa vez, no entanto, eu já conhecia o arsenal sonoro deste nobre país. Eu já achava o som do Besatt interessante, embora a banda não chamasse tanto a minha atenção quanto gigantes como Behemoth ou Vader. Apesar disso, eu já apreciava o Black Metal e escutava algumas bandas bem mais desconhecidas do público geral do que o próprio Besatt.

Contudo, o Besatt só me conquistou de vez em 2015, quando lançou o EP “Impia Symphonia”. Primeiramente, a arte da capa despertou o meu interesse imediato ao exibir uma freira com suas curvas frontais em meio a detalhes escuros e um violino. Aquela atmosfera de Idade das Trevas logo me relembrou os tempos de RPG. Embora eu prefira álbuns completos (full-lengths) e não seja muito apegado a EPs, decidi ouvir o material. Durante a audição, percebi um detalhe fascinante: a banda canta todas as músicas em polonês, mantendo apenas o título do EP em latim.

Uma sinfonia clássica das profundezas do submundo

Mesmo assim, ainda faltava a cereja do bolo. Eu precisava daquele amargor definitivo para mergulhar no submundo musical que o vocalista e baixista Beldaroh, junto ao guitarrista Astaroth e cia., criaram. Felizmente, essa resposta veio justamente na última faixa da lista. Inclusive, o EP entrega ótimas composições e bastavam mais duas ou três músicas para a banda lançá-lo como um álbum completo. Falo especificamente de “Stworzony z blyskawicy”, uma marcha fúnebre espetacular que transmite com maestria a emoção do fim dos tempos e resume várias batalhas em uma só jornada. A faixa compila toda a desgraça mundana e submundana por meio de um ritmo capaz de incendiar lares ortodoxos.

Nessa obra, as guitarras ardem em chamas e abrem caminho para uma camada épica, lamuriante e tenebrosa, que certamente horripila os espíritos mais sensíveis. Ao mesmo tempo, a bateria surge como um helicóptero por trás das altas montanhas, como se filmasse e catalogasse a queda completa da fé. Por fim, o baixo funciona como o rotor que mantém esse maquinário girando e contabilizando a ruína religiosa por mais de 9 minutos. Em minha singela opinião, a banda criou um verdadeiro hino do Black Metal e a melhor música de toda a sua trajetória.

Ficha técnica de “Stworzony z blyskawicy” (Besatt)

  • Música: “Stworzony z blyskawicy”
  • Lançamento: “Impia Symphonia” – 1 de junho de 2015
  • Selo: Warheart Records

Integrantes:

  • Beldaroh (vocal, baixo)
  • Astaroth (guitarra)
  • Exernus (bateria)
  • Colossus (guitarra)

Eluveitie – “Your Gaulish War”

A Suíça consagrou seu arquiduque do Metal, Tom Gabriel Fischer – mais conhecido como Tom Warrior – criador do Hellhammer, Celtic Frost e Triptykon, sendo este último, seu projeto atual. O território helvético também revelou o Coroner e, mais recentemente, mostrou a força do Metal feminino com o Burning Witches. Nesse entrevero, acabei descobrindo uma joia rara no meio de tantos nomes de qualidades variadas.

No início, quando passei a ouvir Folk Metal, bandas como Korpiklaani logo integraram a minha lista de audições. Contudo, eu buscava algo específico: uma mistura real de instrumentos de época com Metal extremo.

Tempos depois, me deparei com o Eluveitie. A banda chamava a atenção logo de cara por ter mais integrantes que o normal, parecendo quase um time de futsal com titulares e reservas. De imediato, notei que o formato guardava certa ligação com a proposta que o Arkona já havia me apresentado. Porém, os suíços traziam algo diferenciado, com diferenças sonoras evidentes que enriqueceram meu cardápio musical.

A lembrança de um trabalho qualificado

Diferentemente das outras bandas que citei, o Eluveitie até me conquistou a partir de uma única música, que me guiou diretamente ao disco. Infelizmente, não houve continuidade nesse processo. Isso porque a banda mudou drasticamente o seu direcionamento musical posterior, jogando água no meu chopp. Embora tenham lançado materiais interessantes recentemente que relembram esse início, o som atual ainda está longe do nível que me cativou no passado.

A música responsável por essa admiração atende por “Your Gaulish War”. Ela começa com um dedilhado calmo em meio ao barulho das águas, mas logo se revela um dia de guerra. Em seguida, os instrumentos de época se aliam aos riffs de Death e Heavy Metal, transformando o som em um verdadeiro redemoinho de emoções. A faixa carrega um requinte cinematográfico e funciona perfeitamente como trilha sonora, pois abriga várias climatizações e abre espaço até para uma bela valsa.

Nesse trabalho, Chrigel Glanzmann, Sarah Kiener, Meri Tadić e Linda Suter dividem os vocais do disco, mas, nessa composição específica, apenas a voz de Chrigel ecoa pelos versos. Além disso, vale destacar o excelente trabalho de guitarras da dupla Sime Koch e Ivo Henzi. Em suma, essa música repleta de flautas e whistles me fez apreciar essa grande música do Eluveitie e, consequentemente, o seu debut “Spirit”.

Ficha técnica de “Your Gaulish War” (Eluveitie):

  • Música: “Your Gaulish War”
  • Lançamento: “Spirit” – 1 de junho de 2006
  • Selo: Fear Dark Records

Integrantes:

  • Ivo Henzi (guitarra rítmica)
  • Merlin Sutter (bateria)
  • Rafi Kirder (baixo)
  • Sevan Kirder (flauta irlandesa, tin whistle – flauta de lata), gaita de fole, vocais de apoio)
  • Meri Tadić (fiddle – violino tradicional, vocais femininos)
  • Linda Suter (fiddle – violino tradicional, vocais femininos)
  • Sime Koch (guitarra solo)
  • Chrigel Glanzmann (vocais principais, violão, mandola, uilleann pipes – gaita de fole irlandesa, shepard pipe – flauta de pastor, flautas)
  • Sarah Kiener (hurdy gurdy – viela de roda, baixo-xamie – instrumento de sopro antigo, cromorne – instrumento de sopro renascentista, zugerörgeli – acordeão suíço, vocais femininos)

Músico convidado:

  • Toby Roth (arcordeão)

Marduk – Still Fucking Dead (Here’s No Peace)

Certas músicas têm o poder de mudar nossa mente. Elas nos fazem gostar de uma banda mesmo sem conhecermos toda a sua história. Eu já conhecia o Marduk por ouvir faixas soltas e por acompanhar a fama desse “tanque de guerra sueco do inferno”. Além disso, o público quase nunca criticava a sonoridade da banda, mesmo com um Black Metal voltado para a ala mais extrema e intensa do estilo. Como resultado, o forte reconhecimento da horda escandinava serviu como um excelente aperitivo para eu mergulhar de vez em sua discografia.

No entanto, o som do Marduk ainda não fazia parte do meu cardápio sonoro diário, embora eu já conhecesse algumas músicas e soubesse o nome de certos discos. Por isso, decidi ouvir toda a discografia em ordem cronológica, incluindo EPs, demos e o que mais estivesse disponível. Iniciei esse ritual negro já no segundo milênio, começando pela demo “Fuck Me Jesus”, de 1991. Em seguida, pelo debut “Dark Endless”, lançado em 1992.

O subgênero das trevas forjado no Metal da morte

Imediatamente, o início da banda me chamou a atenção porque o grupo flertava bastante com o Death Metal. O mesmo ocorreu, por exemplo, com o Darkthrone no álbum “Soulside Journey”, de 1991. Contudo, a faixa que realmente abriu as portas da minha mente para a discografia do Marduk foi “Still Fucking Dead (Here’s No Peace)”. Essa música entrega um som direto com riffs que resgatam a energia do início dos anos 90, alternando entre camadas incisivas e momentos mais densos com velocidade moderada. A canção também apresenta muitas variações de riffs e uma pegada totalmente old school.

Enquanto Andreas Axelsson vocifera feito um demônio recém-saído do inferno, os guitarristas Devo Andersson e Morgan “Evil” Håkansson constroem toda essa estrutura pesada. Ao mesmo tempo, o baixista Rickard Kalm e o baterista Joakim Grave garantem o alicerce sonoro ideal. Finalmente, vale destacar que a música dispensa solos, pois a banda a concebeu para sobreviver perfeitamente sem eles. Desde então, passei a admirar e gostar de verdade do som impetuoso do Marduk.

Ficha técnica de “Still Fucking Dead (Here’s No Peace)” (Marduk):

  • Música: “Still Fucking Dead (Here’s No Peace)”
  • Lançamento: “Dark Endless” – 23 de dezembro de 1992
  • Selo: No Fashion Records

Integrantes:

  • Andreas Axelsson (vocal)
  • Devo Andersson (guitarra)
  • Morgan “Evil” Håkansson (guitarra)
  • Rickard Kalm (baixo)
  • Joakim Grave (bateria)
Deixe seu comentário